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o abraço

20140125-101236.jpgAcordou sozinho, nesse Domingo de Páscoa. Era a primeira celebração da Ressurreição de Cristo que havia de passar fora do seu Caramulo. A primeira celebração que havia de passar longe da família. Acordou com a boca seca e o sabor a saudade. Correu, fugindo aos cânticos alegres que entoavam na Igreja em frente, para o mar, para esse Atlântico purificador que banha a Ilha, esse mar que, a cada ano, recua derrotado pela Babel que é hoje Luanda. Cumprido o ritual matinal de Domingo, é hora de regresso a São Paulo. Pelo caminho, camisolas vermelhas a lembrar que também ali há Portugal, a lembrar-lhe essa outra festa prometida para mais tarde, essa outra celebração que, para ele, soava desta vez mais a Via Sacra do que a Ressurreição.

Luísa, sua filha, aguardava esse mesmo jogo. Mas longe, demasiado longe. Luisa, sua filha, era sua companheira de mesas de café onde, juntos, vibravam com as camisolas berrantes, onde, juntos, discutiam substituições, penalties e foras-de-jogo. Sem isenção, sem parcimónia, mas com cumplicidade. Nunca esperara que o futebol se tornasse esse forte elo entre eles, entre pai e filha. Nunca esperara, nunca o procurara, nunca precisara dele. Mas o certo é que ali estava ele, o jogo que os fazia abraçarem-se em bancadas de Estádios, comemorando golos de Cardozo, Martins, Lima ou André Gomes. Que os fazia rir vitórias ou chorar derrotas. Ou traumas recentes que não serão lembrados hoje quando, mais logo ele sair para a Vouzelense pensando na Luisa. E mais ainda quando, no calor de Luanda, sair com um cachecol vermelho. Tão inapropriado como a distância que o destino entendeu colocar entre ele e Luisa, sua filha. No dia de Ressurreição de Jesus. No dia do 33º título do Campeão dos Campeões. Hão-de comemorar juntos sim. Faltará, em todo o caso, esse abraço que hoje, mais do que qualquer outra coisa, desejava…

Enzo

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Que o Sporting morreu, que o Sporting não jogou, que Jardim inventou. São estes os comentários reinantes hoje. E não podiam ser mais errados. O Sporting jogou o que pode, o que lhe foi permitido. O Benfica esse jogou, e jogou bem, fez uma partida segura e tranquila, e fez esquecer tempos recentes, fez esquecer tempos em que se falava à boca cheia da desunião do balneário, da equipa contra o treinador, da iminência de um golpe palaciano. Tudo isso é passado, tudo isso é tormenta que passou. E Sálvio continua lesionado, Cardozo no banco, Matic no Chelsea e Garay com a cabeça cheia de rublos. E no entanto o Benfica sobrevive e, mais do que isso, joga. E reinventa-se, Fejsa revela-se, Enzo confirma-se, Maxi reergue-se das cinzas. E depois há Enzo Perez. Enzo é talvez o caso mais significativo, é a bela história do proscrito tornado herói, do dispensável feito pedra basilar. Basta vê-lo jogar para perceber o que ele já percebeu, que jogar no Benfica, jogar como ele joga de encarnado é abrir uma enorme porta para a eternidade, para a memória dos adeptos, que é a mais bela forma de eternidade. Tempos distantes chegarão em que o campo parecerá mais vazio sem o n°35, tempos haverão em que as bancadas da Luz não se curvarão perante o grande Enzo, em que a sua emoção não dominará ondas hertzianas, desaguando depois em todas as TVs e no coração dos que amam o Benfica. Sim serão tempos distantes em que Enzo existirá apenas nas memórias daquele dia de lágrimas em Amsterdam, ou do nó cego a Dier e Patrício de ontem. Ou das muitas recordações que esperam ser construídas, na Luz ou em qualquer Estádio, jogando a 8, ou a 6, ou mesmo a 10, pouco importa. O certo é que Enzo perdurará. Ele percebeu o caminho. E nós, todos nós lhes estamos gratos por isso.

o derby

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Vezes sem conta o disse, o meu futebol, o meu Benfica é o das pessoas. Dos que, dentro ou fora de quatro linhas, amam o jogo e fazem do Benfica uma família, imperfeita, falível mas eterna e apaixonante.
É de pessoas, pois, que o derby de amanhã se fará. Nomes que surgirão, um atrás do outro nas bancadas, nas roulotes, nomes que trarão saudade imensa e sorrisos aberto. E risos, e lamentos. Nomes que, duma forma ou de outra, vestiram e honraram aquelas camisolas que pesam hoje em outros ombros. Falar-se-á de Mantorras, claro, e de João Pinto. Mas também de Beto e Fernando Aguiar. Caniggia, Paneira e Isaías. Schwarz e Magnusson, Rui Costa e Aimar. Todos com uma imperial numa mão e uma bifana na outra.
Enquanto isso, do outro lado da segunda circular olha-se para o passado buscando razões para um futuro glorioso que teima em não aparecer, um futuro absurdamente maior do que a sua dimensão. Da que realmente têm, não da que efabulam. E nessa grandiosidade delirante cabem apenas bolas de ouro, Figo, Ronaldo e até, pasme-se, Eusébio. Pelo caminho, pelos caminhos do esquecimento vão caindo outros que, não sendo do mesmo quilate, brilharam em Alvalade, que tiveram papel significativo no atribulado percurso do clube. Nomes como Beto Acosta, Peter Schmaichel e até Liedson e Polga mereciam melhor sorte, mereciam a memória dos adeptos. Mereciam fotos no facebook, mereciam conversas de ocasião em dia de jogo.
Há derby, amanhã. E se dum lado estarão em campo Preud’Homme, Coentrão, Ricardo Gomes, Mozer e Veloso, Thern, Valdo, Simão e Poborsky,
Nuno Gomes e Rui Águas, do outro lado somente Figo e Cristiano, serão lembrados. Do outro lado apenas soberba. E uma derrota certa, perante tão desigual contenda.

(Para o Capareira que gostava de ver amanhã, no Estádio da Luz)

O meu Benfica

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Não, não vi Eusébio jogar, e não, não fui ao Estádio da Luz em tenra idade. Nasci no Porto e cedo regressei ao Caramulo dos meus pais, onde passaria a minha meninice e adolescência jogando à bola em todos os cantos em que me era possível, do trapezoidal pátio do velho sanatório construído por meu avô até ao recreio da escola primária com icónicos cubos de granito em vez de balizas. Ou no adro do cemitério, o que obrigava não raras vezes a saltar o alto portão para resgatar a bola de entre as campas. No pequeno parque que viria a ser o recinto da festa de Santa Margarida, fintando árvores e driblando raízes, marcando golos em balizas imaginárias. Sim, o meu futebol era o que se jogava na rua, o futebol dos amigos, dos colegas, dos companheiros. E esses eram invariavelmente do Benfica ou do Sporting. Apenas esses tinham dimensão nacional, apenas esses atravessavam o vale subiam à serra, apenas esses. Ser do Porto, do meu Porto natal, seria ser tão bairrista como escolher o Académico de Viseu por critérios de proximidade. Tão exótico como ser do Belenenses. Ou do Leixões. Seria um grito de diferença, uma necessidade imperiosa de afirmação. De confronto. Não, a minha escolha foram os amigos, companheiros de bola e de joelhos esmurrados. Foi o Jorge e o Chico. Foi o meu Pai, Benfiquista discreto e sensato. A minha escolha foram os afectos, as pessoas. E é esse o meu Benfica. Dos companheiros de bancada, ou de mesa de café, dos amigos, de aquém e além mar, da Escócia da Sofia ao Brasil de Rubinho, da Bragança do Blitz a Angra do Heroísmo do Capareira. De Fernando, meu pai, a Luísa, minha filha. É esse o Benfica que, antes de ser escolha minha, me acolheu. De braços abertos.

A voz do dono

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E pronto, o Porto perde e, acto contínuo, regressam os ataques às arbitragem vergonhosas e desonestas. Limpinho, limpinho. E déjà vu. O que é diferente, neste caso, são os dias que separaram os factos da reacção. E se do velho Dono já se espera lentidão nos processos, o dócil cachorrinho esperou dias infindos para reagir. Para, embevecido com os elogios da esposa, urdir contra cabalas misteriosas que visam derrotar fora do campo uma equipa que, já o disse bastas vezes, roça a perfeição. Sem perceber que a derrota da Luz é dele. Só dele e das suas opções. Contra um Benfica que, longe de brilhante, não foi sequer empolgante. Que ganhou porque jogou o seu jogo, não o do Outro. Que escolheu os 11, os seus 11, pondo de lado cautelas e caldos de galinha. Que teve no banco um Jesus sem Paulo Fonseca, como nunca conseguiu ter um Jesus sem Vitor Pereira. E a escolha de Oblak, quando todos esperavam Artur, é talvez o melhor exemplo. Enquanto isso, do outro lado subia Helton, em vez de Fabiano. E, se não foi pelo Esloveno que o Benfica ganhou, pode perfeitamente ter sido por Fabiano. Pela ausência dele. Ou, em última análise, por Paulo Fonseca. Pela ausência dele. Pela ausência de alma, vendida nas últimas jornadas da época passada, vendida por trinta dinheiros, ou por um prato de lentilhas.
Já era pois, tempo de Paulo Fonseca travar as suas guerras. Não esperar que a mão do dono lhas indique.

O meu, o nosso Benfica…

28042011493O Benfica de Eusébio é o meu Benfica. É, aliás, o Benfica de todos nós, benfiquistas ou não. É o Benfica que nunca desiste, que nunca se dá por derrotado, que sobretudo nunca se dá por perdido.
O meu, o nosso Benfica é o que não esqueceu Mantorras na infeliz hora da despedida. Não o que lhe fez uma despedida vazia, não o que foi incapaz de lhe dar um minuto sequer, no ano do 32° título de campeão.
O meu, o nosso Benfica é o que trata todos os jogadores como seus, por nascimento, criação ou adopção. Não o que os  abandona na Roda de outrora, hoje sob forma de empréstimos ad eternum.
O meu, o nosso Benfica é o que venera Deuses e mitos, em campo, nas bancadas, na memória, no coração. Não é que se apressa em prometer efígies em camisolas e anos de luto. Ou nomes em estádios, pavilhões ou centros de estágio.
Não é o meu Benfica, não é certamente o de Eusébio. E se, mesmo que por breves dias, nos esquecemos disso, não lhe fazemos honra. A Eusébio ou ao seu Benfica. Ao nosso.

Pepsi

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Nada como o abismo para nos levar ao futebol. Foi preciso o dramatismo de mais um play-off para resgatar a nação de Scolari, adormecida pela tranquilidade de Paulo Bento, pela pobreza da campanha de qualificação. E como voltou, a geração das bandeiras chinesas à janela, como voltou essa geração cheia de patriotismo vazio, cheia de falso gosto por futebol, parca em urbanidade e sensatez. Nada como o futebol para nos levar ao abismo. Sim, admito que não se goste do anúncio da pepsi que, diga-se, até tem piada. Mas o levantamento que por aí se viu, redes sociais fora, é deprimente. Deprimente pela intolerância, deprimente pela desproporção, assustador pela inversão de valores. É de futebol que falamos, de um jogo, caramba. De um dos jogadores mais escandalosamente bem pago do mundo e de um anúncio de uma marca de refrigerantes. Não falamos de um boicote a uma marca que, fechando uma fábrica em Portugal, atira centenas para o desemprego. Não nos indignamos pelos lucros das maiores empresas portuguesas taxados na Holanda. Nós, que escolhemos fruta pelo preço, não pela origem geográfica. Não protegemos os nossos, salvo se forem bem sucedidos e andarem de chuteiras nos pés. Não nos indignamos com os desmandos e empobrecimento planeado a que somos sujeitos, dia após dia, ano após ano, com troika ou sem ela. Não nos levantamos contra mentiras infames e inverdades todos os dias repetidas. Não mexemos uma palha contra as indignidades que a toda a hora nos entram pelos olhos dentro. A não ser que seja absolutamente irrelevante. Não é este o meu país, não é este o meu futebol. Este país merece campanhas ridículas, sim, merece enxovalhamentos, é um país sem vergonha e sem decoro. Sem auto-estima. Salvo se ela vier em forma de remate cruzado que, partindo da Suécia termine no fundo das redes lá longe, no Brasil. Sinceramente não tenho estudos para isto.

Estádio de Marte

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Quis o destino que este derby o passasse no Caramulo, quis o destino que, não sendo transmitido em canal aberto, este jogo o visse no café Marte. No velho Marte da minha infância, onde se jogava bilhar às três tabelas ou matraquilhos, onde se compravam jornais, onde se liam jornais da casa com enormes travessas de madeira, onde se compravam pastilhas Pirata ou se furavam os paineis de bolinhas da Regina esperando um qualquer prémio. No Marte, ontem dividido entre os dois lados da segunda circular, ambos bem representados, enchendo o café como nunca o vi. Sim, no meu Caramulo as grandes disputas ainda são entre o Benfica e o Sporting, no meu Caramulo as preferências futebolísticas continuam a passar de pais para filhos, eternizando rivalidades antigas, perpetuando paixões e ódios de estimação. Pais, filhos e netos que ontem se juntaram ali para assistir a um grande jogo de futebol, ali, naquele café, onde em dia de derby não há lugar para parcimónias, para falinhas mansas, contemplações ou meias-medidas. Ali grita-se alto, berra-se a plenos pulmões, salta-se da cadeira a cada golo de Cardozo, vibra-se, sente-se, vive-se futebol como se, gritando dali, do cimo da Serra do Caramulo, as vozes se ouvissem lá, em baixo no relvado. Ouviu-as Cardozo, felizmente. Patrício, esse estava longe demais.

Pireu

rocks

Chegado ao Pireu, para uma escala de poucas horas, apressei-me em procurar uma forma de subir à Acrópole. Na parede, um cartaz anunciava 12€ como sendo o preço de uma viagem de taxi até ao monte sagrado. Assim foi, entrámos no taxi e rumámos a Atenas, passando pelo estádio do Olympiakos antes de nos embrenhar em ruas inclinadas que nos haviam de deixar no sopé da Acrópole. O taxímetro marcava algo em torno de 11€ quando, como que por artes mágicas, passou subitamente para os 27€ que o taxista me exigiu. Argumentei que era um absurdo, que o cartaz apontava para 12€, ao que me respondeu “where?”, olhando para trás, procurando ver o Pireu. Deixei uma nota de 10€ e saí do carro com um apressado “keep the change”.
Anos depois o taxista vingou-se. Imagino-o hoje, em pleno estádio, venerando Roberto, fazendo gestos obscenos para a claque Portuguesa, procurando-me entre eles, vociferando “keep the change, bitch”…

O vento

O vento sopra, finalmente. O vento sopra nas Geraes trazendo com ele a insuportável saudade do meu Benfica. A vontade de estar lá, agora, como se Alvalade fosse ali, do outro lado da Serra do Curral, como se 7.500km se esfumassem sob o peso do desejo, como se a distância dos últimos meses sucumbisse perante a imagem das camisolas berrantes. O vento sopra, finalmente, mas o vento que cala a desgraça, o vento que nada me diz, deixa espaço para a ilusão, para a subida de Aimar ao relvado, sim, de Aimar, como se o 10 nunca nos tivesse deixado pela porta pequena. Ou, pelo canto do olho, traz a imagem de Pedro Mantorras, no banco, assegurando que, se algo correr mal, ele estará lá, qual anjo vingador pronto a devolver às bancadas verdes a incerteza da sua mortalidade. Sim, do vento não constam os pequenos desmandos ou as grandes mentiras, neste vento não cabe Jesus dos últimos dias. O Jesus que com ele voa não se ajoelha jamais, o Jesus que vejo é o que transforma, com toque de Midas, inconstantes extremos em laterais de luxo, aquele que reabilita argentinos proscritos transformando-os em insubstituíveis 8’s. É o Jesus que nos devolveu o mais belo futebol de uma vida, não o que o desbaratou em dias tristes.
Olho para o papel e percebo que afinal a distância existe. Um oceano separa o sonho da realidade. Mas, que diabo, ainda temos Cardozo. E Tacuara pode não voar com o vento, mas, como sabemos, não perdoa nunca. Nem esquece. Que seja ele a salvar-nos. E a enterrar a distância que nos separa, que teima em interpôr-se entre nós e a nossa equipa, essa distância que dura há muito tempo. Há demasiado tempo.

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