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o fim

Sofia,

Duas noites, deixei que se passassem duas noites antes antes de escrever sobre Domingo. E, ainda que me tenha talvez suavizado os termos, a almofada não mudou o conteúdo do que se impõe dizer. Cheirou a fim-de-ciclo, aquele final de tarde, ponto de não retorno, sítio ao qual não se volta. Não falo da derrota, que esse foi o menor dos problemas. Falo do jogo lento e previsível, sem garra nem vontade, sem aquela avalanche de futebol que só o Benfica sabe. Ou sabia. Falo da postura passiva, da falta de ombridade com que se recebeu a derrota, da multidão a abandonar o estádio antes do fim do jogo. Não foi Benfica, aquilo, não o foi e nesta hora há que pensar porquê. E se não o foi, o dedo a apontar terá que ser a Jesus. Como o fez Cardozo, não sei se viste, fê-lo quando e onde não devia, mas mais não fez do que exteriorizar o que 6 milhões de Benfiquistas sentiam naquele preciso momento. A época estava perdida, mas não me conformo com a perda de atitude, de Benfiquismo, diria. Por isso te digo que Jesus deve sair, Por muito que me custe, e custa de facto. Sabes bem que sempre fui um defensor da continuidade, que sempre fui um defensor de Jesus. Fui-o até Domingo, precisamente. Terminou. Jesus desbaratou em minutos o que construiu, e bem, durante 4 anos. Se é injusto? Profundamente, Sofia, aterradoramente injusto. Jesus foi provavelmente o treinador que mais fez pelo Benfica nos últimos anos, que resgatou a mística e a relação com o público, que impôs um modelo de jogo próprio e reconhecível, que deu uma sucessão de passos importantes no caminho certo. Mas o que aconteceu no Jamor foi mau demais, foram muitos passos atrás, um regresso a um passado que já julgava enterrado. Por isso deve sair. Se vai para o Porto? Sim, estou certo disso, mas, ao contrário de outros, o Benfica não pode condicionar as suas decisões pelo que os rivais fazem ou podem fazer, somos Benfica e somos maiores do que tudo isso. Por isso deixo aqui um Adeus sentido e um Obrigado sincero. Até sempre Jesus.

Pedro

Domingo à tarde, lá para os lados do Jamor…

Sofia,

Obrigado pela tua resposta, consolo certeiro para este Benfiquista em fim-de-festa. Sim, é verdade, jogámos o melhor futebol que vi este ano, e nunca o termo Beautiful Game me pareceu tão apropriado, nunca tão merecido. Jogámos futebol com estilo próprio, frenético e desenfreado, de ataque, futebol universal e vistoso, reconhecível, mas sobretudo repetível. Repetiu-se ontem, em Wembley, quando a Luísa reconheceu a geometria dos passes vermelhos de Enzo, as recuperações de Matic, a variação de flanco passando por Garay e Luisão, seguindo para Maxi lançar Sálvio… Sim, aquele é o nosso futebol, foi com ele que o Bayern ganhou, foi nele que Robben se inspirou para matar o jogo de ontem. E foi essa a nossa vitória, ter jogado o nosso futebol e tê-lo jogado até ao fim, e continuá-lo a jogar hoje, dia de festa no vale do Jamor, com pique-niques, churrasco e porco no espeto, com fotos de família, bigodes e abraços. E golos, mais logo, golos de bandeira, passes de letra, toques de calcanhar. Recuperações in extremis, lançamentos longos, cavalgadas frenéticas e esforços inglórios. É tudo isso, a festa de hoje. Façamo-la, façamo-la como só nós sabemos, debaixo do sol Lisboeta, com o Tejo ao fundo. E só depois as férias.

Pedro

fim-de-festa

Sofia,

Não te falarei hoje dos desaires desta última semana. Até ao lavar dos cestos é vindima, e balanços guardá-los-ei para o fim. Hoje é dia de falar da ponta de tristeza que acompanha o fim da época futebolística, do ar de fim-de-festa, do terror da silly season, das longas semanas de ausência de futebol, notícias disparatadas, contratações certas e mais tarde abortadas, jogadores desviados para os rivais, dispensas e demais manobras que mais não fazem do que aumentar o desejo por uma nova época, por futebol a sério. Depois a pré-época, onde surgirão promessas certas, talentos escondidos, confirmações surpreendentes. Que não tardaram a cair no esquecimento. De futebol, nada. Sim é duro para mim, como sei ser para ti. No meu caso, a ida a Belo Horizonte suavizará essa privação, com a oportunidade de ver o Atlético, na melhor fase que lhe conheci, de ver ao vivo a nova vida de Ronaldinho. Gaúcho? Definitivamente deveria ser “o Mineiro”. Ronaldinho, o  Mineiro, que belo soaria. Isso sim, seria fechar em alta uma longa carreira de altos e baixos, de genialidade e descaso. Isso sim, seria digno das melhores histórias de ressurreição no futebol, da sua dimensão simultaneamente humana e mítica. Sei que Julho e Agosto serão duros para ti. Por isso aqui deixo a promessa de um lugar guardado no Independência. E de um prato de feijão tropeiro à tua espera…

Pedro

Sei que estás em festa, pá…

Rubinho,
Sei que estás em festa, pá. O Galo está imparável, depois de golear o São Paulo, também o Cruzeiro caiu no horto. Não está morto, mas agoniza, imagino. Pois por cá já murcharam a nossa festa. Golpe duro, nos descontos, quando tudo parecia encaminhado para um desfecho feliz. Ninguém morreu, ainda, mas o passado recente pende sobre nossas cabeças. Sim, comemorámos cedo demais, sim fizémo-lo de forma exuberante. Mas, que diabo, se é para ser parcimonioso dediquemo-nos ao golfe, se é para ser prudente fiquemos em casa até ao fim da festa. Sim, ainda temos a Liga Europa que, respondendo à sua pergunta, é obviamente menos importante que a Champions League. Mas, para nós, Benfiquistas, tem um significado especial, é a oportunidade que quebrar a maldição de Béla Guttmann. O técnico húngaro que, depois de vencer duas taças dos campeões pelo Benfica, deixou o clube, deixando pairar a famosa frase «O Benfica não voltará a ganhar uma final europeia sem mim». Corria o ano de 62 e, apesar de ter chegado a várias finais europeias, o Glorioso não logrou alcançar nenhuma vitória. O Chelsea não é um adversário fácil, mas, que diabo, deixemos a cautela e acreditemos que Amesterdão coroará o Benfica pela segunda vez. E lamberemos então as feridas deixadas pelo golo de Kelvin, esperando ansiosamente a última jornada da Liga. Esperemos emoção na Mata Real onde o Paços de Ferreira, com o terceiro lugar assegurado, só foi derrotado pelo Benfica. As hipóteses são remotas claro, o Porto está motivado mas é nossa obrigação acreditar, ganhar ao Moreirense e esperar. Para terminar, não lhe peço um cheirinho de alecrim. Mas um feijão tropeiro seria inspiração divina, seria amuleto suficiente para quebrar o enguiço de Guttmann e, já agora, as palavras de Chico em “Ana de Amsterdam”…

Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar

Abraço,

Pedro

Um cheirinho de alecrim

Sofia,

Apesar da distância não te será difícil imaginar o que sinto hoje. Conheces-me, conheces o meu nervoso miudinho, a ansiedade mal contida, a vertigem de estar a um passo do abismo. Ou a dois da glória. Sabes bem destes sábados lentos que nem dia são, que se arrastam até à noite cair, até ao apito inicial que anunciará finalmente o início da jornada, o início de todo um dia concentrado em 90 minutos, de toda uma época jogada num tempo demasiado curto. O coração, esse bate desordenadamente até à hora em que Luisão pisar o relvado com a história a seus ombros, carregando a responsabilidade de levar os rapazes à glória que o seu futebol merece. E merece-o, esse futebol que encanta, que fez desta uma das mais belas épocas da minha memória. Mais logo o saberás, quando receberes um cheirinho de alecrim, anunciando que o nosso futebol venceu, que o futebol venceu, que há festa na Boavista, no Marquês e por todo o lado. O meu silêncio, ao invés será sinal de um calvário que se arrastará até ao próximo fim-de-semana. Sabê-lo-às logo, ao receber um abraço que únicamente os que amam futebol conhecem. De alegria explosiva ou de consolo misericordioso. Mas demorado em qualquer caso. E Benfiquista, sempre…

Pedro

mais um derby

Sofia,

Sim, por vezes invejo-te, por vezes invejo o ritmo a que se sucedem os jogos da Premier League, invejo-te quando, passando no café a meio de uma qualquer semana, vejo os gunners a jogar imaginando-te pregada à televisão com uma Guiness por perto. Enquanto isso o nosso Benfica folga. Sim, irritam-me as paragens da Liga, prolongadas e vazias, deprimentes e preguiçosas. Há a festa da Taça, dirás, e também a taça da Liga… Mas não, não é a mesma coisa. Ver a segunda-mão de uma meia-final da Taça tem pouco mais emoção do que a transmissão televisiva de um jogo de golfe (que o Joel não me ouça…). Sim, já me tentaste convencer das vantagens  de ter vários clubes no coração, como tens o Benfica e o Arsenal ou o Southampton. Multiplicam-se as oportunidades, é certo, mas divide-se a emoção, diria. Além disso não o consigo. O meu coração é do Benfica. Ponto. Sim, vibro com a entusiasmante fase do Atlético Mineiro de Ronaldinho, sinto-me merengue a espaços e gunner por vezes. Mas o que me move é o Glorioso, o que quero é o escudo da Liga nas nossas camisolas. O que quero é despachar isto, arrumar o Sporting e ser campeão na Madeira. E pelo meio sentir a vertigem de jogar em Istambul, a caminho de Amesterdão. É o nervoso miudinho que me move. Esse que cresce em exponencial à medida que se aproxima mais um derby absolutamente decisivo, uma semana louca que decidirá a glória ou o desespero. E outra, depois, e ser assim até à festa no Marquês, até ao fim de uma das melhores épocas de sempre. Se estou eufórico antes do tempo? Claro, mas sabes bem que é assim o meu futebol. Invejo-te por vezes. Não hoje, não na véspera do derby…

Pedro, 20 de Abril de 2013

De Istambul a Newcastle

blue mosque

Sofia,

Eis o Newcastle, outra vez. St James espera-nos, a glória espera-nos em St James Park. Mais do que a glória espera-nos uma noite de futebol à antiga. Espero-o eu, sei que o esperas tu. Sim, porque apesar do resultado jogar a nosso favor, é acima de tudo o futebol que nos cabe honrar. De resto é apena uma eliminatória, uns insignificantes quartos-de-final. E é pelo futebol que as camisolas berrantes hão-de subir ao relvado, mais logo. Sim, escrevo-te na ressaca do Galatasaray-Real Madrid, desse jogo que devorei de um só trago. Desse hino ao futebol, da grande primeira parte dos Merengues e da avassaladora segunda parte dos Turcos. Sim, falo da segunda parte do Galatasaray, mas falo sobretudo da segunda parte dos Turcos que encheram as bancadas. Mourinho disse-o, que jogou, não contra 11, mas contra 50.000. Diria mais, Mou jogou contra a minha adorada Istambul, contra a ameaçadora presença da torre de Gálata, contra toda a história de Hagia Sofia, contra as colunas do templo de Artemisa trazidas de Ephesus. Contra Suleiman o Magnífico que, posso jurar, reencarnou por minutos em Drogba. Sabes o quanto adoro Istambul, sabes bem o quanto me marcou ter passado as portas da Mesquita Azul. Pois bem, tivesse estado ontem em Istambul tivesse estado naquelas bancadas e sairía igualmente tocado. Como tu, certamente.
É assim o meu futebol, é assim o nosso futebol, e é por isso que do Benfica não podemos esperar menos do que uma grande noite, mais frenética do que calculista, mais insana do que razoável. E esmagadora, em qualquer caso. É futebol o que esperamos. É isso que se exige ao Glorioso. Paixão pelo futebol. E Amor pelos adeptos. Por nós que o merecemos.

Pedro, 11 de Abril de 2013

Baía

photo (4)Grande parte da sua adolescência, a melhor parte, aquela de que sempre se lembrará, passou-a na antiga Industrial de Matosinhos, actual Gonçalves Zarco. Aí encontrou amigos que o seguiriam toda a vida, alguns dos quais entraram inclusive para a família, aí se apaixonaria, aí cresceria como se deve crescer, com amigos e com paixão. Foi aí no velho campo de piso verde e dois ou três degraus de bancadas, qual estádio imponente, que muitas vezes saciou a sua paixão por futebol. Essa trazia-a de trás, do campo imperfeito e trapezoidal do Lusitano, ou das balizas feitas por vetustos cubos de granito no recreio da escola primária do Caramulo. Ou do campo do Colégio de Santa Maria, rodeado de árvores, onde pela primeira vez havia de defender uma baliza, paixão que duraria para a vida. Uma vez guarda-redes sempre guarda-redes. Cinco anos depois, a mudança para Matosinhos onde ninguém o conhecia pela sua perícia entre os postes, pareceu-lhe uma oportunidade única para “dar um tempo”, para tentar outro rumo, jogar em posições de campo, qualquer uma. E assim foi, naquela tarde em que, na baliza adversária olharia com despeito o pretensioso guarda-redes que ali estava, no seu impecável equipamento, nas suas luvas que faziam supor outros voos. Do jogo não recordaria mais do que, a satisfação plena do seu desejo de bola, de correr atrás dela, de lutar por ela como merece qualquer paixão. Anos passariam até reconhecer na televisão, até ver na odiada baliza do Porto aquele mesmo miúdo que defrontara anos antes. Incrédulo correu a confirmá-lo junto dos amigos. Que sim que era ele, o Vitor Baía. E garantiram-lhe alguns deles que lhe havia inclusive marcado um golo. Sorriu, como sorriu quando um acaso lhe deu a oportunidade de ver as suas luvas assinadas por ele, pelo Baía. Não resistiu em fazer-lhes chegar as suas luvas usadas e sorriu novamente quando as recebeu, ambas assinadas por ele. Voltará a usá-las sempre que a solenidade do jogo mereça fato de gala. E voltará a usá-las juntamente com a sua camisola do Benfica sem que daí resulte qualquer acto de hipocrisia ou sacrilégio. O que o move, o que sempre moveu, é o prazer imenso que o futebol lhe dá, que o faz saltar da cama aos domingos de manhã para ir defender uma baliza num armazém lá para os lados da Ponte da Pedra. Isso é paixão. O que o liga ao Benfica é amor. E isso, perdoem-me, está a salvo de qualquer discussão.

O maior Benfiquista

CameraAwesomePhoto (3)Chamado, por um conhecido blog, a nomear o maior Benfiquista, o meu amigo evocou o meu nome. Em vão, arriscaria dizer. Porque de grandes Benfiquistas está o país cheio, de grandes Benfiquistas está o mundo pejado. Benfiquistas que acompanham a equipa a qualquer estádio, enquanto eu me fico pelo café do Sr Coutinho. Benfiquistas que escrevem sobre o nosso clube a ritmo frenético por essa blogosfera, por esse facebook, cheios de razão, humor e inteligência. E eu, no meu cantinho, na minha lanchonete servindo apenas palavras esparsas em doses moderadas. Benfiquistas que assistiram ao vivo a momentos de glória, em Anfield Road ou Old Trafford, deixando-me a mim, humilde adepto, a missão de ir à Pedreira torcer pelos nossos, deixando-me a mim, sofredor treinado, o fardo de sair de Braga derrotado por Quim, eliminado por Ruben Amorim. Mas, confesso-o, saí feliz, com um estranho sorriso nos lábios. Porque, por muito que os grandes Benfiquistas não concordem, ver a nossa paixão é sempre fonte de prazer imenso. Vê-los, ali, a poucos metros, envergando camisolas berrantes, é motivo suficiente para acelerar o coração, para sentir no peito esse orgulho muito meu. O resultado é um apenas um pormenor  quando é de paixão que falo. E é disso que falo, daquela paixão incondicional que nos faz tremer as pernas, daquela paixão que nos faz vislumbrar beleza infinita na nossa amada, mesmo no seu pior dia, que nos faz sentir o sentido da vida cada vez que estamos com ela. Nos bons mas sobretudo nos maus momentos. Sim é paixão do que falo, e é essa paixão que ponho em tudo o que faço que alegra os meus dias. O título de maior Benfiquista devolvo-o ao remetente, a esse generoso amigo. Com o agradecimento de me ter dado, mais uma vez, motivo para vir aqui escrever umas esparsas palavras sobre a paixão de ser Benfiquista…

em Braga

a pedreiraEncontramos o Braga, hoje. Encontramos o Braga, adversário que mais vezes me levou ao Estádio, o Braga que marcou de forma indelével a minha relação com o futebol, com o Benfica. Não pelos jogos em si, mas pelas ocasiões, pelas noites passadas, pelas vitórias sofridas, pelos golos saborosos. Foi o Braga, então treinado por Jesus, que me levou pela primeira vez à “Pedreira”, essa obra de arte feita estádio por  Souto Moura. Foi esse Braga que caiu aos pés de Urretavizcaya, com Quique Flores no banco, já de saída. Foi o Braga também que, jogando em plena Luz, havia de marcar a primeira vez da Luísa que, em êxtase, veria desfilar à sua frente Coentrão, David Luiz e Aimar. Que, ainda confusa, havia de saltar para comemorar, com um abraço, o seu primeiro pelo primeiro golo, o que Carlos Martins fez para ela. Como havia de ser o Braga a trazer a Sofia de Edimburgh até à Luz para comemorar, os dois golos de Cardozo e o de Jardel. Sim, só contaram dois, o primeiro de Tacuara foi anulado por fora-de-jogo, mas o árbitro não foi suficientemente rápido no apito para impedir o salto e o abraço com que se devem comemorar todos os golos. Uma semana mais tarde seria a desilusão, com o Glorioso a cair em Braga. Mas aí estava eu em longe, em Liège,  debruçado sobre um Samsung Galaxy a sofrer com a final falhada. Mais tarde na noite, havia de afogar as mágoas na Maison du Peket. Encontramos o Braga, hoje. Na pedreira, com Peseiro no banco, um Braga que estará mais perto do que vi com Jesus no banco, do que do de Domingos, que me estragou a noite de Liège. Assim espero, e a ser assim, será esta noite mais uma na cavalgada para o Marquês, em Maio.

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