O tambor

Ao teu lado desde sempre, Este é o meu lugar… O tambor? É velhinho, sim. Já vem dos tempos de Vidal Pinheiro. Preso à vedação do campo está o velho tambor, cheio de autocolantes e com a pele remendada, sinal de outras batalhas, de demasiadas batalhas. O jogo está calmo agora, é hora de aproveitar a pausa para disfarçar, com mais uma tira de fita adesiva, o som roufenho causado por anos de bons serviços. Há algo de místico na batida de um tambor. Sabêmo-lo, a humanidade sabe-o há milénios. Seja em tempo de guerra ou de paz, em festas pagãs ou religiosas, o tambor é presença imprescindível, qual coração que marca o ritmo, que dá vida. Um estádio de futebol, território de guerra e paz, de crença e de festa, não haveria de ser excepção.Por isso, reparado o tambor e retomada a batida, as bancadas acordam e respondem …Onde jogares eu estou presente… Dentro do campo o jogo acelera. Sim, é essa batida que dá o mote para as bancadas, é esse ritmo que marca o jogo, lá dentro das quatro linhas. É esse tambor que transporta o saudoso Estádio Vidal Pinheiro país fora, é nessa batida que os jogadores procuram o caminho da baliza adversária. A cada toque, a bola avança, a cada rufar os adversários tremem …Só para te ver ganhar… rematam as bancadas. Finalmente o golo, o delírio, a vitória. E mais uma marca no velho tambor dos tempos do Vidal Pinheiro, desse velho tambor onde mora a Alma Salgueirista.

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Salgueiros, o Grande

0-2. Ainda vamos perder isto. Tinham-se passado apenas 15 minutos, e o Salgueiros já ganhava por 0-2 em casa do Canidelo. Vamos perder isto, insistia. Tinha ares de quem sabia do que falava, de quem vivera glórias e desventuras do Salgueiros. Todas elas, dos tempos da primeira divisão, até ao quase desaparecimento. Enchemo-nos de esperanças na pré-época, e depois é isto: sofrer, sofrer, sofrer.

1-2. Eu não disse? Estava-se mesmo a ver. Parece que não sabem jogar. Aquele ali jogou no Boavista, chegou aqui e parece que desaprendeu. Aqueloutro veio do Famalicão. A mesma coisa. Sabe como é, esta camisola pesa muito. No Nacional, na Distrital, o nosso Amor é sempre igual, ouvia-se nas bancadas.  

2-2. Encolheu os ombros como se soubesse do golo mesmo antes de acontecer. Encolheu os ombros sem réstia de surpresa pelo empate, certamente meio caminho para a derrota. Mais uma, tão certa como inevitável. Esta camisola pesa muito.  

2-3! Sorri timidamente com o golo da vitória, ao cair do pano. Como se soubesse desde o início que a vitória era apenas uma questão de tempo, de que aquele sofrimento, aquela quase derrota não passava de um teste à sua Alma Salgueirista. É esta camisola, pesa muito…

Há qualquer coisa de clube grande neste Salgueiros. Talvez seja esta bipolaridade, o estranho gosto pelo abismo, pela vertigem. Talvez seja este sofrimento por antecipação, a sensação de que o Universo nunca será justo, a certeza de estar sempre mais perto da derrota do que da glória. E apesar disso saber que a vitória é certa, e que será sempre justa. A tendência para o derrotismo e para a depressão, enquanto secretamente se alimentam as mais altas expectativas. Sou Tripeiro, de Coração, Ó Salgueiros, o meu Campeão, ecoa nas bancadas. Há, afinal, muitas coisas de grande neste Salgueiros. Porque de facto, o Salgueiros é grande, um dos Grandes de Portugal. No Nacional, na Distrital, o nosso Amor é sempre igual

Sexta é às 9, no Canidelo.

Dona Deolinda tem 86 anos. No próximo mês, acrescenta. Mais de metade de Salgueiros, diz. 44. Dona Deolinda sorri, apesar da derrota iminente. Para a próxima vai ser melhor, mas o árbitro não ajudou, hoje. Posso tirar-lhe uma fotografia? Se quiser pode, é consigo. Dona Deolinda tem 86 anos, no próximo mês, 44 de Salgueiros e não é agora, ao fim de tantos anos, que vai desistir. Na próxima sexta à noite é no Canidelo. Joga o Salgueiros e Dona Deolinda vai lá estar. Afinal são 44 anos de Salgueiros. 86 de vida, no próximo mês.

O desânimo paira sobre as bancadas vestidas de vermelho. Reduzido a 10 desde a primeira parte, o Salgueiros vai perdendo por 2-3 com o Foz. Não era a estreia que esperávamos, todos. “Isto é a Distrital, não é para jogar bem, foda-se. Chuto prá frente, e tudo a correr, caralho!”. E no entanto o jogo aproxima-se do fim, com o Salgueiros a perder. Sim, o desânimo ronda insistentemente camisolas vermelhas, cachecóis e bonés, esperando o melhor instante para se instalar na Alma Salgueirista. Sem sucesso, que isto é o Salgueiros, habituado a sofrer. E a resistir. Sim, a Alma Salgueirista não desiste, e se esta não é a estreia que esperávamos, há que levantar a cabeça e olhar em frente. Ainda o jogo não tinha terminado e já se ouvia nas bancadas: É na sexta no Canidelo, às 9 da noite. É às 9, no Canidelo. Sexta-feira. Às 9. Lá nos encontramos, que isto de desistir não é para o Salgueiros.

Fran

Fran é Basco. De Bilbao. Fran é adepto do Athletic e tem como sobrenome Salgueiros.

Francisco Xabier Salgueiros Herrera.

Fran veio ao Porto para conhecer o Salgueiros, o Sport Comércio e Salgueiros. De passagem para a Galiza, disse, onde visitará familiares. Depois de vaguear entre a antiga sede do clube, na Rua Álvares Cabral, o buraco das escavações onde um dia seria o novo Estádio e as ruínas do mítico Vidal Pinheiro, Fran chega finalmente a Campanhã, a nova casa do Salgueiral. E é aí que, entre copos de  cerveja e amena conversa, vê a equipa sénior vencer o Aliança de Gandra. É aí que, entre velhas glórias e jovens adeptos, promove a inesperada amizade entre clubes míticos. Salgueiros e Athletic.

Fran leva belas recordações, fotografias com toda a equipa do Salgueiros e uma bandeira do Athletic assinada por todos os jogadores. 

Fran leva o Salgueiros no coração. No nome já o tinha. 


Rubinho

Na última vez que falei com o Rubinho, prometi-lhe que iríamos à Luz ver o Benfica. Que nos emocionaríamos com o voo da Águia e com a estátua de Eusébio, que talvez parássemos no Alto dos Moínhos, para uma bifana e uma cerveja. Talvez. E que certamente sentiríamos aquele frio na barriga ao finalmente avistar o relvado, ao ouvir o hino.

“Ser Benfiquista é ter na alma a chama imensa…”

Rubinho tinha essa chama imensa. Esse peito aberto com que enfrentou  desventuras várias, com que enfrentava mais uma vez a doença que voltava a fechar o cerco. Rubinho era do Atlético Mineiro, o clube que escolhi como meu, quando a hora de decidir chegou. Escolhi-o por ser o time da massa, o clube popular, sem distinção de classe ou cor. Como o Benfica, no fundo. E talvez tenha sido por isso, por essa semelhança, que o Rubinho caiu de amores pelo Glorioso. Por isso lhe prometi que sim, que iríamos juntos à Luz.

Anos antes foi o Rubinho quem me levou ao Independência, em Belo Horizonte, para ver Ronaldinho Gaúcho jogando com a camiseta do Atlético. Ronaldinho, já na fase descendente da sua carreira, chegara ao Horto meses antes, provocando uma pequena revolução no clube. O Atlético navegava em águas agitadas há largos anos, oscilando entre o meio da tabela do Brasileirão, e a angústia das últimas jornadas. Tinha, inclusivé, militado na Série B recentemente. A chegada do Génio elevou de forma espectacular o nível de exigência e ambição, do que resultou uma campanha épica na Taça dos Libertadores da América, que acabou por conquistar. Foi com ele, com Rubinho que ,nas bancadas do Horto, vi o génio de Ronaldinho, o toque de bola, a finta de corpo, o gingado. E o sorriso, sobretudo esse sorriso que era a sua imagem de marca.

Era justo, pois, que tivesse retribuído o gesto, que lhe tivesse mostrado Jonas, o toque de génio de Jonas, a inteligência, a visão de jogo. O golo. Que tivéssemos trocado um abraço aquando de um qualquer golo de Jonas.

Hoje começa para o Benfica a época 2019/20. Sem Jonas, que resolveu que era chegada a hora de parar. Mas sobretudo sem Rubinho.

Manuel

Essa bengala, feita de eucalipto, era para aquele moço cego ali de baixo. Coitado, foi o irmão que o cegou. O irmão Manuel, com chumbo de uma caçadeira.

Manuel era complicado, não parava de saltar de trabalho em trabalho. Começou uma casa anos antes, muitos anos antes, e não a terminou. Ainda hoje é só cimento e tijolos, sem janelas, assim aberta. E tem umas escadas que sobem para o piso de cima. A mulher bem lhe dizia: anda connosco e com a nossa filha, lá para a Holanda ou Venezuela. Ou para o Luxemburgo, que era afinal onde estavam. Trabalhamos e acabamos a casa, e isso chega-nos para viver. E quando o Manuel finalmente foi, acabou por lhe partir tudo, em casa. Ela chamou a Guarda, claro, e Manuel regressou a Portugal. 

Depois foram as partilhas, ali no pé da Serra, onde o pai tinha uma quinta. O irmão tinha lá construído uma casa, e não se entenderam por causa disso. O Manuel deu-lhe um tiro, com a caçadeira. E, com o irmão já no chão, perguntou-lhe se queria viver ou morrer. Não sei o que lhe respondeu, mas o Manuel pegou nele e levou-o, dentro de gamela no tractor, até à aldeia. Foi beber umas minis ao café, assobiando como se nada fosse. Encontraram o irmão moribundo, chamaram o INEM que o levou  de helicóptero para Coimbra. Mas a vista já não se salvou. Cego, coitado.  Afinal o irmão não o matou. Mas se calhar até matou.

Manuel, deixou-se apanhar pela GNR e foi preso ali mesmo. Assim ficou, até ao dia em que finalmente saiu da prisão para vir à terra, pela Páscoa. Foi aí que o sobrinho resolveu subir as escadas da casa por acabar, e riu-se: olha. o tio Manel tem um espantalho pendurado por uma corda. Quando percebeu, fugiu escadas abaixo branco como a cal. O Manuel, esse parou de fugir.

Malhapão de Cima, 6 de Julho de 2019
fotografias tiradas no caminho velho dos Jueus a Malhapão
Nikon D800 + Nikon 80-200mm f2,8

São João

Numa das minhas mais velhas memórias estou algures em Pereiró, em cima da garagem do Sr. Almeida e da Fernandinha num qualquer São João do século passado. A Bela segura-me pela mão, enquanto olho embevecido para o balão de papel, fascinado pela magia que o faz voar, rendido ao ritual do lançamento e àquela revienga final que o faz subir rodando pelos céus do Porto. Esse ritual que repetimos, agora em Custóias em casa do Sr. Zé e da Sameiro, entretanto rebaptizados Vô Zé e Vó Sameiro pelas crianças. É ali que aproveitamos o braseiro que assou sardinhas e pimentos para aquecer o ar que encherá o balão de papel e o fará, uma vez mais, subir alto nos céus de São João. Não sem antes cumprir o ritual, de acender a mecha, de garantir que o balão não é largado demasiado cedo, de deixá-lo finalmente subir, com aquela revienga que lhe dará a graciosidade no voo. Depois disso é correr rampa acima com um sorriso no rosto, para o ver rasgar os céu como se viesse de Pereiró. E vê-lo por fim desaparecer na distância, em companhia de tantos outros balões coloridos. Mas com muito mais poesia.

A casa de Pereiró, do Sr Almeida e da Fernandinha, foi para mim uma referência durante anos a fio. Foi outrora uma casa de bairro operário, tão vulgar no Porto do Século XX, à qual tinha sido acrescentado entretanto um andar. Lembro-me da entrada com os azulejos côncavos amarelados e vidrados e o banquinho de cimento, a escada com o vitral azul e a sua luz misteriosa e, já no piso superior, o belíssimo aquário cheio de peixes coloridos e exóticos. Por cima do sofá uma reprodução da Guernica de Picasso, ao lado do móvel as enormes colunas de som onde se ouvia Caetano Veloso. Navegar é preciso, viver não é preciso. Na cozinha, lembrar-me-ei sempre do fascínio com que abria aquela porta mágica do canto do armário, que rodopiava transformando-se num carrocel saído sabe-se-lá de onde. Lá dentro, creio, havia um pote com bolachas e, agora que penso, não sei se o meu entusiasmo era por elas ou pelo belo mecanismo de engenharia que era aquele armário. Ao lado ficava a marquise com enormes janelas e com uma engenhosa mesa cujo tampo se baixava e subia conforme a necessidade. A separá-las, a marquise e a cozinha, ficava a porta de madeira onde, rezava a lenda, morreu o pequeno pássaro da Bela que agora jazia empalhado em cima do móvel. Por fim o quarto da Bela, com a pequena casinha que parecia saída das montanhas da Suíça, à qual dava corda para ver sair pequenos bonecos que a minha memória insiste em recordar como um casal com baldes da mão. Como se saíssem para ordenhar as vacas que pastavam nas verdes colinas dos Alpes. Havia também a escrivaninha com um planisfério impresso no seu tampo de verniz brilhante. E um qualquer pendural que pendia do candeeiro, do qual não me lembro a forma. Seria um pássaro, uma estrela? E ainda a enorme pedra de quartzo branco trazida do Caramulo, do Poiso Santo, numa das muitas férias que a Bela passava connosco. Voltei àquela casa anos a fio, para almoços, jantares ou festas de aniversário. Muito mudou, ali. O quarto da Bela transformou-se em quarto de TV, o aquário desapareceu, e penso que também a luz azulada do vitral. O que resiste, ainda, é a imagem dos balões a subirem do topo da garagem do Sr. Almeida. 

À casa de Custóias cheguei pela mão do Jorge e do Leonel, algures entre o liceu e a faculdade. Era ainda uma casa inacabada num bairro de casinhas mais ou menos iguais, com telhados de uma água, destinadas a auto-construção. No piso inferior ficavam a cozinha e a garagem, no último piso, os quartos. No piso intermédio a sala e o escritório, acabados mais tarde. Era ali, na mesa da cozinha onde hoje a Vó Sameiro fazer o caldo verde indispensável a qualquer noite de São João, que estudávamos noite dentro. Eu o Jorge e o Leonel, preparando os exames de Máquinas Eléctricas, Electrónica III ou Teoria dos Sistemas I. Foi ali fora, no pátio, que passámos algumas horas de volta do velho Opel Rekord 1900 verde, tentando descobrir como funcionava a iluminação do capot do motor, ou a reparar o manómetro da gasolina. Foi ali, que assistimos ao épico Portugal-Inglaterra do Euro-2000 e ao golo de João Pinto, um dos mais belos cabeceamentos de que me lembro.

Como é ali que, ano após ano, celebramos o São João. Em família, com sardinhas e pimentos, entrecosto e vinho verde tinto, balões e caldo verde. Com a Vó Sameiro e o Vô Zé, a Bela e o Fernando, o Leonel e a Ângela, a Paula e o Jorge, os meus pais e todas as crianças. Que guardarão entre as suas mais queridas memórias o São João de Custóias, com os seus balões de papel, subindo altivos nos céus de Junho. Graças aquela revienga final.


Köbe

Corria o ano de 1858 quando a fábrica de cerveja Bier and Malzextrakt Dampfbrauerei Koch (1), iniciou a sua actividade no Heumarkt, um dos mais importantes mercados de Colónia. Terá sido mais ou menos por essa altura que as cervejarias locais, afamadas pela sua Kölsch (2), começaram a servir a sua cerveja directamente ao público. Pátios, salas e armazéns encheram-se então de mesas onde os visitantes se deliciavam com a cerveja de fermentação alta e cor amarela dourada. A acompanhá-la, o prato típico Himmel un Ääd (3), céu e terra, literalmente, representados pelas maçãs e batatas, ambas em puré. Pelo meio, fatias de Blootwoosch, uma espécie de morcela de sangue, frita, com cebola caramelizada.

Para servi-los, os donos das Brauhaus recorreram a peregrinos que ali passavam em direcção a Santiago De Compostela, rumo ao túmulo de Santiago Maior. Jacob, em Alemão, razão pela qual passaram a ser tratados abreviadamente pelo nome Köbe. Fosse porque precisavam do dinheiro para prosseguir viagem, fosse por fraqueza da fé que os levava ao túmulo do Apóstolo, muitos aceitaram o trabalho. E foram ficando, até hoje, servindo comensais sem delongas e sem demasiadas formalidades, cumprindo a suprema missão de erradicarem das mesas todos os copos vazios, substituindo-os prontamente por novos stange cheios de Kölsh.

Aqui, na magnífica Brauerei zur Malzmühle, outrora chamada Bier and Malzextrakt Dampfbrauerei Koch, em pleno Mercado do Feno, bebo uma última Kölsch, servida pelo Köbe que, imagino, amanhã se fará ao caminho, em busca de Santiago Maior.

Köln_6_Junho_2019
fotos tiradas com fujifilm xq1

perdimos, amigo, perdimos…

luz

“Perdimos, amigo, perdimos”
Disse-o Gaitán, frustrado, depois de um qualquer jogo particular, desta pré-época desastrosa. Podia tê-lo dito ontem, para aplacar a decepção, para controlar a ira. Disse-o e sentiu-o, e ao fazê-lo, confirmou o que o tempo me vinha dizendo. Que Gaitán é um jogador maior, um dos nossos. Lembro-me dessa longínqua silly season, que nos trouxe Gaitán e Jara. Após os primeiros jogos, ou pré-jogos, vá, sentenciei que Jara era jogador, Gaitán seria no máximo um brinca-na-areia. Disse-o, indignando Luísa, minha filha, que se encarregou ao longo destes anos, de me lembrar tamanha gaffe. Fê-lo a cada toque de génio, relembrou-o a cada passe perfeito. “blá-blá-bla, e o Jara é que era, e blá-blá-blá”. Ouvi-o depois do golo em Belém, depois do passe para Cardozo contra o Man’U, ou a selar aquela jogada do golo de Lima a Patrício, naquela que foi talvez a mais bela jogada a que assisti.
“Perdimos, amigo, perdimos”, é o lamento que queria ter ouvido ontem na boca de todos os jogadores, de todos os profissionais, de todos os Benfiquistas. E que fosse sentido, que fosse envergonhado, que fosse visceral. Não aquele baixar a cabeça, e dizer que agora é trabalhar para melhorar, que foi apenas um jogo. Não foi, foi uma derrota, que diabo, e foi uma derrota que expôs uma falta de atitude, falta de empenho e de vontade que me preocupam. Preocupam dentro do campo e preocupam-me fora dele.
Perdemos, amigos, perdemos…

Outubro Vermelho

aimar 01 1280Era Outubro, era um fim-de-semana chuvoso que havia de se interromper para dar à nossa noite, à noite do Benfica, aquele cheiro de relva molhada que antecede os grandes momentos, as inesquecíveis noites. Entrámos na Luz, e nunca o seu nome me pareceu tão poético, tão apropriado para justificar o olhar brilhante de Luísa ao ver lá em baixo o relvado iluminado, ao ouvir aquele burburinho motivado pela excitação do momento, pela proximidade de nos encontrarmos com o objecto último da nossa paixão, por estarmos finalmente em casa. Sim, era a primeira vez da Luísa, era Outubro, e ali, no relvado, a escassos metros aquecia a equipa, David Luiz, Saviola e Gaitán. Luisão, Javi e Coentrão. E Pablo. Era Outubro, e não tardava a ouvir-se, a cantarmos o hino do Glorioso, não tardava e a camisola 10 subiria ao relvado. Pablo Aimar era daqueles jogadores que admirava profundamente, daqueles jogadores que nunca imaginara ver com a camisola berrante. E no entanto ali estava ele, espalhando magia como poucos, jogando como nenhum. E Luísa, incrédula por estar na primeira fila, mal contendo a emoção de cada vez que ali passava David Luiz ou Coentrão, de cada vez que Gaitán subia à linha sem imaginar, sequer, que um dia seria dele aquela camisola 10. Aimar não precisava de se aproximar da linha, a Aimar não se pedia senão que jogasse, a Aimar bastava ser ele próprio, o génio que um dia impressionou Maradona, o virtuoso que inspirou Messi. A Aimar bastava ser Aimar, e vê-lo ali, com a camisola do Benfica era sonho realizado. Fazê-lo com Luísa, sua filha, a seu lado, era mais do que qualquer um poderia pedir.
Era Outono, e foi aquela a primeira vez que vi, que vimos Pablo, e que nos encantámos com ele. Hoje, em pleno cacimbo, soube que não mais sentirei essa excitação infantil de vê-lo com uma bola nos pés. Mas o encanto não cessou. E não cessará nunca, por mais Outonos que passem, por mais invernos que se lhe sigam. Não cessará, simplesmente.

(Para o Capareira, que hoje completa cerca de diversos anos de vida, amigo e companheiro de Benfiquismo, responsável, entre outras coisas, por me fazer vencer hoje a preguiça e dedicar umas palavras ao Pablo Aimar…)