Não há nada menos vazio do que um estádio vazio…

Já alguma vez entrou num estádio vazio? Experimente. Pare no meio-campo e oiça. Não há nada menos vazio do que um estádio vazio. Não há nada menos mudo do que as bancadas sem ninguém.

Eduardo Galeano, “Futebol ao sol e à sombra”

Um silêncio esmagador ecoava naquela tarde de Domingo. As bancadas vazias do Estádio de São Miguel pareciam despropositadas, ocupadas unicamente pelo tímido sol que parecia  anunciar o fim do Verão.

Gondomar e Salgueiros avançavam quase tristes para o centro do campo, qual cortejo fúnebre e solene. Subitamente o apito do árbitro ecoava no silêncio, dando sinal para o início do jogo, para o começo da época. 

Decorria morno, o jogo, quando do nada se escutou:

…tu já sabes, eu vou lá estar,

eu largo tudo para te ver,

força Salgueiros, vamos vencer…

Talvez fosse o vento trazendo palavras que tinham sido gritadas mais cedo, em Paranhos, aquando da saída do autocarro da equipa. Talvez viessem de mais longe, das bancadas do passado, de Campanhã ou mesmo do velhinho Vidal Pinheiro. Ou talvez estivessem a ser cantadas ali mesmo, no terreno vazio ao lado do Estádio, gritadas com Alma por um grupo de bravos Salgueiristas.

Foram curtas, as palavras, seja porque o vento tenha mudado de direcção, seja porque a Polícia tenha aconselhado o fim à aventura da claque. Curtas mas certeiras, pois minutos mais tarde, embalado pelo ritmo dos cânticos, animado pelo apoio incondicional dos seus, o Salgueiros marcava o primeiro golo do jogo.

A partida avançava, e com ela o silêncio voltou a marcar presença nas bancadas vazias. Até ao golo da equipa da casa.

No final, dentro do campo, prevaleceu o empate, no final, para a história oficial, dividiram-se os pontos. No Estádio, no entanto, ganhou o grupo de intrépidos Salgueiristas que lembrou aos jogadores que não caminham sozinhos. No final perdeu o silêncio do estádio vazio.

Eu quero…

Eu quero ser para ti o camisola dez
Ter o Salgueiros todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção…

Caía a noite no Palácio de Cristal, quando António Zambujo arrancava os primeiros acordes de “Zorro”. O vento soprava da Foz, lembrando os presentes que a noite Portuense é assim, arejada e fria, mesmo que seja ainda Julho. 

Caía a noite quando Zambujo atacou a segunda estrofe de “Zorro”, evocando o Salgueiros em vez do Benfica, marcando pontos na atenção dos presentes. Virtuoso, o cantor driblava assim a menção esperada ao Porto – o Futebol Clube – que arrancaria certamente aplausos vários da plateia. Mas não, não caiu em tentação e livrou-se do óbvio. Seguiu o caminho dos justos, e resgatou ao quase esquecimento o popular clube de Paranhos. Como se soubesse que, poucas horas mais tarde e não muito longe dali, o Salgueiros pisaria novamente o Vidal Pinheiro, dando por breves instantes vida aquele mítico estádio, levando sonhos que tão arredados andam daquelas paragens.

…se assim faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha útima jogada
E marco um golo com a minha mão.

Era já Agosto quando pela primeira vez pisei o velho Vidal Pinheiro. O que dele resta. Ali se jogou futebol, por ali passaram estrelas maiores do futebol Português. Ali viveu e ali se viu sem casa o Salgueiros.

Soavam ainda as palavras de Zambujo, na véspera, quando atravessei aquele campo e subi às bancadas tristes, tão falhas de festa, tão precisadas de futebol. E é dali, do cimo daqueles degraus de cimento, que se vê o pouco que resta do velho Estádio. Mas é dali precisamente dali que se percebe o tanto que sobrevive do velho Salgueiros. Sobrevive o sonho, sobrevive a certeza de que a festa voltará àquelas bancadas sós. Mesmo que seja na última jogada. Mesmo que seja com a mão.

Vitor

Vitor Andrade ajustava a bola na marca dos 11 metros. Era o último lance do jogo e o Salgueiros perdia por 2-1 na Póvoa de Varzim. Sobre a linha da baliza estava um jogador de campo, substituindo o guarda-redes expulso segundos antes. “Eu vou pegar”, ameaçava. “Olha p’ra mim que eu vou pegar”, gritava histérico. Vitor avança para a bola, o jogador do Varzim adivinha o lado e defende. Pegou. O árbitro apita, apontando para o fim do jogo. Enquanto os jogadores do Varzim corriam a festejar a vitória épica, os do Salgueiros abraçavam Vitor, cabisbaixo e ainda incrédulo com o desfecho da jogada. Vitor, posso apostar, queria desaparecer, fugir para o balneário, sair do Estádio, esfumar-se. E no entanto era por ele que as bancadas chamavam, era o seu nome que a claque cantava. Porque a angústia antes do penalty, ao contrário do título do livro, é do avançado e do avançado apenas. Ao guarda-redes está reservada uma oportunidade de glória, das maiores. Ao avançado restam duas opções: a obrigação ou o fracasso. Daí a angústia, daí os cânticos de ânimo. Vitor é um dos nossos. E os nossos não se abandonam.

22

Quando, em Agosto, propus ao Salgueiros a realização de um projecto fotográfico sobre a época da equipa sénior de futebol, estava longe de imaginar que agora, dois meses volvidos sobre essa conversa inicial em Paranhos, estaria ansioso pelo o próximo jogo do Salgueiros. Assisti, entretanto, aos sete jogos oficiais do Salgueiros, a mais dois de preparação, à apresentação da equipa na Arca d’Água e a um treino da equipa sénior. Conheci a Alma Salgueirista e o seu fiel tambor, aprendi o nome dos jogadores, do Capitão Moreira ao Vilaça, do Konan ao Isac, do Ibeh ao Vitor Andrade. Fiz companheiros de bancada, com quem partilhei alegrias e frustrações, vitórias e apreensões.

Hoje, à oitava jornada, o Salgueiros joga finalmente em casa, depois de cumprido o castigo de três jogos imposto pela AF do Porto. E, quis o destino, que o regresso a Campanhã, se fizesse com um jogo grande, primeiro contra o segundo classificado. As bancadas, adivinho, estarão cheias, cheias de Alma. Será um pouco de Vidal Pinheiro renascido, um vislumbre da glória de outrora, uma janela entreaberta para tempos futuros. O rufo do tambor, a bandeira ao vento de Beatriz, o entusiasmo de Deolinda. A Alma Salgueirista.

Neste dia, há 22 anos atrás, nascia Luísa, minha filha e companheira nessa paixão pelo futebol. Hoje o dia é dela, e dela apenas.Será por ela, pelo seu aniversário, que hoje não estarei em Campanhã. Perderei com isso instantes fotográficos irrepetíveis. Não deixarei, contudo, de torcer pelo Salgueiros, de acompanhar, à distância, o andamento do jogo, de vibrar a cada golo. Longe da vista, mas perto do coração. Ao teu lado desde sempre…

o futebol normal

Perguntava uma amiga no facebook se faltava muito tempo para o regresso do futebol normal. Referia-se à interrupção da Primeira Liga, por ocasião dos jogos da Selecção. Sim, esse é certamente o pensamento usual dos adeptos de futebol. Dos normais, diria. Essa ânsia pelo regresso do futebol profissional, o das transmissões televisivas e dos estádios novos e confortáveis. O futebol das estrelas, das multidões e do dinheiro. Do rios de dinheiro que o alimentam. Futebol-espetáculo, futebol de primeira.

Mas o futebol normal, esse nunca parou. O futebol que realmente importa, continuou a jogar-se na noite de 5 de Outubro, nesse poético Campo de Sonhos, com bancadas frias e irregulares. O futebol que povoa os sonhos de Beatriz, o jogo que a faz agitar com contagiante alegria essa bandeira vermelha e branca ao vento, esse continuou, apesar da Selecção.  

Não, o futebol normal não parou. Esse futebol que, imune à tempestade de Domingo à tarde, arrastou uma multidão de Paranhos até Grijó. Esse futebol que, apesar da chuva tocada a vento, arrancou Deolinda do sofá, que a levou a saltar a cada golo do Salgueiros, que a fez esperar junto ao relvado para abraçar cada um dos seus meninos, aqueles que correram e sofreram debaixo de um dilúvio bíblico. 

Sim, o futebol normal, nunca pára. O outro, o que enche televisões, que faz correr dinheiro e estrelas, esse recomeça em breve.

do balneário

A saída do estádio, naquela tarde de Domingo, fazia-se cabisbaixa. As bancadas esvaziavam-se com ritmo tristonho, o caminho até ao parque de estacionamento assemelhava-se perigosamente a uma via sacra. O jogo, esse até tinha começado bem, com o Salgueiros a dominar a acessível equipa do Nogueirense. O intervalo chegava com uma vantagem de três golos, que deveriam ser suficientes para sossegar a Alma. O pior, como sempre, viria depois, com a proverbial tendência para o sofrimento que só um clube grande conhece. O pior, como sempre, chegava com o já conhecido gosto pelo abismo, característica intrínseca do Salgueiros, como de todos os clubes históricos. O Nogueirense, que continuava tão insípido como antes, via-se agora a chegar aos 2-3. E com ânimo para mais.

O jogo, esse arrastou-se até ao fim, por entre roer-de-unhas, nervoso miudinho, descrença q.b. e a incómoda suspeita de que o caminho, estreito e íngreme, talvez seja empresa demasiado pesada para um Salgueiros que teima em renascer. E, nem a vitória arrancada a ferros, era bastante para animar os Salgueiristas que deixavam o estádio pensativos, perguntando-se se algum dia seriam recompensados pela esperança que teimam em alimentar. Talvez a vitória, escassa e sofrida, não fosse resposta suficiente. A resposta, essa insinuou-se disfarçada num rumor que saía pelas estreitas janelas do balneário, um cantarolar alegre onde era possível reconhecer o ritmo do cântico que mais cedo tinha ecoado na bancada.

Ao teu lado desde sempre…

As palavras, essas chegavam imperceptíveis, abafadas pela humidade do balneário, ritmadas pelo suor das camisolas rubras, pela alegria da vitória.

este é o meu lugar…

E de súbito voltaram sorrisos aos que passavam, e de súbito a via sacra transformou-se em ressurreição. Sim, se os miúdos acreditam, quem somos nós para duvidar? Se os miúdos que sofreram dentro de campo, que ouviram aplausos e assobios em doses iguais, que foram louvados e quase crucificados creem na justeza do sonho, quem somos nós para nos deixar abater? E do nada a certeza, a absoluta certeza de que sim, o caminho é estreito e íngreme. Mas de que se há em Portugal clube capaz de o trilhar, é o Salgueiros, se há em Portugal adeptos incapazes de desistir, são estes, cheios de Alma. Alma Salgueirista.

onde jogares estou presente,

só para te ver ganhar!

O tambor

Ao teu lado desde sempre, Este é o meu lugar… O tambor? É velhinho, sim. Já vem dos tempos de Vidal Pinheiro. Preso à vedação do campo está o velho tambor, cheio de autocolantes e com a pele remendada, sinal de outras batalhas, de demasiadas batalhas. O jogo está calmo agora, é hora de aproveitar a pausa para disfarçar, com mais uma tira de fita adesiva, o som roufenho causado por anos de bons serviços. Há algo de místico na batida de um tambor. Sabêmo-lo, a humanidade sabe-o há milénios. Seja em tempo de guerra ou de paz, em festas pagãs ou religiosas, o tambor é presença imprescindível, qual coração que marca o ritmo, que dá vida. Um estádio de futebol, território de guerra e paz, de crença e de festa, não haveria de ser excepção.Por isso, reparado o tambor e retomada a batida, as bancadas acordam e respondem …Onde jogares eu estou presente… Dentro do campo o jogo acelera. Sim, é essa batida que dá o mote para as bancadas, é esse ritmo que marca o jogo, lá dentro das quatro linhas. É esse tambor que transporta o saudoso Estádio Vidal Pinheiro país fora, é nessa batida que os jogadores procuram o caminho da baliza adversária. A cada toque, a bola avança, a cada rufar os adversários tremem …Só para te ver ganhar… rematam as bancadas. Finalmente o golo, o delírio, a vitória. E mais uma marca no velho tambor dos tempos do Vidal Pinheiro, desse velho tambor onde mora a Alma Salgueirista.

Salgueiros, o Grande

0-2. Ainda vamos perder isto. Tinham-se passado apenas 15 minutos, e o Salgueiros já ganhava por 0-2 em casa do Canidelo. Vamos perder isto, insistia. Tinha ares de quem sabia do que falava, de quem vivera glórias e desventuras do Salgueiros. Todas elas, dos tempos da primeira divisão, até ao quase desaparecimento. Enchemo-nos de esperanças na pré-época, e depois é isto: sofrer, sofrer, sofrer.

1-2. Eu não disse? Estava-se mesmo a ver. Parece que não sabem jogar. Aquele ali jogou no Boavista, chegou aqui e parece que desaprendeu. Aqueloutro veio do Famalicão. A mesma coisa. Sabe como é, esta camisola pesa muito. No Nacional, na Distrital, o nosso Amor é sempre igual, ouvia-se nas bancadas.  

2-2. Encolheu os ombros como se soubesse do golo mesmo antes de acontecer. Encolheu os ombros sem réstia de surpresa pelo empate, certamente meio caminho para a derrota. Mais uma, tão certa como inevitável. Esta camisola pesa muito.  

2-3! Sorri timidamente com o golo da vitória, ao cair do pano. Como se soubesse desde o início que a vitória era apenas uma questão de tempo, de que aquele sofrimento, aquela quase derrota não passava de um teste à sua Alma Salgueirista. É esta camisola, pesa muito…

Há qualquer coisa de clube grande neste Salgueiros. Talvez seja esta bipolaridade, o estranho gosto pelo abismo, pela vertigem. Talvez seja este sofrimento por antecipação, a sensação de que o Universo nunca será justo, a certeza de estar sempre mais perto da derrota do que da glória. E apesar disso saber que a vitória é certa, e que será sempre justa. A tendência para o derrotismo e para a depressão, enquanto secretamente se alimentam as mais altas expectativas. Sou Tripeiro, de Coração, Ó Salgueiros, o meu Campeão, ecoa nas bancadas. Há, afinal, muitas coisas de grande neste Salgueiros. Porque de facto, o Salgueiros é grande, um dos Grandes de Portugal. No Nacional, na Distrital, o nosso Amor é sempre igual