O meu Benfica

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Não, não vi Eusébio jogar, e não, não fui ao Estádio da Luz em tenra idade. Nasci no Porto e cedo regressei ao Caramulo dos meus pais, onde passaria a minha meninice e adolescência jogando à bola em todos os cantos em que me era possível, do trapezoidal pátio do velho sanatório construído por meu avô até ao recreio da escola primária com icónicos cubos de granito em vez de balizas. Ou no adro do cemitério, o que obrigava não raras vezes a saltar o alto portão para resgatar a bola de entre as campas. No pequeno parque que viria a ser o recinto da festa de Santa Margarida, fintando árvores e driblando raízes, marcando golos em balizas imaginárias. Sim, o meu futebol era o que se jogava na rua, o futebol dos amigos, dos colegas, dos companheiros. E esses eram invariavelmente do Benfica ou do Sporting. Apenas esses tinham dimensão nacional, apenas esses atravessavam o vale subiam à serra, apenas esses. Ser do Porto, do meu Porto natal, seria ser tão bairrista como escolher o Académico de Viseu por critérios de proximidade. Tão exótico como ser do Belenenses. Ou do Leixões. Seria um grito de diferença, uma necessidade imperiosa de afirmação. De confronto. Não, a minha escolha foram os amigos, companheiros de bola e de joelhos esmurrados. Foi o Jorge e o Chico. Foi o meu Pai, Benfiquista discreto e sensato. A minha escolha foram os afectos, as pessoas. E é esse o meu Benfica. Dos companheiros de bancada, ou de mesa de café, dos amigos, de aquém e além mar, da Escócia da Sofia ao Brasil de Rubinho, da Bragança do Blitz a Angra do Heroísmo do Capareira. De Fernando, meu pai, a Luísa, minha filha. É esse o Benfica que, antes de ser escolha minha, me acolheu. De braços abertos.

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A voz do dono

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E pronto, o Porto perde e, acto contínuo, regressam os ataques às arbitragem vergonhosas e desonestas. Limpinho, limpinho. E déjà vu. O que é diferente, neste caso, são os dias que separaram os factos da reacção. E se do velho Dono já se espera lentidão nos processos, o dócil cachorrinho esperou dias infindos para reagir. Para, embevecido com os elogios da esposa, urdir contra cabalas misteriosas que visam derrotar fora do campo uma equipa que, já o disse bastas vezes, roça a perfeição. Sem perceber que a derrota da Luz é dele. Só dele e das suas opções. Contra um Benfica que, longe de brilhante, não foi sequer empolgante. Que ganhou porque jogou o seu jogo, não o do Outro. Que escolheu os 11, os seus 11, pondo de lado cautelas e caldos de galinha. Que teve no banco um Jesus sem Paulo Fonseca, como nunca conseguiu ter um Jesus sem Vitor Pereira. E a escolha de Oblak, quando todos esperavam Artur, é talvez o melhor exemplo. Enquanto isso, do outro lado subia Helton, em vez de Fabiano. E, se não foi pelo Esloveno que o Benfica ganhou, pode perfeitamente ter sido por Fabiano. Pela ausência dele. Ou, em última análise, por Paulo Fonseca. Pela ausência dele. Pela ausência de alma, vendida nas últimas jornadas da época passada, vendida por trinta dinheiros, ou por um prato de lentilhas.
Já era pois, tempo de Paulo Fonseca travar as suas guerras. Não esperar que a mão do dono lhas indique.

O meu, o nosso Benfica…

28042011493O Benfica de Eusébio é o meu Benfica. É, aliás, o Benfica de todos nós, benfiquistas ou não. É o Benfica que nunca desiste, que nunca se dá por derrotado, que sobretudo nunca se dá por perdido.
O meu, o nosso Benfica é o que não esqueceu Mantorras na infeliz hora da despedida. Não o que lhe fez uma despedida vazia, não o que foi incapaz de lhe dar um minuto sequer, no ano do 32° título de campeão.
O meu, o nosso Benfica é o que trata todos os jogadores como seus, por nascimento, criação ou adopção. Não o que os  abandona na Roda de outrora, hoje sob forma de empréstimos ad eternum.
O meu, o nosso Benfica é o que venera Deuses e mitos, em campo, nas bancadas, na memória, no coração. Não é que se apressa em prometer efígies em camisolas e anos de luto. Ou nomes em estádios, pavilhões ou centros de estágio.
Não é o meu Benfica, não é certamente o de Eusébio. E se, mesmo que por breves dias, nos esquecemos disso, não lhe fazemos honra. A Eusébio ou ao seu Benfica. Ao nosso.

Pepsi

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Nada como o abismo para nos levar ao futebol. Foi preciso o dramatismo de mais um play-off para resgatar a nação de Scolari, adormecida pela tranquilidade de Paulo Bento, pela pobreza da campanha de qualificação. E como voltou, a geração das bandeiras chinesas à janela, como voltou essa geração cheia de patriotismo vazio, cheia de falso gosto por futebol, parca em urbanidade e sensatez. Nada como o futebol para nos levar ao abismo. Sim, admito que não se goste do anúncio da pepsi que, diga-se, até tem piada. Mas o levantamento que por aí se viu, redes sociais fora, é deprimente. Deprimente pela intolerância, deprimente pela desproporção, assustador pela inversão de valores. É de futebol que falamos, de um jogo, caramba. De um dos jogadores mais escandalosamente bem pago do mundo e de um anúncio de uma marca de refrigerantes. Não falamos de um boicote a uma marca que, fechando uma fábrica em Portugal, atira centenas para o desemprego. Não nos indignamos pelos lucros das maiores empresas portuguesas taxados na Holanda. Nós, que escolhemos fruta pelo preço, não pela origem geográfica. Não protegemos os nossos, salvo se forem bem sucedidos e andarem de chuteiras nos pés. Não nos indignamos com os desmandos e empobrecimento planeado a que somos sujeitos, dia após dia, ano após ano, com troika ou sem ela. Não nos levantamos contra mentiras infames e inverdades todos os dias repetidas. Não mexemos uma palha contra as indignidades que a toda a hora nos entram pelos olhos dentro. A não ser que seja absolutamente irrelevante. Não é este o meu país, não é este o meu futebol. Este país merece campanhas ridículas, sim, merece enxovalhamentos, é um país sem vergonha e sem decoro. Sem auto-estima. Salvo se ela vier em forma de remate cruzado que, partindo da Suécia termine no fundo das redes lá longe, no Brasil. Sinceramente não tenho estudos para isto.

Estádio de Marte

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Quis o destino que este derby o passasse no Caramulo, quis o destino que, não sendo transmitido em canal aberto, este jogo o visse no café Marte. No velho Marte da minha infância, onde se jogava bilhar às três tabelas ou matraquilhos, onde se compravam jornais, onde se liam jornais da casa com enormes travessas de madeira, onde se compravam pastilhas Pirata ou se furavam os paineis de bolinhas da Regina esperando um qualquer prémio. No Marte, ontem dividido entre os dois lados da segunda circular, ambos bem representados, enchendo o café como nunca o vi. Sim, no meu Caramulo as grandes disputas ainda são entre o Benfica e o Sporting, no meu Caramulo as preferências futebolísticas continuam a passar de pais para filhos, eternizando rivalidades antigas, perpetuando paixões e ódios de estimação. Pais, filhos e netos que ontem se juntaram ali para assistir a um grande jogo de futebol, ali, naquele café, onde em dia de derby não há lugar para parcimónias, para falinhas mansas, contemplações ou meias-medidas. Ali grita-se alto, berra-se a plenos pulmões, salta-se da cadeira a cada golo de Cardozo, vibra-se, sente-se, vive-se futebol como se, gritando dali, do cimo da Serra do Caramulo, as vozes se ouvissem lá, em baixo no relvado. Ouviu-as Cardozo, felizmente. Patrício, esse estava longe demais.

Pireu

rocks

Chegado ao Pireu, para uma escala de poucas horas, apressei-me em procurar uma forma de subir à Acrópole. Na parede, um cartaz anunciava 12€ como sendo o preço de uma viagem de taxi até ao monte sagrado. Assim foi, entrámos no taxi e rumámos a Atenas, passando pelo estádio do Olympiakos antes de nos embrenhar em ruas inclinadas que nos haviam de deixar no sopé da Acrópole. O taxímetro marcava algo em torno de 11€ quando, como que por artes mágicas, passou subitamente para os 27€ que o taxista me exigiu. Argumentei que era um absurdo, que o cartaz apontava para 12€, ao que me respondeu “where?”, olhando para trás, procurando ver o Pireu. Deixei uma nota de 10€ e saí do carro com um apressado “keep the change”.
Anos depois o taxista vingou-se. Imagino-o hoje, em pleno estádio, venerando Roberto, fazendo gestos obscenos para a claque Portuguesa, procurando-me entre eles, vociferando “keep the change, bitch”…

O vento

O vento sopra, finalmente. O vento sopra nas Geraes trazendo com ele a insuportável saudade do meu Benfica. A vontade de estar lá, agora, como se Alvalade fosse ali, do outro lado da Serra do Curral, como se 7.500km se esfumassem sob o peso do desejo, como se a distância dos últimos meses sucumbisse perante a imagem das camisolas berrantes. O vento sopra, finalmente, mas o vento que cala a desgraça, o vento que nada me diz, deixa espaço para a ilusão, para a subida de Aimar ao relvado, sim, de Aimar, como se o 10 nunca nos tivesse deixado pela porta pequena. Ou, pelo canto do olho, traz a imagem de Pedro Mantorras, no banco, assegurando que, se algo correr mal, ele estará lá, qual anjo vingador pronto a devolver às bancadas verdes a incerteza da sua mortalidade. Sim, do vento não constam os pequenos desmandos ou as grandes mentiras, neste vento não cabe Jesus dos últimos dias. O Jesus que com ele voa não se ajoelha jamais, o Jesus que vejo é o que transforma, com toque de Midas, inconstantes extremos em laterais de luxo, aquele que reabilita argentinos proscritos transformando-os em insubstituíveis 8’s. É o Jesus que nos devolveu o mais belo futebol de uma vida, não o que o desbaratou em dias tristes.
Olho para o papel e percebo que afinal a distância existe. Um oceano separa o sonho da realidade. Mas, que diabo, ainda temos Cardozo. E Tacuara pode não voar com o vento, mas, como sabemos, não perdoa nunca. Nem esquece. Que seja ele a salvar-nos. E a enterrar a distância que nos separa, que teima em interpôr-se entre nós e a nossa equipa, essa distância que dura há muito tempo. Há demasiado tempo.

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Planalto Central

Quis o destino que, no arranque de mais uma Liga Portuguesa, me encontre longe, em pleno Planalto Central Brasileiro. É assim nos anos ímpares, em que a angústia do guarda-redes no momento do penalty atravessa o oceano até terras de Vera Cruz. Foi aqui, deste lado do Atlântico, que soube do deprimente arranque de há dois anos, que culminaria com o título de Villas-Boas, foi assim que assisti ao empate com o Marítimo na época que nos daria o último título. Desta feita, apesar da desilusão fora de horas, da pré-época titubeante, do caso Cardozo, da impessoal despedida de Aimar, das irritantes incertezas no plantel, encontro-me ansioso uma vez mais. Que comece o futebol, que encha os meus Domingos, que me faça sair de casa até ao café do Sr. Coutinho, que me faça sair de casa para levar Luisa ao estádio mais perto, que me faça perder a paciência com os velhos do Restelo que se irritam com Maxi, que duvidam de Gaitán, que insultavam Cardozo. Que os jogos comecem, que seja, para variar, uma vitória a abrir a nossa caminhada segura e competente. Se assim for, estou certo de que os sucessos se sucederão, apesar dos percalços, que as vitórias se repetirão, apesar das pressões, apesar das invejas, que as bolas morrerão nas redes adversárias, apesar de Cardozo, que terminaremos a festejar, no Dragão, apesar de tudo, apesar de traumas passados. Seremos campeões, acreditemos nisso, convençamo-nos disso, mas sobretudo trabalhemos para isso.

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R10

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A importância de Ronaldinho neste Atlético não pode ser medida apenas em golos e assistências. Em 2006 o Galo militava na série B. Até 2011, oscilava entre o meio da tabela e a zona de rebaixamento. Em 2010 e 2011 lutou arduamente para escapar à série B. Entretanto chegou Ronaldinho vindo do Flamengo, culminando uma travessia no deserto demasiado longa. E, subitamente, o Atlético ganhou dois títulos mineiros. Lutou até ao fim pelo Brasileirão do ano passado, terminando como vice-campeão, ganhou a Libertadores, feito inédito no centenário clube. Com ele o Galo subiu um degrau, cresceu, a exigência aumentou, a alegria da torcida explodiu. Com ele em campo é de esperar o inesperado, com ele em jogo devemos reverenciar o enorme toque de bola e o sorriso contagiante. Não podia, pois, deixar de voltar ao renovado Independência, desta feita a convite do Rubinho, interrompendo assim o jejum de anos. A última vez que ali tinha estado, para ver o América selar a subida à série B, ainda se comia pão com linguiça no topo do Estádio, ainda se bebia cerveja verdadeira, ainda a turma sentava no cimento frio da bancada. Tudo mudou, e a nova arena Independência cresceu, como se isso fosse possível dentro das apertadas ruelas do horto. Diria que ganhou um charme inglês de estádio urbano, acolhedor, mas misturado com a informalidade Brasileira que, em dia de jogo, transforma qualquer janela das imediações em bar, qualquer pátio em restaurante, qualquer garagem particular em estacionamento pago. Voltei. Voltei para ver o jogar o Atlético que, mais do que se deixar adoptar, me adoptou e me acolheu em seus braços. A mim e a Luisa que, como eu, se deixou contagiar pela magia, que, como eu, se curvou em sinal de reverência quando, com o sorriso nos lábios e sem sequer tocar na bola o 10 alvinegro deixou pregado ao chão o enorme zagueiro do Bahia, abrindo todo o corredor esquerdo para mais um ataque infrutífero. Aquilo que presenciámos, ambos, aquele movimento, aquele gingado, aquela visão só está ao alcance de um punhado de eleitos. Que um deles tenha escolhido o Atlético é uma benção dos deuses do futebol.

Brasília, 16 de Agosto de 2013

Penalty

Há algo de decepcionante neste Benfica. Mais do que a forma como se perderam os títulos do ano passado, mais do que outro ano de jejum, há algo neste Benfica que me entristece. Não falo apenas deste Benfica de pré-época, deste Benfica de um Jesus aos tropeções na via crucis, falo do Benfica de Vieira, de Rui Costa, deste Benfica que se tornou uma empresa, mais do que um clube. Que se rendeu à “economia” e aos “mercados”, como aliás todo o país, toda a Europa, e que, ao fazê-lo, vendeu a mística, traíu o humanismo a que qualquer desporto deve se deve subordinar. Falo da saída de Aimar, por exemplo, sem honra nem glória, sem um abraço de despedida que devemos a um amigo, falo da saída de Nuno Gomes como falo do último ano de Pedro Mantorras, sem jogar sequer o minuto que o tornaria campeão nacional. Todas elas, todas estas despedidas, foram transformadas em meros actos de gestão, desprovidas de emoção, despidas de paixão. Corrói-me, esta indiferença, corrói-me mas suporto-o eu, como já suportei a inqualificável purga de Artur Jorge, ou a dispensa de JVP por Heynckes, suporto-o resignado e com mágoa. Mas a resignação desaparece quando vejo a paixão esvair-se dos olhos da Luisa. Crime de lesa-paixão não se perdoa em caso algum, e a forma como a novela Cardozo foi conduzida perfigura ilícito dessa gravidade. Porque por muito errado que Tacuara pudesse estar, o seu passado, o seu presente de águia ao peito aconselhava outra celeridade, outra clareza. Prolongar a indefinição, promover a exclusão não é coisa de gente avisada, e mais não faz do que afastar os adeptos dos estádios, dos campos onde vibram as papoilas. Ou da BenficaTV, palco para um inacreditável e pouco convincente mea culpa que, apesar de tudo, foi um passo em frente no impasse. Um passo digno de um 9 que, sentido ou não, fez a Luisa sorrir de vermelho outra vez. Cardozo pode não ter marcado um golo. Mas arrancou um penalty que urge transformar em golo. E é por este, como pelos outros cento-e-tal, que lhe estou grato.
9 de Agosto de 2013