Posts tagged “tondela

Weekly Photo Challenge: My 2012 in Pictures

people campos concertina 1201 01 edited bw(Campos, Janeiro de 2012)

España (328) small(Covadonga, Fevereiro de 2012)

people Lisboa 1203 1 small(Lisboa, Março de 2012)

judas 15 1204(Tondela, Abril de 2012)

people porto painting 1205 01 small(Porto, Maio de 2012)

people cello 1206 01 small(Guimarães, Junho de 2012)

people pastor sta margarida 1207 1 small(Caramulo, Julho de 2012)

people venezia pozzi 1208 01 small(Venezia, Agosto de 2012)

people manif 1209 01 porto small bw(Porto, Setembro de 2012)

tortulho 01(Caramulo, Outubro de 2012)

moon small(Caramulo, Novembro de 2012)

work pontas small(Lavra, Dezembro de 2012)

Anúncios

Queima do Judas

Voltava a Tondela anos mais tarde, voltava para ver a Queima do Judas. O que agora era um famoso espectáculo começara por ser uma simples cerimónia com um rudimentar boneco que, representando o discípulo caído em desgraça, era queimado até à apoteótica explosão da sua cabeça deixar em delírio os Tondelenses. A festa ficava a cargo de um tal de “Mau- Mau”, figura conhecida lá da terra que se dedicava com afinco ao labor de construir o boneco de inflamáveis vísceras ao qual deitaria fogo, vendo esfumar-se num ápice todo o seu trabalho de um ano. Nunca vira tal espectáculo, ele, soube-o por ela, agora que voltava a Tondela.
Chegara à então Vila e sede de Concelho muitos anos antes, mais de 32, agora que fazia as contas. Chegara para o quinto ano, para o Ciclo Preparatório no Colégio de Santa Maria, entretanto abandonado. Era um edifício que à data lhe pareceu absolutamente majestoso, com a sua forma em U, cujas arcadas da galeria do piso térreo sugeriam um claustro incompleto onde se passavam os intervalos, onde certamente se cruzaram pela primeira vez, ainda que não se recordem de tão afortunado evento. Lembram-se, isso sim, do velho Tomás Ribeiro, passo seguinte no percurso académico de ambos. 30 anos se passaram, ainda a queima do Judas se fazia no adro da Igreja, nesse Sábado em que Jesus jazia morto no Sepulcro. Conheceram-se ali, finalmente, e era graças a ela que ali voltava, para ver a agora majestosa e encenada queima do Judas, feita na moderna Escola que substituiria a velha Tomás Ribeiro, levada a cena pela reconhecida companhia ACERT, que entretanto tomaria o saudoso Santa Maria para sua sede…
Estranho círculo o que o fez voltar. Estranho círculo que finda com Judas em chamas. E que renasce no Domingo de Aleluia.

(para a Teresa, cujo convite nos levou a descer a serra num sábado à noite…)

(galeria de fotos…)


Split, versão II

I

Chegava dividido àquele encontro. Chegava sabendo que, sendo o certo falar-lhe, o mais cómodo seria não o fazer, e assim continuar com a rotina agradável, segura. Evitar dessa forma aquele pequeno terramoto que podia mudar as suas vidas, as suas adolescências.

Não era a primeira vez que se via naquela situação, sabia do arrependimento que viria depois, da frustração, da incredulidade, tudo enorme, tudo esmagador. Sabia que procuraria conforto na inevitabilidade de outra ocasião, de outra oportunidade, essa sim perfeita, em que tudo, absolutamente tudo o empurraria para ela, para o seu destino. Destino de ambos, aliás.

Devolveu-lhe o vinil, tocando na sua mão, querendo-lhe falar, mas certo de que não o faria. E naquele momento, no pátio da escola onde tantas vezes se encontraram, pressentiu algo de diferente, pressentiu que talvez aquele encontro fosse singular, um ponto sem retorno, uma última oportunidade. Pressentiu-o bem, e foi aquela a última vez que a veria em muitos anos.

A primeira fora alguns anos antes, no Colégio de Santa Maria onde fizera o 1º e 2º anos do ciclo preparatório. Teriam 10 ou 11 anos, e o normal seria esquecê-la em algumas semanas, provavelmente ao ver uma amiga sua que acharia infinitamente mais bonita. Life goes on. Mas não, não foi assim. E a bela Cláudia haveria de permanecer um longo período como a sua paixão, pouco adolescente, importante demais para a sua idade. Muito para além do razoável, aliás. Depois da admiração à distância, da veneração, chegara finalmente ao seu círculo de amigos. Trocara breves palavras, articulara pequenas conversas. Emprestaram-se discos, partilharam música. Sublimes esses tempos. Para quê estragá-los, então? Para tentar algo quando era evidente que ela estava num patamar de perfeição inatingível?

Daí a hesitação daquela tarde, daí o recato, daí as palavras vagas e de circunstância naquele ponto de viragem depois do qual nada seria como dantes. Sentiu-o quando, ao largar o disco, ao deixar a sua mão e seguir o caminho da mesmice e do silêncio, se viu sacudido por um estremecer. Soube-o quando se viu irremediavelmente dividido, partido em dois, quando viu, estupefacto, que ao afastar-se dela, uma metade de si ficava para trás, continuando a segurar-lhe docemente a mão. Assustado apressou o passo. Não o suficiente, no entanto, para deixar de ouvir na boca do outro, na sua voz, as palavras que sempre sonhou dizer-lhe, confessando-lhe o que já era público, formalizando o início desse namoro adolescente que tanto havia desejado. Correu. Mas não o suficiente para afastar do seu pensamento o beijo que certamente dariam. Ele e ela.

Remeteu-se ao silêncio, desapareceu, tentando entender o que se havia passado. Tentando articular explicações para o insólito. Pensando como faria, sabendo que havia agora dois Pedros circulando pelas ruas de Tondela.

II

Descia a serra na camioneta que o levaria à escola. Aproveitava para tentar recompor-se do susto, para perceber como faria para sobreviver incólume a esses últimos dias de Tondela. O ano escolar terminava, e o próximo iniciar-se-ia noutras paragens. Sabia-o desde que recebera de sua mãe uma caixa cheia de interruptores, lâmpadas e fios de cobre coloridos. Sabia-o desde que pela primeira vez levara um punhado de electrões provenientes de uma velha pilha de 4,5V a atravessar o fino filamento de tungsténio de uma pequena lâmpada. Por força da sua opção pela Electrotecnia, deveria continuar os estudos em Viseu ou no Porto. A opção lógica seria a sua terra Natal, a escola d’o Infante a sua primeira escolha. Via-se já chegando de comboio à Avenida de França, descendo Júlio Dinis depois de passar pela rotunda da Boavista. Sonhava-se já entre amperímetros e voltímetros velhos, de pesada madeira e certeiras escalas, operando reóstatos, verificando a lei de Ohm, comprovando as leis de Kirchoff.

A sua preocupação era agora evitar encontros indesejáveis, esquivar-se aos locais habituais, fugir dos percursos costumeiros. Evitar a todo o custo cruzar-se com a sua invejada metade que ficara para trás. Havia lido, um dia, as palavras de Hugo Pratt que, pela boca de Corto Maltese, assegurava que do cruzamento com um seu duplo surgiriam tragédias de proporções bíblicas. E de Corto não se duvida. Mudou os seus passos, os seus hábitos e até as suas companhias. Naquela tarde recebeu o convite com precaução. Uma festa de garagem, naquela parte da Vila, pareceu-lhe um risco. Moderado, mas um risco, em todo o caso. Mas um risco que valia a pena correr, pela companhia. Conhecera-a meses antes, no início desse ano, lá por Outubro. O fugaz namoro que então surgiu não resistiu à inexperiência, à imaturidade de dois pré adolescentes. O seu fim, no entanto, seria início de uma ligação próxima, cada dia mais próxima, como se só depois disso se tivessem realmente conhecido. Era difícil, pois, resistir às suas palavras. Ao seu convite. A essa festa de despedida. Do ano, de Tondela. Dela. E de si mesmo.


Matosinhos (II)

Corria então o ano de 84, ano de Jogos Olípicos de Los Angeles. Os últimos da Guerra Fria e dos grandes boicotes, os jogos do épico Ouro de Carlos Lopes, da Prata de Rosa Mota. Ano do Europeu em que, brilhando Chalana venceu Platini, nessa véspera de São João em que já todo o Caramulo se preparava para a sardinhada dessa noite. Findo esse ano estranho, depois desse longo Verão a vida recomeçaria longe de Tondela, em Matosinhos. Vida nova, amigos novos. A mudança, essa começara a delinear-se anos antes, no momento em que recebera de sua mãe um presente inesperado. Um conjunto didático de electricidade, com pequenas lâmpadas, interruptores e até uma campainha, fios de cobre e uma bateria, de 4,5V, com patilhas, uma longa e outra curta, distinguindo assim a sua polaridade. Possibilidades infinitas se abriam com aquela parafernália, ligações improváveis, resultados surpreendentes. E depois os telefones que, avariados e condenados à sucata, lhe eram oferecidos  pelo Sr Firmino, guarda-fios e seu vizinho, para serem sucessivamente esventrados e transformados em peças estranhas para as quais havia sempre uma função, uma utilidade. Ou os arrancadores de lâmpadas fluorescentes gastos, que com a sua misteriosa lâmina bi-metálica conferiam magia a qualquer montagem. Mais tarde os pequenos electrodomésticos que, após muitos anos de trabalho fiel, lá acabavam por avariar, contribuindo com novos componentes, que logo se veriam trespassadas por uma corrente de electrões vindas das inesgotáveis baterias de 4,5V. Trespassado também, decidiu então o que era óbvio, que era aquilo que queria estudar. Nem que fosse necessário sair do Caramulo, virar costas a Tondela. Assim foi, deixando para trás definitivamente esse ano tão estranho.


01 split


01.

Chegava dividido àquele encontro. Chegava sabendo que, sendo o certo falar-lhe, o mais cómodo seria não o fazer, e assim continuar com a rotina agradável, segura. Evitar dessa forma aquele pequeno terramoto que podia mudar as suas vidas, as suas adolescências. Não era a primeira vez que se via naquela situação, sabia do arrependimento que viria depois, da frustração, da incredulidade, tudo enorme, tudo esmagador. Sabia que procuraria conforto na inevitabilidade de outra ocasião, de outra oportunidade, essa sim perfeita, em que tudo, absolutamente tudo o empurraria para ela, para o seu destino. Destino de ambos, aliás. Devolveu-lhe o vinil, tocando na sua mão, querendo-lhe falar, mas certo de que não o faria. E naquele momento, no pátio da escola onde tantas vezes se encontraram, pressentiu algo de diferente, pressentiu que talvez aquele encontro fosse singular, um ponto sem retorno, uma última oportunidade. Pressentiu-o bem, e foi aquela a última vez que a veria em muitos anos. A primeira fora alguns anos antes, no Colégio de Santa Maria onde fizera o 1º e 2º anos do ciclo preparatório. Teriam 10 ou 11 anos, e o normal seria esquecê-la em algumas semanas, provavelmente ao ver uma amiga sua que acharia infinitamente mais bonita. Life goes on. Mas não, não foi assim. Foi ela que, resistindo ao tempo, haveria de permanecer um longo período como a sua paixão, pouco adolescente, importante demais para a sua idade. Muito para além do razoável, aliás. Depois da admiração à distância, da veneração, chegara finalmente ao seu círculo de amigos. Trocara breves palavras, articulara pequenas conversas. Emprestaram-se discos, partilharam música. Sublimes esses tempos. Para quê estragá-los, então? Para tentar algo quando era evidente que ela estava num patamar de perfeição inatingível? Daí a hesitação daquela tarde, daí o recato, daí as palavras vagas e de circunstância naquele ponto de viragem depois do qual nada seria como dantes. Sentiu-o quando, ao largar o disco, ao deixar a sua mão para seguir o caminho da mesmice e do silêncio, se viu sacudido por um estremecer. Soube-o quando se viu irremediavelmente dividido, partido em dois, quando viu, estupefacto, que ao afastar-se dela, uma metade de si ficava para trás, continuando a segurar-lhe docemente a mão. Assustado apressou o passo. Não o suficiente, no entanto, para deixar de ouvir na boca do outro, na sua voz, as palavras que sempre sonhou dizer-lhe, confessando-lhe o que já era público, formalizando o início desse namoro adolescente que tanto havia desejado. Correu. Mas não o suficiente para afastar do seu pensamento o beijo que certamente dariam. Ele e ela. Remeteu-se ao silêncio, desapareceu, tentando entender o que se havia passado. Tentando articular explicações para o insólito. Pensando como faria, sabendo que havia agora dois Pedros circulando pelas ruas de Tondela.


Tondela

Corria o ano de 83. O mês seria Abril ou Maio. Animados pelo espírito da primavera, eu e a minha turma do 8º ano resolvemos inscrever-nos no torneio de futebol da Escola Secundária. Tudo bem, até nos sair em sorte um adversário temível: a turma do 10º ano que contava por vitórias os jogos até à data. Conheci aí o nervoso miudinho antes de entrar em campo. Que, julgava, daria lugar à excitação no momento em que pisasse o cimento, assim que assumisse o meu lugar na baliza. Não foi assim, no entanto. Mal tinha começado o jogo e já perdíamos por 5-0. Quis então sair, achava que já tinha tido a minha dose de humilhação. Felizmente o melhor de nós, o mais velho da equipa, segurou-me, dizendo um punhado de palavras sábias. Get a grip on yourself, ou algo parecido. O certo é que fiquei, convencido de que a situação não poderia piorar. Com razão. Depois disso nem um dedo deslocado me fez parar. Depois disso fizemos finalmente o nosso jogo. De David contra Golias. Até ao 5-4, perante o entusiasmo do público, perante a incredulidade de 5 matulões, incapazes de parar 5 miúdos de metro-e-meio. Não chegámos mais longe, não chegou, o tempo. Faltou-nos um golo para o empate, dois para a vitória. Para a glória não faltou nada, graças ao tempo certeiro de algumas palavras sábias, palavras que há muito esqueci. O jogo, esse, lembro-o até hoje, sempre que olho para o meu dedo mindinho. Irremediavelmente torto, desde essa tarde inesquecível…