São João

Numa das minhas mais velhas memórias estou algures em Pereiró, em cima da garagem do Sr. Almeida e da Fernandinha num qualquer São João do século passado. A Bela segura-me pela mão, enquanto olho embevecido para o balão de papel, fascinado pela magia que o faz voar, rendido ao ritual do lançamento e àquela revienga final que o faz subir rodando pelos céus do Porto. Esse ritual que repetimos, agora em Custóias em casa do Sr. Zé e da Sameiro, entretanto rebaptizados Vô Zé e Vó Sameiro pelas crianças. É ali que aproveitamos o braseiro que assou sardinhas e pimentos para aquecer o ar que encherá o balão de papel e o fará, uma vez mais, subir alto nos céus de São João. Não sem antes cumprir o ritual, de acender a mecha, de garantir que o balão não é largado demasiado cedo, de deixá-lo finalmente subir, com aquela revienga que lhe dará a graciosidade no voo. Depois disso é correr rampa acima com um sorriso no rosto, para o ver rasgar os céu como se viesse de Pereiró. E vê-lo por fim desaparecer na distância, em companhia de tantos outros balões coloridos. Mas com muito mais poesia.

A casa de Pereiró, do Sr Almeida e da Fernandinha, foi para mim uma referência durante anos a fio. Foi outrora uma casa de bairro operário, tão vulgar no Porto do Século XX, à qual tinha sido acrescentado entretanto um andar. Lembro-me da entrada com os azulejos côncavos amarelados e vidrados e o banquinho de cimento, a escada com o vitral azul e a sua luz misteriosa e, já no piso superior, o belíssimo aquário cheio de peixes coloridos e exóticos. Por cima do sofá uma reprodução da Guernica de Picasso, ao lado do móvel as enormes colunas de som onde se ouvia Caetano Veloso. Navegar é preciso, viver não é preciso. Na cozinha, lembrar-me-ei sempre do fascínio com que abria aquela porta mágica do canto do armário, que rodopiava transformando-se num carrocel saído sabe-se-lá de onde. Lá dentro, creio, havia um pote com bolachas e, agora que penso, não sei se o meu entusiasmo era por elas ou pelo belo mecanismo de engenharia que era aquele armário. Ao lado ficava a marquise com enormes janelas e com uma engenhosa mesa cujo tampo se baixava e subia conforme a necessidade. A separá-las, a marquise e a cozinha, ficava a porta de madeira onde, rezava a lenda, morreu o pequeno pássaro da Bela que agora jazia empalhado em cima do móvel. Por fim o quarto da Bela, com a pequena casinha que parecia saída das montanhas da Suíça, à qual dava corda para ver sair pequenos bonecos que a minha memória insiste em recordar como um casal com baldes da mão. Como se saíssem para ordenhar as vacas que pastavam nas verdes colinas dos Alpes. Havia também a escrivaninha com um planisfério impresso no seu tampo de verniz brilhante. E um qualquer pendural que pendia do candeeiro, do qual não me lembro a forma. Seria um pássaro, uma estrela? E ainda a enorme pedra de quartzo branco trazida do Caramulo, do Poiso Santo, numa das muitas férias que a Bela passava connosco. Voltei àquela casa anos a fio, para almoços, jantares ou festas de aniversário. Muito mudou, ali. O quarto da Bela transformou-se em quarto de TV, o aquário desapareceu, e penso que também a luz azulada do vitral. O que resiste, ainda, é a imagem dos balões a subirem do topo da garagem do Sr. Almeida. 

À casa de Custóias cheguei pela mão do Jorge e do Leonel, algures entre o liceu e a faculdade. Era ainda uma casa inacabada num bairro de casinhas mais ou menos iguais, com telhados de uma água, destinadas a auto-construção. No piso inferior ficavam a cozinha e a garagem, no último piso, os quartos. No piso intermédio a sala e o escritório, acabados mais tarde. Era ali, na mesa da cozinha onde hoje a Vó Sameiro fazer o caldo verde indispensável a qualquer noite de São João, que estudávamos noite dentro. Eu o Jorge e o Leonel, preparando os exames de Máquinas Eléctricas, Electrónica III ou Teoria dos Sistemas I. Foi ali fora, no pátio, que passámos algumas horas de volta do velho Opel Rekord 1900 verde, tentando descobrir como funcionava a iluminação do capot do motor, ou a reparar o manómetro da gasolina. Foi ali, que assistimos ao épico Portugal-Inglaterra do Euro-2000 e ao golo de João Pinto, um dos mais belos cabeceamentos de que me lembro.

Como é ali que, ano após ano, celebramos o São João. Em família, com sardinhas e pimentos, entrecosto e vinho verde tinto, balões e caldo verde. Com a Vó Sameiro e o Vô Zé, a Bela e o Fernando, o Leonel e a Ângela, a Paula e o Jorge, os meus pais e todas as crianças. Que guardarão entre as suas mais queridas memórias o São João de Custóias, com os seus balões de papel, subindo altivos nos céus de Junho. Graças aquela revienga final.


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A voz do dono

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E pronto, o Porto perde e, acto contínuo, regressam os ataques às arbitragem vergonhosas e desonestas. Limpinho, limpinho. E déjà vu. O que é diferente, neste caso, são os dias que separaram os factos da reacção. E se do velho Dono já se espera lentidão nos processos, o dócil cachorrinho esperou dias infindos para reagir. Para, embevecido com os elogios da esposa, urdir contra cabalas misteriosas que visam derrotar fora do campo uma equipa que, já o disse bastas vezes, roça a perfeição. Sem perceber que a derrota da Luz é dele. Só dele e das suas opções. Contra um Benfica que, longe de brilhante, não foi sequer empolgante. Que ganhou porque jogou o seu jogo, não o do Outro. Que escolheu os 11, os seus 11, pondo de lado cautelas e caldos de galinha. Que teve no banco um Jesus sem Paulo Fonseca, como nunca conseguiu ter um Jesus sem Vitor Pereira. E a escolha de Oblak, quando todos esperavam Artur, é talvez o melhor exemplo. Enquanto isso, do outro lado subia Helton, em vez de Fabiano. E, se não foi pelo Esloveno que o Benfica ganhou, pode perfeitamente ter sido por Fabiano. Pela ausência dele. Ou, em última análise, por Paulo Fonseca. Pela ausência dele. Pela ausência de alma, vendida nas últimas jornadas da época passada, vendida por trinta dinheiros, ou por um prato de lentilhas.
Já era pois, tempo de Paulo Fonseca travar as suas guerras. Não esperar que a mão do dono lhas indique.

foto da semana I

 Faltando-me as palavras, e faltam nesta era de desalento, não há-de faltar-me a fotografia. Aqui as deixarei, ao ritmo de uma por semana, é uma promessa. E é para cumprir. Assim não me faltem leitores…(“manif 2.0” – Avenida dos Aliados, Porto, durante a manifestação de 15 de Setembro de 2012)

arquitecto

Não fossem as lâmpadas e fios de cobre e estaria agora entre lápis e papeis. Não fosse o conjunto didático que recebi da minha mãe em tenra idade e estaria agora debruçado sobre um estirador. Não fosse a engenharia e seria provavelmente arquitecto.
Não sou, e por isso se foram os espaços, formas, vazios e volumes. Não totalmente, no entanto. É que, não me saindo das mãos, vão me entrando pelos olhos, não as fazendo de carvão, fixo-as em sais de prata. E estes, dispostos a preceito sobre um fino suporte de triacetato de celulose, chegaram-me pelas mãos do meu pai. Em bom tempo, pois graças a eles, graças a ele, guardo comigo portas, janelas, paredes, espaços, rampas, formas, escadas. Prevaleceu, no fundo, a engenharia oferecida pela minha mãe. A arquitectura, essa sobreviveu graças ao presente do meu pai…

Milton

Entrou casa adentro não teria eu mais de 6 ou 7 anos. Entrou ele, Chico, Gilberto, Bethânia, entraram todos, agora que se podia ouvi-los sem medo, agora que os tempos eram de liberdade. Entraram pretos, de vinil, exigindo rituais de limpeza e cuidados vários, antes de encherem a sala, antes de aplacarem a sofreguidão, sinal daqueles anos quentes. Saciada a fome, foram caindo pelo caminho, um a um, Gilberto, Bethânia, Simone. Chico, genial como poucos, manter-se-á para sempre na minha vida. Ele reaparecerá lá para 87, aprisionado numa cassete, habitando meu walkman, entretendo viagens de trem entre Coimbra-B e São Bento. Havia de voltar anos depois em forma de evocação, quando, pela primeira vez, nesse mítico bar na esquina da Aimorés com Maranhão, pedi um chopp que, ousaria dizer, serviu de água benta do meu baptismo Mineiro. Milton é pois meu padrinho. E foi a benção, o que lhe pedi ontem aqui, na cidade onde nasci. A ele que vagueou lentamente pelo palco, levitando sem lhe tocar, a ele de cuja presença duvidamos, tal o ar etéreo que o envolve, tal a distância que o separa da plateia dos mortais. Seria assim até ao final quando, descendo à terra, chegou perto o suficiente para se lhe ouvir um “Deus te abençoe”. Juro que ouvi, juro que era para mim…

a fuga

Fugia a estas imagens, fugia de fotografias invasivas, fotografias que, corrompendo irremediavelmente o momento, o faziam parecer plástico, pouco autêntico, artificial. Impuro. Fugia de fotografias fáceis, clichés coloridos, com pores-do-sol, mares e areia, abraços ou contemplações. Mesmo da cor lhe apetecia fugir, dos tons quentes e alaranjados, das nuvens, coqueiros ou luas. Fugia. Mas não dali, não daquele momento. Daquele estrado de madeira apontando irremediavelmente o sol posto, daquela conversa cúmplice, daquele beijo adivinhado, daquele fim-de-tarde de um qualquer Maio, na Foz do Douro, daquele gigantesco pastiche não conseguiu ele fugir…