Queima do Judas

Voltava a Tondela anos mais tarde, voltava para ver a Queima do Judas. O que agora era um famoso espectáculo começara por ser uma simples cerimónia com um rudimentar boneco que, representando o discípulo caído em desgraça, era queimado até à apoteótica explosão da sua cabeça deixar em delírio os Tondelenses. A festa ficava a cargo de um tal de “Mau- Mau”, figura conhecida lá da terra que se dedicava com afinco ao labor de construir o boneco de inflamáveis vísceras ao qual deitaria fogo, vendo esfumar-se num ápice todo o seu trabalho de um ano. Nunca vira tal espectáculo, ele, soube-o por ela, agora que voltava a Tondela.
Chegara à então Vila e sede de Concelho muitos anos antes, mais de 32, agora que fazia as contas. Chegara para o quinto ano, para o Ciclo Preparatório no Colégio de Santa Maria, entretanto abandonado. Era um edifício que à data lhe pareceu absolutamente majestoso, com a sua forma em U, cujas arcadas da galeria do piso térreo sugeriam um claustro incompleto onde se passavam os intervalos, onde certamente se cruzaram pela primeira vez, ainda que não se recordem de tão afortunado evento. Lembram-se, isso sim, do velho Tomás Ribeiro, passo seguinte no percurso académico de ambos. 30 anos se passaram, ainda a queima do Judas se fazia no adro da Igreja, nesse Sábado em que Jesus jazia morto no Sepulcro. Conheceram-se ali, finalmente, e era graças a ela que ali voltava, para ver a agora majestosa e encenada queima do Judas, feita na moderna Escola que substituiria a velha Tomás Ribeiro, levada a cena pela reconhecida companhia ACERT, que entretanto tomaria o saudoso Santa Maria para sua sede…
Estranho círculo o que o fez voltar. Estranho círculo que finda com Judas em chamas. E que renasce no Domingo de Aleluia.

(para a Teresa, cujo convite nos levou a descer a serra num sábado à noite…)

(galeria de fotos…)

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Páscoa

A Páscoa era, mais do que o Natal, tempo de regresso no Caramulo. A decadência dos Sanatórios levara muitos a procurar sorte fora da Serra, Porto, Lisboa ou outras paragens mais distantes. Mas este era o tempo do regresso, em que se reencontravam primos distantes, velhos amigos, era este o Domingo em que as ruas do Povo, o núcleo original das Paredes do Guardão, se enchiam, era este o Domingo em que se encontrava o Compasso em cada esquina. Em que o Abade saía com os seus melhores paramentos, em que entrava em casa de todos os paroquianos ansiosos pela visita Pascal. Na nossa casa entrava já o Sol tinha desaparecido atrás do Caramulinho, já noitinha, já cansado da longa jornada. Nem por isso deixava de dizer umas palavras simpáticas, alusivas ao dia da Ressurreição de Cristo. Naquele ano referiu-se à sapiência divina, ao fazer coincidir a Páscoa com a Primavera, “tempo de renascimento”. Palavras a que todos acenaram, certos de que era de facto prova de harmonia divina. Todos menos a Ana que, estupefacta, lembrava o Outono que então dourava a Páscoa em Minas…

aqui

É aqui que regresso, é daqui que sou. Sim, nasci longe, nasci Tripeiro, e sim, é já mais o tempo em que vivi longe daqui do que o que passei nesta Serra. E contudo é aqui que me sinto em casa, é aqui que me sinto reconfortado. Foi aqui que pela primeira vez olhei derretido para ela, a menina mais bonita de toda a escola, foi aqui que, tendo 6 ou 7 anos peguei na sua mão no recreio. Foi aqui que o Sr Aníbal me vendeu chicletes Gorila, gelados Olá e cerveja Sagres. Foi por aqui que joguei marcantes jogos de futebol, fosse no Lusitano, no Parque, em frente ao Cemitério ou nos lameiros da Longra. Foi aqui que, às escondidas, fumei o meu primeiro Português Suave (long size) com o Chico. Foi aqui que selei uma promessa de eternidade com um anel de luar. Foi aqui que tantas vezes me chamaram Fernando, como chamam hoje Pedro ao Francisco. É daqui que eu sou, e é aqui que, mesmo sendo um pouco de outras paragens, renasço a cada Páscoa…

Quinta-feira de Endoenças

É-me particularmente cara, a quadra Pascal.

E é assim desde a minha infância.

Quando saíamos de casa, no Domingo de Páscoa, para passear pelas ruas do “Povo”, núcleo original desse distante Caramulo.

Quando saíamos, cumprimentando os conhecidos.

E os familiares distantes, que não víamos desde a última Páscoa. Desde o último regresso.

Quando parávamos para saudar a Ti’Ana, invariavelmente sorridente e alegre. Invariavelmente sentada no banco de pedra à sua porta.

Quando tentávamos adivinhar onde estaria a visita Pascal.

Teria já passado no ti Flausino? Ou teria chegado já ao Ti’Henrique.

Será melhor apressar o passo, pois temos temos chegar a casa do Avô António e da Avó Fausta antes que o Senhor Abade lá chegue…

E já à noitinha a visita entrava finalmente em nossa casa.

Acompanhada por uma sábia palavra do exausto Abade.

Que podia ser uma qualquer observação sobre a origem do nome Vasco, meu primo.

Ou a feliz constatação de que Deus tinha feito coincidir a Páscoa com a Primavera.

Feliz era a Páscoa no Caramulo.

Para onde rumarei, feliz, amanhã.

Esperando que hoje, quinta-feira de Endoenças, Jesus cumpra a tradição.

E que seja Rafa Benitez, o cordeiro sacrificado.

(para a minha avó Piedade – n.14/06/1911 – f.01/04/2006)

Senhora da Hora, 01 de Abril de 2010