Posts tagged “Nikkor

Weekly Photo Challenge: Reflections

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Um dos resultados de uma tarde nas salinas de Tavira, sob a canícula Algarvia, com a minha fiel Nikkor. Pernilongos esquivos, em águas paradas.

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ao longe



Sim, com uma objectiva mais luminosa a imagem ganharia outro brilho. Ver-se-iam certamente as horas no  relógio da torre da Igreja da Barra. Sim com um corpo de última geração os contornos seriam nítidos, a gama de cinzentos completa, o grão inexistente. Mas não, não planeio trocar de equipamento. Certo é que algumas vezes procuro um novo corpo usado, mais actual, com melhor resolução, com um enorme LCD que dê para ver um jogo de futebol. Ou uma objectiva melhor, mais rápida, luminosa e manobrável do que a velhinha Nikkor. O sucesso da procura, no entanto, é directamente proporcional ao entusiasmo que nela invisto. Afinal a S3 é como se fosse uma extensão de mim mesmo, com suas manhas e as suas imperfeições de quem ficou preso entre o analógico e o digital. Afinal a Nikkor é a dificuldade que aguça o engenho, a limitação que espicaça a imaginação. É, mais do que isso, um sonho de adolescência tornado realidade tardia. Sim, com outro equipamento ver-se-iam as horas na torre da Igreja da Barra. Felizmente a Igreja da Barra não tem relógio. Fica todo o resto. O essencial.


ali estava ela…

Primeiro era a excitação de tê-la. Afinal tinha povoado os seus sonhos de adolescência, inatingível e misteriosa. Tinham-se passado décadas e ali estava ela, fitando-o com estranheza, deixando-se adivinhar difícil, insinuando a possibilidade de tardes inesquecíveis. Ali estava ela, com idade incerta, mas por certo experiente, segura de si, exibindo marcas do tempo passado,  pavoneando o inevitável fascínio que despertara outrora. Afinal era uma mítica objectiva de espelho, capaz de vencer qualquer distância, de lhe oferecer todos os pássaros, possíveis ou não, piscos, milhafres e gaios. Mas não foi fácil como se previa, não lhe foi fácil, em plena era digital, voltar à pré-história, prescindir do conforto dos modos automáticos, dos programas, do auto-focus ou mesmo do fotómetro. Percebeu então que as suas mãos não eram já as mesmas, agora lentas e hesitantes, que os seus olhos deixaram a acutilância de outrora, que já não lhe era fácil compreender a luz. À esperança da pré-visualização sucedia-se a decepção com o foco falhado, a luz em excesso ou em falta. Ou todas as anteriores. Desistiu então, voltando às borboletas e abelhas, menos arredias, menos exigentes do que os pardais e melros. E a velhinha Nikkor lá se acomodou no canto da mochila, esperando renascer um dia. Mas, a cada primavera, a passarada cantava mais alto, voava mais perto, passando rente à velha mochila. Sentiu-se renascer e resgatou-a ao esquecimento. Nova oportunidade, pedia o chilrear, esperando que desta feita os dedos fossem mais firmes, o olhar mais atento o sentido mais apurado. Assim foi, e com o tempo lá vieram os truques, a firmeza, mas sobretudo a paciência. E vieram então as fotos, de pássaros ariscos e vulgares, transformados em aves vaidosas e belas, decididas em fotografar-se com aquele símbolo de outrora, de outras eras. Veio a confiança, no seu golpe de vista, na precisão do olhar, mas sobretudo na velhinha Nikkor, objecto de sonhos adolescentes que agora o acompanhava, aos quarenta-e-tal, por entre giestas, pinhais e penedos. Responsável por um renascer, daqueles de que a vida é feita…