Baía

photo (4)Grande parte da sua adolescência, a melhor parte, aquela de que sempre se lembrará, passou-a na antiga Industrial de Matosinhos, actual Gonçalves Zarco. Aí encontrou amigos que o seguiriam toda a vida, alguns dos quais entraram inclusive para a família, aí se apaixonaria, aí cresceria como se deve crescer, com amigos e com paixão. Foi aí no velho campo de piso verde e dois ou três degraus de bancadas, qual estádio imponente, que muitas vezes saciou a sua paixão por futebol. Essa trazia-a de trás, do campo imperfeito e trapezoidal do Lusitano, ou das balizas feitas por vetustos cubos de granito no recreio da escola primária do Caramulo. Ou do campo do Colégio de Santa Maria, rodeado de árvores, onde pela primeira vez havia de defender uma baliza, paixão que duraria para a vida. Uma vez guarda-redes sempre guarda-redes. Cinco anos depois, a mudança para Matosinhos onde ninguém o conhecia pela sua perícia entre os postes, pareceu-lhe uma oportunidade única para “dar um tempo”, para tentar outro rumo, jogar em posições de campo, qualquer uma. E assim foi, naquela tarde em que, na baliza adversária olharia com despeito o pretensioso guarda-redes que ali estava, no seu impecável equipamento, nas suas luvas que faziam supor outros voos. Do jogo não recordaria mais do que, a satisfação plena do seu desejo de bola, de correr atrás dela, de lutar por ela como merece qualquer paixão. Anos passariam até reconhecer na televisão, até ver na odiada baliza do Porto aquele mesmo miúdo que defrontara anos antes. Incrédulo correu a confirmá-lo junto dos amigos. Que sim que era ele, o Vitor Baía. E garantiram-lhe alguns deles que lhe havia inclusive marcado um golo. Sorriu, como sorriu quando um acaso lhe deu a oportunidade de ver as suas luvas assinadas por ele, pelo Baía. Não resistiu em fazer-lhes chegar as suas luvas usadas e sorriu novamente quando as recebeu, ambas assinadas por ele. Voltará a usá-las sempre que a solenidade do jogo mereça fato de gala. E voltará a usá-las juntamente com a sua camisola do Benfica sem que daí resulte qualquer acto de hipocrisia ou sacrilégio. O que o move, o que sempre moveu, é o prazer imenso que o futebol lhe dá, que o faz saltar da cama aos domingos de manhã para ir defender uma baliza num armazém lá para os lados da Ponte da Pedra. Isso é paixão. O que o liga ao Benfica é amor. E isso, perdoem-me, está a salvo de qualquer discussão.

Anúncios

de Matosinhos

Chegou a Matosinhos corria o ano de 1984. Chegou, ainda em Matosinhos se faziam conservas, ainda em Matosinhos se pescava, ainda o ar se tornava pestilento em dias certos, assim mandava a fábrica da tripa. Para chegar à praia rumava-se então a oeste, atravessando indústrias e velhos armazéns, que enchiam os quarteirões entre a velha escola industrial e a marginal. De frente para o mar a imponente fábrica dos fermentos holandeses, tornando adocicado o ar, fazendo esquecer a maresia.
Hoje, desse Matosinhos, resta o mar. A marginal, ampla e luminosa, é agora ladeada por prédios altos que, sobrepondo-se amontoados, ora parecem luxuosos, beijados pela maresia, ora lhe voltam costas, olhando deprimidos para os quarteirões abandonados entre a era industrial e a deriva imobiliária que se lhe seguiu. Das fábricas nem sinal. Das conservas nem lembrança. Resta o grande Atlântico. E o sol. E basta.

Matosinhos (II)

Corria então o ano de 84, ano de Jogos Olípicos de Los Angeles. Os últimos da Guerra Fria e dos grandes boicotes, os jogos do épico Ouro de Carlos Lopes, da Prata de Rosa Mota. Ano do Europeu em que, brilhando Chalana venceu Platini, nessa véspera de São João em que já todo o Caramulo se preparava para a sardinhada dessa noite. Findo esse ano estranho, depois desse longo Verão a vida recomeçaria longe de Tondela, em Matosinhos. Vida nova, amigos novos. A mudança, essa começara a delinear-se anos antes, no momento em que recebera de sua mãe um presente inesperado. Um conjunto didático de electricidade, com pequenas lâmpadas, interruptores e até uma campainha, fios de cobre e uma bateria, de 4,5V, com patilhas, uma longa e outra curta, distinguindo assim a sua polaridade. Possibilidades infinitas se abriam com aquela parafernália, ligações improváveis, resultados surpreendentes. E depois os telefones que, avariados e condenados à sucata, lhe eram oferecidos  pelo Sr Firmino, guarda-fios e seu vizinho, para serem sucessivamente esventrados e transformados em peças estranhas para as quais havia sempre uma função, uma utilidade. Ou os arrancadores de lâmpadas fluorescentes gastos, que com a sua misteriosa lâmina bi-metálica conferiam magia a qualquer montagem. Mais tarde os pequenos electrodomésticos que, após muitos anos de trabalho fiel, lá acabavam por avariar, contribuindo com novos componentes, que logo se veriam trespassadas por uma corrente de electrões vindas das inesgotáveis baterias de 4,5V. Trespassado também, decidiu então o que era óbvio, que era aquilo que queria estudar. Nem que fosse necessário sair do Caramulo, virar costas a Tondela. Assim foi, deixando para trás definitivamente esse ano tão estranho.

de regresso


Eis-me de volta ao futebol que realmente interessa, ao futebol em que ninguém se encolhe, mas em que ninguém magoa ninguém, ao futebol matreiro, sim, mas em que a metreirice é sempre acompanhada por um sorriso, ao futebol onde a única luz que se apaga é a do Sol, ao pôr-se lá em baixo, na Praia de Matosinhos, onde, se alguém termina molhado é do suor do esforço que jamais se mede, jamais se poupa. Eis-me de volta ao futebol, ao futebol que vale realmente a pena…

o regresso


As notícias chegaram num SMS, breve e telegráfico, esperado como de uma convocatória para o Mundial se tratasse. E, apesar de curto, esse texto encerra em si vários regressos. Graças a ele, depois de um interregno de 3 meses voltarei a jogar futebol, e voltarei a fazê-lo no velho campo onde, há 25 anos atrás, tantas vezes joguei com o Fafiães, o Sérgio, o Eduardo, o Leonel, o Jorge, o Ricardo, o João Pedro ou a Mariana, onde me cruzei com o Victor Baía, onde, aproveitando a distância de cento-e-tal km a que ficou o meu passado de guarda-redes, deixei as luvas e a baliza para trás. Voltarei, então, à velhinha “Industrial” de Matosinhos, onde passei três anos magníficos, onde me deliciei com as aulas de matemática do Prof. Reis, onde, por insistência da Prof. Regina, fiz a minha primeira exposição de fotografia, onde conheci os meus melhores amigos, os que me vão acompanhando até hoje, onde me apaixonei, uma e outra vez, de onde parti para Coimbra, e que sempre olhei com saudade.

Por tudo isso anseio pelo regresso. A escola que me espera, bem sei, não é a mesma, renovada e entretanto re-baptizada com o nome do descobridor da Madeira. O campo não será o mesmo, os jogadores não serão os mesmos, como eu não sou o mesmo. O prazer de jogar futebol, tenho a certeza, manter-se-á intacto, e é a esse, sobretudo, que regressarei amanhã…

hamburger com queijo e cebola…

Conheci recentemente o “melhor bolo de chocolate do mundo“.
Bom, mas pretensioso, o nome.
Há dias ao fazer o “sightseeing” do Porto descobri que o afloramento rochoso da Foz do Douro é “um dos mais antigos do mundo. Que em Matosinhos-Sul existiu outrora “uma grande quantidade de fábricas de conserva de fama mundial”.
E que a zona da lota de Leixões possui “a da maior concentração de restaurantes de peixe de Portugal, e uma das maiores da Europa”, claro.
Antes disso já tínhamos Miranda do Corvo, “capital mundial da chanfana“, a que Vila Nova de Poiares respondeu com o delicioso epíteto de “capital universal da chanfana”. Diz-se que em Marte há quem não tenha gostado do atrevimento…
Chateia-me esta necessidade de afirmação absoluta. De comparação desmesurada.
Em aspectos que serão dificilmente verificáveis e aferidos.
O Benfica, claro, é o maior clube do mundo. Mas esse é um facto objectivo e indesmentível.
Tudo o resto, com excepção do bolo de chocolate, golpe de martketing brilhante, cheira-me a pequenez.
Auto-estima debilitada, desorientada, à procura de caminhos novos.
E não é por aí, suspeito.
Não me alongo mais, por hoje.
O sol põe-se já sobre o Grande Atlântico.
E sobre a mesa do Foz Bar aguarda-me o melhor hamburger com queijo e cebola do mundo…