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O meu, o nosso Benfica…

28042011493O Benfica de Eusébio é o meu Benfica. É, aliás, o Benfica de todos nós, benfiquistas ou não. É o Benfica que nunca desiste, que nunca se dá por derrotado, que sobretudo nunca se dá por perdido.
O meu, o nosso Benfica é o que não esqueceu Mantorras na infeliz hora da despedida. Não o que lhe fez uma despedida vazia, não o que foi incapaz de lhe dar um minuto sequer, no ano do 32° título de campeão.
O meu, o nosso Benfica é o que trata todos os jogadores como seus, por nascimento, criação ou adopção. Não o que os  abandona na Roda de outrora, hoje sob forma de empréstimos ad eternum.
O meu, o nosso Benfica é o que venera Deuses e mitos, em campo, nas bancadas, na memória, no coração. Não é que se apressa em prometer efígies em camisolas e anos de luto. Ou nomes em estádios, pavilhões ou centros de estágio.
Não é o meu Benfica, não é certamente o de Eusébio. E se, mesmo que por breves dias, nos esquecemos disso, não lhe fazemos honra. A Eusébio ou ao seu Benfica. Ao nosso.


O vento

O vento sopra, finalmente. O vento sopra nas Geraes trazendo com ele a insuportável saudade do meu Benfica. A vontade de estar lá, agora, como se Alvalade fosse ali, do outro lado da Serra do Curral, como se 7.500km se esfumassem sob o peso do desejo, como se a distância dos últimos meses sucumbisse perante a imagem das camisolas berrantes. O vento sopra, finalmente, mas o vento que cala a desgraça, o vento que nada me diz, deixa espaço para a ilusão, para a subida de Aimar ao relvado, sim, de Aimar, como se o 10 nunca nos tivesse deixado pela porta pequena. Ou, pelo canto do olho, traz a imagem de Pedro Mantorras, no banco, assegurando que, se algo correr mal, ele estará lá, qual anjo vingador pronto a devolver às bancadas verdes a incerteza da sua mortalidade. Sim, do vento não constam os pequenos desmandos ou as grandes mentiras, neste vento não cabe Jesus dos últimos dias. O Jesus que com ele voa não se ajoelha jamais, o Jesus que vejo é o que transforma, com toque de Midas, inconstantes extremos em laterais de luxo, aquele que reabilita argentinos proscritos transformando-os em insubstituíveis 8’s. É o Jesus que nos devolveu o mais belo futebol de uma vida, não o que o desbaratou em dias tristes.
Olho para o papel e percebo que afinal a distância existe. Um oceano separa o sonho da realidade. Mas, que diabo, ainda temos Cardozo. E Tacuara pode não voar com o vento, mas, como sabemos, não perdoa nunca. Nem esquece. Que seja ele a salvar-nos. E a enterrar a distância que nos separa, que teima em interpôr-se entre nós e a nossa equipa, essa distância que dura há muito tempo. Há demasiado tempo.

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Penalty

Há algo de decepcionante neste Benfica. Mais do que a forma como se perderam os títulos do ano passado, mais do que outro ano de jejum, há algo neste Benfica que me entristece. Não falo apenas deste Benfica de pré-época, deste Benfica de um Jesus aos tropeções na via crucis, falo do Benfica de Vieira, de Rui Costa, deste Benfica que se tornou uma empresa, mais do que um clube. Que se rendeu à “economia” e aos “mercados”, como aliás todo o país, toda a Europa, e que, ao fazê-lo, vendeu a mística, traíu o humanismo a que qualquer desporto deve se deve subordinar. Falo da saída de Aimar, por exemplo, sem honra nem glória, sem um abraço de despedida que devemos a um amigo, falo da saída de Nuno Gomes como falo do último ano de Pedro Mantorras, sem jogar sequer o minuto que o tornaria campeão nacional. Todas elas, todas estas despedidas, foram transformadas em meros actos de gestão, desprovidas de emoção, despidas de paixão. Corrói-me, esta indiferença, corrói-me mas suporto-o eu, como já suportei a inqualificável purga de Artur Jorge, ou a dispensa de JVP por Heynckes, suporto-o resignado e com mágoa. Mas a resignação desaparece quando vejo a paixão esvair-se dos olhos da Luisa. Crime de lesa-paixão não se perdoa em caso algum, e a forma como a novela Cardozo foi conduzida perfigura ilícito dessa gravidade. Porque por muito errado que Tacuara pudesse estar, o seu passado, o seu presente de águia ao peito aconselhava outra celeridade, outra clareza. Prolongar a indefinição, promover a exclusão não é coisa de gente avisada, e mais não faz do que afastar os adeptos dos estádios, dos campos onde vibram as papoilas. Ou da BenficaTV, palco para um inacreditável e pouco convincente mea culpa que, apesar de tudo, foi um passo em frente no impasse. Um passo digno de um 9 que, sentido ou não, fez a Luisa sorrir de vermelho outra vez. Cardozo pode não ter marcado um golo. Mas arrancou um penalty que urge transformar em golo. E é por este, como pelos outros cento-e-tal, que lhe estou grato.
9 de Agosto de 2013