Domingo à tarde, lá para os lados do Jamor…

Sofia,

Obrigado pela tua resposta, consolo certeiro para este Benfiquista em fim-de-festa. Sim, é verdade, jogámos o melhor futebol que vi este ano, e nunca o termo Beautiful Game me pareceu tão apropriado, nunca tão merecido. Jogámos futebol com estilo próprio, frenético e desenfreado, de ataque, futebol universal e vistoso, reconhecível, mas sobretudo repetível. Repetiu-se ontem, em Wembley, quando a Luísa reconheceu a geometria dos passes vermelhos de Enzo, as recuperações de Matic, a variação de flanco passando por Garay e Luisão, seguindo para Maxi lançar Sálvio… Sim, aquele é o nosso futebol, foi com ele que o Bayern ganhou, foi nele que Robben se inspirou para matar o jogo de ontem. E foi essa a nossa vitória, ter jogado o nosso futebol e tê-lo jogado até ao fim, e continuá-lo a jogar hoje, dia de festa no vale do Jamor, com pique-niques, churrasco e porco no espeto, com fotos de família, bigodes e abraços. E golos, mais logo, golos de bandeira, passes de letra, toques de calcanhar. Recuperações in extremis, lançamentos longos, cavalgadas frenéticas e esforços inglórios. É tudo isso, a festa de hoje. Façamo-la, façamo-la como só nós sabemos, debaixo do sol Lisboeta, com o Tejo ao fundo. E só depois as férias.

Pedro

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Um cheirinho de alecrim

Sofia,

Apesar da distância não te será difícil imaginar o que sinto hoje. Conheces-me, conheces o meu nervoso miudinho, a ansiedade mal contida, a vertigem de estar a um passo do abismo. Ou a dois da glória. Sabes bem destes sábados lentos que nem dia são, que se arrastam até à noite cair, até ao apito inicial que anunciará finalmente o início da jornada, o início de todo um dia concentrado em 90 minutos, de toda uma época jogada num tempo demasiado curto. O coração, esse bate desordenadamente até à hora em que Luisão pisar o relvado com a história a seus ombros, carregando a responsabilidade de levar os rapazes à glória que o seu futebol merece. E merece-o, esse futebol que encanta, que fez desta uma das mais belas épocas da minha memória. Mais logo o saberás, quando receberes um cheirinho de alecrim, anunciando que o nosso futebol venceu, que o futebol venceu, que há festa na Boavista, no Marquês e por todo o lado. O meu silêncio, ao invés será sinal de um calvário que se arrastará até ao próximo fim-de-semana. Sabê-lo-às logo, ao receber um abraço que únicamente os que amam futebol conhecem. De alegria explosiva ou de consolo misericordioso. Mas demorado em qualquer caso. E Benfiquista, sempre…

Pedro

Catalunya

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(bife na frigideira com ovo a cavalo, Cervejaria Edmundo, Benfica, Lisboa)

Prometia ser Catalão, este final de 2012. Anunciava-se então a alvorada de um novo estado Europeu, esperava-se que a imparável vaga de fundo independentista reduzisse a escombros a unidade Española, via-se já Artur Mas, messiânico, clamando o irreversível caminho para a independência da Catalunya. Semanas depois e o ano voltaria a prometer uma inequívoca afirmação da superioridade Catalã, desta feita em Camp Nou, desta vez com os Culés entusiasmados com o tiki-taka a celebrarem a goleada ao Benfica. Com ou sem Messi esperava-se o massacre dos Portugueses que, quais bárbaros desvairados, correriam desesperados atrás da bola, propriedade exclusiva da equipa blaugrana.
Não foi assim e Artur Mas conseguiu uma vitória de Pirro, adiando a questão da independência para as calendas gregas, Não foi assim e o Barcelona seguraria um sofrido nulo frente a um Benfica apenas sofrível, adiando a afirmação do tiki-taka como sistema independente do onze em campo. Não é, não foi, senão a espaços e de forma absolutamente inofensiva. A confirmá-lo está a única defesa de Artur, a confirmá-lo estão os recorrentes falhanços de Lima, Rodrigo e Ola John, a noite tranquila de Melgarejo, a aventura de Luisão a ponta-de-lança. Assim se encaminha o ano para o fim. Com a Canaluña em España, como deve ser. Com o Benfica na Liga Europa, que é no fundo onde pode ter sucesso.

nós somos futebol

(Enzo Pérez em Barcelos, by Luisa)

Há algo de entusiasmante neste Benfica. Algo de imprudente e ousado, urgente e desvairado. Algo que me faz lembrar o Benfica de 2009/2010, o primeiro de Jorge Jesus, o que será lembrado como o do renascimento. Dessa época lembro-me da vertigem, do tudo ou nada. Era a Liga ou a ruína, a glória ou o abismo. No campo brilhavam Aimar e Di Maria, Luisão e David Luiz. Cardozo marcava, com Saviola a seu lado. E brilhava Jesus, brilhava a dinâmica frenética, o ataque desenfreado, como se não houvesse amanhã. E talvez não houvesse, talvez fosse precisamente isso que estava em jogo. Houve, felizmente, e o escudo da Liga haveria de embelezar as camisolas berrantes no ano seguinte.

Duas ligas entretanto perdidas para o Porto, a última das quais de forma impensável, haveriam de fazer regressar tensão suficiente para que ganhar se tornasse essencial, bastante para por em causa a cabeça de Jesus. E de súbito a saída de Javi, e o adeus de Wit$el, de súbito nuvens negras sobre o centro do campo, de súbito o dramatismo de volta. A incerteza, o abismo ou a glória. E mais uma vez, entre eles, terreno fértil para a paixão. Para o futebol desregradamente ansioso. Para os riscos desnecessários de Melgarejo na esquerda, para  Ola John tão imparável como imprevisível, para um Sálvio bipolar na direita. Pelo meio o empurrão de Luisão que haveria de sobressaltar mais a nós, Benfiquistas, do que ao ridículo Fischer. Mas eis que tivémos Jardel então, oscilando entre o auto-golo de Moscovo e segurança tranquila  com que se passeou no resto do tempo. Eis que Lima surgiu, rapidamente justificando a passagem de incompreensível negócio a dor-de-cabeça para Rodrigo. Eis que da cartola Jesus tirou Enzo Pérez, passado de renegado a estrela improvável. Eis que o jogo volta a ser mais frenético do que consistente, mais histérico do que prudente. Como deve ser. Dissabores? Por certo que os teremos, provavelmente já em Camp Nou. Ou em Alvalade. Mas no fim, no fim vencerá o ataque desenfreado, o sentido único, os golos de bandeira. Vencerá o futebol, como deve ser. Vencerão as papoilas saltitantes.

o convite

Já o nervosismo se havia instalado quando recebi o convite. Faltavam 24h para o clássico, para o jogo pelo qual se espera todo o ano, para o jogo que faz baixar nas ruas da invicta aquele nevoeiro tenso e opressor. Esbarrou numa promessa, esse convite, esbarrou na vontade de dividir as emoções com a Luisa. Tristezas ou alegrias. De lhe explicar a imortalidade contida no passe de Aimar, na segurança de Luisão, no pé esquerdo de Cardozo. De vibrar com a genialidade intermitente de Gaitán, de aceitar finalmente que talvez seja este o seu momento, talvez seja este o ano que lembraremos para sempre como aquele em que o nº20 lhe caiu bem. Depois de Simão, depois de Di Maria. O ano em que Nicolás deixará finalmente de ser uma promessa, qual célula estaminal, para assumir uma qualquer função que desempenhará com garbo durante longos anos. Que comece amanhã, no Estádio do Dragão. Que me faça orgulhoso do convite recusado. Que faça tremer o café do Sr Coutinho, que levante finalmente o nevoeiro que agora baixa sobre o Porto. Que mereça a admiração da Luisa.

a dois

Começou bem, a semana, com o melhor Benfica de que me lembro, reduzindo, numa primeira parte asfixiante, o Guimarães de Machado a uma insignificância. Com Sidnei remeter o resto da memória de David Luiz para Londres, com Aimar a justificar o porquê de ser um dos meus “10” favoritos, com Martins a colocar aquela bola dentro da baliza de Nilson, fazendo Rui Patrício tremer. Tudo isto em dia de aniversário de Luisão, brindado com um jogo de sonho, saudado pelos 55000 presentes na Luz. Mas, contra o que seria de esperar, não foi esse o ponto alto da semana futebolística, esse veio três dias depois com o Arsenal-Barcelona. Não o jogo, em si, mas pelo prazer de vê-lo a dois, com a Luisa. Há jogos assim, que não são de ver a sós, porque Villa não é de se odiar sozinho, porque o golo de Van Persie merecia mais do que uma garganta, porque a certeza de que Arshavin daria a volta é de ser partilhada. Futebol é jogo de equipa. Vê-lo também deve ser.  Amornou a semana, com a chegada do Estugarda à Luz, mas na verdade, entre o jogo de Domingo e o da próxima segunda-feira, não esperava muito melhor. Mas o ponto triste chegou hoje, com o esperado mas sempre adiado fim da linha para Mantorras. Pedro Mantorras a quem o azar roubou uma grande carreira, mas a quem a fatalidade não beliscou a aura de mito que goza até hoje na Luz. Pedro Mantorras tem a minha admiração eterna. Devo-lhe isso, devemos todos os Benfiquistas. Ofereçamos-lhe, pois, uma vitória sobre o Sporting, na próxima segunda-feira. Mas dediquemos-lhe uma grande exibição. Eu cá estarei para me deleitar com esse jogo, para odiar Maniche e para venerar Saviola. Eu e a Luisa.

dia D

OK, é confortável ganhar campeonatos com 15 pontos. A 4 ou 5 jogos do fim.
Mas onde fica a vertigem?
Onde fica aquela emoção de estar entre o abismo e glória?
Aquele nervoso miudinho. Aquela cerveja que definitivamente não passa pela garganta apertada.
Aquele pavor de ouvir “Braaaaagaaaa” a seguir a um qualquer golo anunciado…
Futebol não é para ser vivido calmamente.
Futebol é excesso. De paixão, sobretudo.
Não me peçam para ser sensato, durante aquelas duas horas.
Não me peçam para ver o óbvio. Para reconhecer que o árbitro tem razão.
Não me peçam para estar calmo, hoje.
Não! Hoje é o dia.
É dia de futebol!
(Quis o destino que o dia D coincidisse com o Dia das Mães, no Brasil. Espero que haja mães particularmente felizes, mais logo à noite. Em Amparo e Diadema e Barra do Piraí…)

Luisão

Todos nós temos jogadores favoritos, jogadores do coração, as nossas paixões. E, não raras vezes, a adoração de que padecemos parece-nos desmesurada, desproporcionada em relação ao real valor do objecto do afecto, porque desconhecidas são as razões do coração. É assim com Luisão. É assim desde que chegou ao Benfica, vindo do odiado Cruzeiro de Belo Horizonte. E foram essas estranhas razões que me fizeram defendê-lo quando todos o criticaram, que me levaram a desculpá-lo quando falhou. Desculpei-o até quando se desentendeu em campo com Katsouranis, outro dos meus favoritos. Mas quando brilhou senti-me recompensado, orgulhoso quando se revelou imperial no centro da defesa encarnada, deleitado sempre que conseguiu um qualquer desarme impossível, em êxtase quando, usando a sua estatura e o sentido de oportunidade, marcou golos decisivos. Foi assim quando saltou autoritário sobre Ricardo, despertando a ira dos Sportinguistas, mas garantindo o último campeonato do Benfica. Foi assim quando, na pequena área desfeiteou Reina, abrindo as portas para Simão e Micolli brilharem,  nessa noite histórica em Anfield Road. E foi assim na Luz, quando deixou Eduardo preso ao chão e Domingos à beira de um ataque de nervos, decidindo, talvez, este campeonato a favor do Benfica. Longe vão os tempos em que poucos o queriam na Luz, porque hoje, se não é o central mais brilhante do plantel, é talvez o mais adorado. São certamente desconhecidas as razões do coração. Mas hoje parecem-me claras e justas.