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A voz do dono

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E pronto, o Porto perde e, acto contínuo, regressam os ataques às arbitragem vergonhosas e desonestas. Limpinho, limpinho. E déjà vu. O que é diferente, neste caso, são os dias que separaram os factos da reacção. E se do velho Dono já se espera lentidão nos processos, o dócil cachorrinho esperou dias infindos para reagir. Para, embevecido com os elogios da esposa, urdir contra cabalas misteriosas que visam derrotar fora do campo uma equipa que, já o disse bastas vezes, roça a perfeição. Sem perceber que a derrota da Luz é dele. Só dele e das suas opções. Contra um Benfica que, longe de brilhante, não foi sequer empolgante. Que ganhou porque jogou o seu jogo, não o do Outro. Que escolheu os 11, os seus 11, pondo de lado cautelas e caldos de galinha. Que teve no banco um Jesus sem Paulo Fonseca, como nunca conseguiu ter um Jesus sem Vitor Pereira. E a escolha de Oblak, quando todos esperavam Artur, é talvez o melhor exemplo. Enquanto isso, do outro lado subia Helton, em vez de Fabiano. E, se não foi pelo Esloveno que o Benfica ganhou, pode perfeitamente ter sido por Fabiano. Pela ausência dele. Ou, em última análise, por Paulo Fonseca. Pela ausência dele. Pela ausência de alma, vendida nas últimas jornadas da época passada, vendida por trinta dinheiros, ou por um prato de lentilhas.
Já era pois, tempo de Paulo Fonseca travar as suas guerras. Não esperar que a mão do dono lhas indique.


o fim

Sofia,

Duas noites, deixei que se passassem duas noites antes antes de escrever sobre Domingo. E, ainda que me tenha talvez suavizado os termos, a almofada não mudou o conteúdo do que se impõe dizer. Cheirou a fim-de-ciclo, aquele final de tarde, ponto de não retorno, sítio ao qual não se volta. Não falo da derrota, que esse foi o menor dos problemas. Falo do jogo lento e previsível, sem garra nem vontade, sem aquela avalanche de futebol que só o Benfica sabe. Ou sabia. Falo da postura passiva, da falta de ombridade com que se recebeu a derrota, da multidão a abandonar o estádio antes do fim do jogo. Não foi Benfica, aquilo, não o foi e nesta hora há que pensar porquê. E se não o foi, o dedo a apontar terá que ser a Jesus. Como o fez Cardozo, não sei se viste, fê-lo quando e onde não devia, mas mais não fez do que exteriorizar o que 6 milhões de Benfiquistas sentiam naquele preciso momento. A época estava perdida, mas não me conformo com a perda de atitude, de Benfiquismo, diria. Por isso te digo que Jesus deve sair, Por muito que me custe, e custa de facto. Sabes bem que sempre fui um defensor da continuidade, que sempre fui um defensor de Jesus. Fui-o até Domingo, precisamente. Terminou. Jesus desbaratou em minutos o que construiu, e bem, durante 4 anos. Se é injusto? Profundamente, Sofia, aterradoramente injusto. Jesus foi provavelmente o treinador que mais fez pelo Benfica nos últimos anos, que resgatou a mística e a relação com o público, que impôs um modelo de jogo próprio e reconhecível, que deu uma sucessão de passos importantes no caminho certo. Mas o que aconteceu no Jamor foi mau demais, foram muitos passos atrás, um regresso a um passado que já julgava enterrado. Por isso deve sair. Se vai para o Porto? Sim, estou certo disso, mas, ao contrário de outros, o Benfica não pode condicionar as suas decisões pelo que os rivais fazem ou podem fazer, somos Benfica e somos maiores do que tudo isso. Por isso deixo aqui um Adeus sentido e um Obrigado sincero. Até sempre Jesus.

Pedro


em Braga

a pedreiraEncontramos o Braga, hoje. Encontramos o Braga, adversário que mais vezes me levou ao Estádio, o Braga que marcou de forma indelével a minha relação com o futebol, com o Benfica. Não pelos jogos em si, mas pelas ocasiões, pelas noites passadas, pelas vitórias sofridas, pelos golos saborosos. Foi o Braga, então treinado por Jesus, que me levou pela primeira vez à “Pedreira”, essa obra de arte feita estádio por  Souto Moura. Foi esse Braga que caiu aos pés de Urretavizcaya, com Quique Flores no banco, já de saída. Foi o Braga também que, jogando em plena Luz, havia de marcar a primeira vez da Luísa que, em êxtase, veria desfilar à sua frente Coentrão, David Luiz e Aimar. Que, ainda confusa, havia de saltar para comemorar, com um abraço, o seu primeiro pelo primeiro golo, o que Carlos Martins fez para ela. Como havia de ser o Braga a trazer a Sofia de Edimburgh até à Luz para comemorar, os dois golos de Cardozo e o de Jardel. Sim, só contaram dois, o primeiro de Tacuara foi anulado por fora-de-jogo, mas o árbitro não foi suficientemente rápido no apito para impedir o salto e o abraço com que se devem comemorar todos os golos. Uma semana mais tarde seria a desilusão, com o Glorioso a cair em Braga. Mas aí estava eu em longe, em Liège,  debruçado sobre um Samsung Galaxy a sofrer com a final falhada. Mais tarde na noite, havia de afogar as mágoas na Maison du Peket. Encontramos o Braga, hoje. Na pedreira, com Peseiro no banco, um Braga que estará mais perto do que vi com Jesus no banco, do que do de Domingos, que me estragou a noite de Liège. Assim espero, e a ser assim, será esta noite mais uma na cavalgada para o Marquês, em Maio.


nós somos futebol

(Enzo Pérez em Barcelos, by Luisa)

Há algo de entusiasmante neste Benfica. Algo de imprudente e ousado, urgente e desvairado. Algo que me faz lembrar o Benfica de 2009/2010, o primeiro de Jorge Jesus, o que será lembrado como o do renascimento. Dessa época lembro-me da vertigem, do tudo ou nada. Era a Liga ou a ruína, a glória ou o abismo. No campo brilhavam Aimar e Di Maria, Luisão e David Luiz. Cardozo marcava, com Saviola a seu lado. E brilhava Jesus, brilhava a dinâmica frenética, o ataque desenfreado, como se não houvesse amanhã. E talvez não houvesse, talvez fosse precisamente isso que estava em jogo. Houve, felizmente, e o escudo da Liga haveria de embelezar as camisolas berrantes no ano seguinte.

Duas ligas entretanto perdidas para o Porto, a última das quais de forma impensável, haveriam de fazer regressar tensão suficiente para que ganhar se tornasse essencial, bastante para por em causa a cabeça de Jesus. E de súbito a saída de Javi, e o adeus de Wit$el, de súbito nuvens negras sobre o centro do campo, de súbito o dramatismo de volta. A incerteza, o abismo ou a glória. E mais uma vez, entre eles, terreno fértil para a paixão. Para o futebol desregradamente ansioso. Para os riscos desnecessários de Melgarejo na esquerda, para  Ola John tão imparável como imprevisível, para um Sálvio bipolar na direita. Pelo meio o empurrão de Luisão que haveria de sobressaltar mais a nós, Benfiquistas, do que ao ridículo Fischer. Mas eis que tivémos Jardel então, oscilando entre o auto-golo de Moscovo e segurança tranquila  com que se passeou no resto do tempo. Eis que Lima surgiu, rapidamente justificando a passagem de incompreensível negócio a dor-de-cabeça para Rodrigo. Eis que da cartola Jesus tirou Enzo Pérez, passado de renegado a estrela improvável. Eis que o jogo volta a ser mais frenético do que consistente, mais histérico do que prudente. Como deve ser. Dissabores? Por certo que os teremos, provavelmente já em Camp Nou. Ou em Alvalade. Mas no fim, no fim vencerá o ataque desenfreado, o sentido único, os golos de bandeira. Vencerá o futebol, como deve ser. Vencerão as papoilas saltitantes.