Vitor

Vitor Andrade ajustava a bola na marca dos 11 metros. Era o último lance do jogo e o Salgueiros perdia por 2-1 na Póvoa de Varzim. Sobre a linha da baliza estava um jogador de campo, substituindo o guarda-redes expulso segundos antes. “Eu vou pegar”, ameaçava. “Olha p’ra mim que eu vou pegar”, gritava histérico. Vitor avança para a bola, o jogador do Varzim adivinha o lado e defende. Pegou. O árbitro apita, apontando para o fim do jogo. Enquanto os jogadores do Varzim corriam a festejar a vitória épica, os do Salgueiros abraçavam Vitor, cabisbaixo e ainda incrédulo com o desfecho da jogada. Vitor, posso apostar, queria desaparecer, fugir para o balneário, sair do Estádio, esfumar-se. E no entanto era por ele que as bancadas chamavam, era o seu nome que a claque cantava. Porque a angústia antes do penalty, ao contrário do título do livro, é do avançado e do avançado apenas. Ao guarda-redes está reservada uma oportunidade de glória, das maiores. Ao avançado restam duas opções: a obrigação ou o fracasso. Daí a angústia, daí os cânticos de ânimo. Vitor é um dos nossos. E os nossos não se abandonam.

22

Quando, em Agosto, propus ao Salgueiros a realização de um projecto fotográfico sobre a época da equipa sénior de futebol, estava longe de imaginar que agora, dois meses volvidos sobre essa conversa inicial em Paranhos, estaria ansioso pelo o próximo jogo do Salgueiros. Assisti, entretanto, aos sete jogos oficiais do Salgueiros, a mais dois de preparação, à apresentação da equipa na Arca d’Água e a um treino da equipa sénior. Conheci a Alma Salgueirista e o seu fiel tambor, aprendi o nome dos jogadores, do Capitão Moreira ao Vilaça, do Konan ao Isac, do Ibeh ao Vitor Andrade. Fiz companheiros de bancada, com quem partilhei alegrias e frustrações, vitórias e apreensões.

Hoje, à oitava jornada, o Salgueiros joga finalmente em casa, depois de cumprido o castigo de três jogos imposto pela AF do Porto. E, quis o destino, que o regresso a Campanhã, se fizesse com um jogo grande, primeiro contra o segundo classificado. As bancadas, adivinho, estarão cheias, cheias de Alma. Será um pouco de Vidal Pinheiro renascido, um vislumbre da glória de outrora, uma janela entreaberta para tempos futuros. O rufo do tambor, a bandeira ao vento de Beatriz, o entusiasmo de Deolinda. A Alma Salgueirista.

Neste dia, há 22 anos atrás, nascia Luísa, minha filha e companheira nessa paixão pelo futebol. Hoje o dia é dela, e dela apenas.Será por ela, pelo seu aniversário, que hoje não estarei em Campanhã. Perderei com isso instantes fotográficos irrepetíveis. Não deixarei, contudo, de torcer pelo Salgueiros, de acompanhar, à distância, o andamento do jogo, de vibrar a cada golo. Longe da vista, mas perto do coração. Ao teu lado desde sempre…

o futebol normal

Perguntava uma amiga no facebook se faltava muito tempo para o regresso do futebol normal. Referia-se à interrupção da Primeira Liga, por ocasião dos jogos da Selecção. Sim, esse é certamente o pensamento usual dos adeptos de futebol. Dos normais, diria. Essa ânsia pelo regresso do futebol profissional, o das transmissões televisivas e dos estádios novos e confortáveis. O futebol das estrelas, das multidões e do dinheiro. Do rios de dinheiro que o alimentam. Futebol-espetáculo, futebol de primeira.

Mas o futebol normal, esse nunca parou. O futebol que realmente importa, continuou a jogar-se na noite de 5 de Outubro, nesse poético Campo de Sonhos, com bancadas frias e irregulares. O futebol que povoa os sonhos de Beatriz, o jogo que a faz agitar com contagiante alegria essa bandeira vermelha e branca ao vento, esse continuou, apesar da Selecção.  

Não, o futebol normal não parou. Esse futebol que, imune à tempestade de Domingo à tarde, arrastou uma multidão de Paranhos até Grijó. Esse futebol que, apesar da chuva tocada a vento, arrancou Deolinda do sofá, que a levou a saltar a cada golo do Salgueiros, que a fez esperar junto ao relvado para abraçar cada um dos seus meninos, aqueles que correram e sofreram debaixo de um dilúvio bíblico. 

Sim, o futebol normal, nunca pára. O outro, o que enche televisões, que faz correr dinheiro e estrelas, esse recomeça em breve.

do balneário

A saída do estádio, naquela tarde de Domingo, fazia-se cabisbaixa. As bancadas esvaziavam-se com ritmo tristonho, o caminho até ao parque de estacionamento assemelhava-se perigosamente a uma via sacra. O jogo, esse até tinha começado bem, com o Salgueiros a dominar a acessível equipa do Nogueirense. O intervalo chegava com uma vantagem de três golos, que deveriam ser suficientes para sossegar a Alma. O pior, como sempre, viria depois, com a proverbial tendência para o sofrimento que só um clube grande conhece. O pior, como sempre, chegava com o já conhecido gosto pelo abismo, característica intrínseca do Salgueiros, como de todos os clubes históricos. O Nogueirense, que continuava tão insípido como antes, via-se agora a chegar aos 2-3. E com ânimo para mais.

O jogo, esse arrastou-se até ao fim, por entre roer-de-unhas, nervoso miudinho, descrença q.b. e a incómoda suspeita de que o caminho, estreito e íngreme, talvez seja empresa demasiado pesada para um Salgueiros que teima em renascer. E, nem a vitória arrancada a ferros, era bastante para animar os Salgueiristas que deixavam o estádio pensativos, perguntando-se se algum dia seriam recompensados pela esperança que teimam em alimentar. Talvez a vitória, escassa e sofrida, não fosse resposta suficiente. A resposta, essa insinuou-se disfarçada num rumor que saía pelas estreitas janelas do balneário, um cantarolar alegre onde era possível reconhecer o ritmo do cântico que mais cedo tinha ecoado na bancada.

Ao teu lado desde sempre…

As palavras, essas chegavam imperceptíveis, abafadas pela humidade do balneário, ritmadas pelo suor das camisolas rubras, pela alegria da vitória.

este é o meu lugar…

E de súbito voltaram sorrisos aos que passavam, e de súbito a via sacra transformou-se em ressurreição. Sim, se os miúdos acreditam, quem somos nós para duvidar? Se os miúdos que sofreram dentro de campo, que ouviram aplausos e assobios em doses iguais, que foram louvados e quase crucificados creem na justeza do sonho, quem somos nós para nos deixar abater? E do nada a certeza, a absoluta certeza de que sim, o caminho é estreito e íngreme. Mas de que se há em Portugal clube capaz de o trilhar, é o Salgueiros, se há em Portugal adeptos incapazes de desistir, são estes, cheios de Alma. Alma Salgueirista.

onde jogares estou presente,

só para te ver ganhar!

O tambor

Ao teu lado desde sempre, Este é o meu lugar… O tambor? É velhinho, sim. Já vem dos tempos de Vidal Pinheiro. Preso à vedação do campo está o velho tambor, cheio de autocolantes e com a pele remendada, sinal de outras batalhas, de demasiadas batalhas. O jogo está calmo agora, é hora de aproveitar a pausa para disfarçar, com mais uma tira de fita adesiva, o som roufenho causado por anos de bons serviços. Há algo de místico na batida de um tambor. Sabêmo-lo, a humanidade sabe-o há milénios. Seja em tempo de guerra ou de paz, em festas pagãs ou religiosas, o tambor é presença imprescindível, qual coração que marca o ritmo, que dá vida. Um estádio de futebol, território de guerra e paz, de crença e de festa, não haveria de ser excepção.Por isso, reparado o tambor e retomada a batida, as bancadas acordam e respondem …Onde jogares eu estou presente… Dentro do campo o jogo acelera. Sim, é essa batida que dá o mote para as bancadas, é esse ritmo que marca o jogo, lá dentro das quatro linhas. É esse tambor que transporta o saudoso Estádio Vidal Pinheiro país fora, é nessa batida que os jogadores procuram o caminho da baliza adversária. A cada toque, a bola avança, a cada rufar os adversários tremem …Só para te ver ganhar… rematam as bancadas. Finalmente o golo, o delírio, a vitória. E mais uma marca no velho tambor dos tempos do Vidal Pinheiro, desse velho tambor onde mora a Alma Salgueirista.

Salgueiros, o Grande

0-2. Ainda vamos perder isto. Tinham-se passado apenas 15 minutos, e o Salgueiros já ganhava por 0-2 em casa do Canidelo. Vamos perder isto, insistia. Tinha ares de quem sabia do que falava, de quem vivera glórias e desventuras do Salgueiros. Todas elas, dos tempos da primeira divisão, até ao quase desaparecimento. Enchemo-nos de esperanças na pré-época, e depois é isto: sofrer, sofrer, sofrer.

1-2. Eu não disse? Estava-se mesmo a ver. Parece que não sabem jogar. Aquele ali jogou no Boavista, chegou aqui e parece que desaprendeu. Aqueloutro veio do Famalicão. A mesma coisa. Sabe como é, esta camisola pesa muito. No Nacional, na Distrital, o nosso Amor é sempre igual, ouvia-se nas bancadas.  

2-2. Encolheu os ombros como se soubesse do golo mesmo antes de acontecer. Encolheu os ombros sem réstia de surpresa pelo empate, certamente meio caminho para a derrota. Mais uma, tão certa como inevitável. Esta camisola pesa muito.  

2-3! Sorri timidamente com o golo da vitória, ao cair do pano. Como se soubesse desde o início que a vitória era apenas uma questão de tempo, de que aquele sofrimento, aquela quase derrota não passava de um teste à sua Alma Salgueirista. É esta camisola, pesa muito…

Há qualquer coisa de clube grande neste Salgueiros. Talvez seja esta bipolaridade, o estranho gosto pelo abismo, pela vertigem. Talvez seja este sofrimento por antecipação, a sensação de que o Universo nunca será justo, a certeza de estar sempre mais perto da derrota do que da glória. E apesar disso saber que a vitória é certa, e que será sempre justa. A tendência para o derrotismo e para a depressão, enquanto secretamente se alimentam as mais altas expectativas. Sou Tripeiro, de Coração, Ó Salgueiros, o meu Campeão, ecoa nas bancadas. Há, afinal, muitas coisas de grande neste Salgueiros. Porque de facto, o Salgueiros é grande, um dos Grandes de Portugal. No Nacional, na Distrital, o nosso Amor é sempre igual

Sexta é às 9, no Canidelo.

Dona Deolinda tem 86 anos. No próximo mês, acrescenta. Mais de metade de Salgueiros, diz. 44. Dona Deolinda sorri, apesar da derrota iminente. Para a próxima vai ser melhor, mas o árbitro não ajudou, hoje. Posso tirar-lhe uma fotografia? Se quiser pode, é consigo. Dona Deolinda tem 86 anos, no próximo mês, 44 de Salgueiros e não é agora, ao fim de tantos anos, que vai desistir. Na próxima sexta à noite é no Canidelo. Joga o Salgueiros e Dona Deolinda vai lá estar. Afinal são 44 anos de Salgueiros. 86 de vida, no próximo mês.

O desânimo paira sobre as bancadas vestidas de vermelho. Reduzido a 10 desde a primeira parte, o Salgueiros vai perdendo por 2-3 com o Foz. Não era a estreia que esperávamos, todos. “Isto é a Distrital, não é para jogar bem, foda-se. Chuto prá frente, e tudo a correr, caralho!”. E no entanto o jogo aproxima-se do fim, com o Salgueiros a perder. Sim, o desânimo ronda insistentemente camisolas vermelhas, cachecóis e bonés, esperando o melhor instante para se instalar na Alma Salgueirista. Sem sucesso, que isto é o Salgueiros, habituado a sofrer. E a resistir. Sim, a Alma Salgueirista não desiste, e se esta não é a estreia que esperávamos, há que levantar a cabeça e olhar em frente. Ainda o jogo não tinha terminado e já se ouvia nas bancadas: É na sexta no Canidelo, às 9 da noite. É às 9, no Canidelo. Sexta-feira. Às 9. Lá nos encontramos, que isto de desistir não é para o Salgueiros.

Fran

Fran é Basco. De Bilbao. Fran é adepto do Athletic e tem como sobrenome Salgueiros.

Francisco Xabier Salgueiros Herrera.

Fran veio ao Porto para conhecer o Salgueiros, o Sport Comércio e Salgueiros. De passagem para a Galiza, disse, onde visitará familiares. Depois de vaguear entre a antiga sede do clube, na Rua Álvares Cabral, o buraco das escavações onde um dia seria o novo Estádio e as ruínas do mítico Vidal Pinheiro, Fran chega finalmente a Campanhã, a nova casa do Salgueiral. E é aí que, entre copos de  cerveja e amena conversa, vê a equipa sénior vencer o Aliança de Gandra. É aí que, entre velhas glórias e jovens adeptos, promove a inesperada amizade entre clubes míticos. Salgueiros e Athletic.

Fran leva belas recordações, fotografias com toda a equipa do Salgueiros e uma bandeira do Athletic assinada por todos os jogadores. 

Fran leva o Salgueiros no coração. No nome já o tinha. 


Rubinho

Na última vez que falei com o Rubinho, prometi-lhe que iríamos à Luz ver o Benfica. Que nos emocionaríamos com o voo da Águia e com a estátua de Eusébio, que talvez parássemos no Alto dos Moínhos, para uma bifana e uma cerveja. Talvez. E que certamente sentiríamos aquele frio na barriga ao finalmente avistar o relvado, ao ouvir o hino.

“Ser Benfiquista é ter na alma a chama imensa…”

Rubinho tinha essa chama imensa. Esse peito aberto com que enfrentou  desventuras várias, com que enfrentava mais uma vez a doença que voltava a fechar o cerco. Rubinho era do Atlético Mineiro, o clube que escolhi como meu, quando a hora de decidir chegou. Escolhi-o por ser o time da massa, o clube popular, sem distinção de classe ou cor. Como o Benfica, no fundo. E talvez tenha sido por isso, por essa semelhança, que o Rubinho caiu de amores pelo Glorioso. Por isso lhe prometi que sim, que iríamos juntos à Luz.

Anos antes foi o Rubinho quem me levou ao Independência, em Belo Horizonte, para ver Ronaldinho Gaúcho jogando com a camiseta do Atlético. Ronaldinho, já na fase descendente da sua carreira, chegara ao Horto meses antes, provocando uma pequena revolução no clube. O Atlético navegava em águas agitadas há largos anos, oscilando entre o meio da tabela do Brasileirão, e a angústia das últimas jornadas. Tinha, inclusivé, militado na Série B recentemente. A chegada do Génio elevou de forma espectacular o nível de exigência e ambição, do que resultou uma campanha épica na Taça dos Libertadores da América, que acabou por conquistar. Foi com ele, com Rubinho que ,nas bancadas do Horto, vi o génio de Ronaldinho, o toque de bola, a finta de corpo, o gingado. E o sorriso, sobretudo esse sorriso que era a sua imagem de marca.

Era justo, pois, que tivesse retribuído o gesto, que lhe tivesse mostrado Jonas, o toque de génio de Jonas, a inteligência, a visão de jogo. O golo. Que tivéssemos trocado um abraço aquando de um qualquer golo de Jonas.

Hoje começa para o Benfica a época 2019/20. Sem Jonas, que resolveu que era chegada a hora de parar. Mas sobretudo sem Rubinho.

perdimos, amigo, perdimos…

luz

“Perdimos, amigo, perdimos”
Disse-o Gaitán, frustrado, depois de um qualquer jogo particular, desta pré-época desastrosa. Podia tê-lo dito ontem, para aplacar a decepção, para controlar a ira. Disse-o e sentiu-o, e ao fazê-lo, confirmou o que o tempo me vinha dizendo. Que Gaitán é um jogador maior, um dos nossos. Lembro-me dessa longínqua silly season, que nos trouxe Gaitán e Jara. Após os primeiros jogos, ou pré-jogos, vá, sentenciei que Jara era jogador, Gaitán seria no máximo um brinca-na-areia. Disse-o, indignando Luísa, minha filha, que se encarregou ao longo destes anos, de me lembrar tamanha gaffe. Fê-lo a cada toque de génio, relembrou-o a cada passe perfeito. “blá-blá-bla, e o Jara é que era, e blá-blá-blá”. Ouvi-o depois do golo em Belém, depois do passe para Cardozo contra o Man’U, ou a selar aquela jogada do golo de Lima a Patrício, naquela que foi talvez a mais bela jogada a que assisti.
“Perdimos, amigo, perdimos”, é o lamento que queria ter ouvido ontem na boca de todos os jogadores, de todos os profissionais, de todos os Benfiquistas. E que fosse sentido, que fosse envergonhado, que fosse visceral. Não aquele baixar a cabeça, e dizer que agora é trabalhar para melhorar, que foi apenas um jogo. Não foi, foi uma derrota, que diabo, e foi uma derrota que expôs uma falta de atitude, falta de empenho e de vontade que me preocupam. Preocupam dentro do campo e preocupam-me fora dele.
Perdemos, amigos, perdemos…