Fran

Fran é Basco. De Bilbao. Fran é adepto do Athletic e tem como sobrenome Salgueiros.

Francisco Xabier Salgueiros Herrera.

Fran veio ao Porto para conhecer o Salgueiros, o Sport Comércio e Salgueiros. De passagem para a Galiza, disse, onde visitará familiares. Depois de vaguear entre a antiga sede do clube, na Rua Álvares Cabral, o buraco das escavações onde um dia seria o novo Estádio e as ruínas do mítico Vidal Pinheiro, Fran chega finalmente a Campanhã, a nova casa do Salgueiral. E é aí que, entre copos de  cerveja e amena conversa, vê a equipa sénior vencer o Aliança de Gandra. É aí que, entre velhas glórias e jovens adeptos, promove a inesperada amizade entre clubes míticos. Salgueiros e Athletic.

Fran leva belas recordações, fotografias com toda a equipa do Salgueiros e uma bandeira do Athletic assinada por todos os jogadores. 

Fran leva o Salgueiros no coração. No nome já o tinha. 


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Rubinho

Na última vez que falei com o Rubinho, prometi-lhe que iríamos à Luz ver o Benfica. Que nos emocionaríamos com o voo da Águia e com a estátua de Eusébio, que talvez parássemos no Alto dos Moínhos, para uma bifana e uma cerveja. Talvez. E que certamente sentiríamos aquele frio na barriga ao finalmente avistar o relvado, ao ouvir o hino.

“Ser Benfiquista é ter na alma a chama imensa…”

Rubinho tinha essa chama imensa. Esse peito aberto com que enfrentou  desventuras várias, com que enfrentava mais uma vez a doença que voltava a fechar o cerco. Rubinho era do Atlético Mineiro, o clube que escolhi como meu, quando a hora de decidir chegou. Escolhi-o por ser o time da massa, o clube popular, sem distinção de classe ou cor. Como o Benfica, no fundo. E talvez tenha sido por isso, por essa semelhança, que o Rubinho caiu de amores pelo Glorioso. Por isso lhe prometi que sim, que iríamos juntos à Luz.

Anos antes foi o Rubinho quem me levou ao Independência, em Belo Horizonte, para ver Ronaldinho Gaúcho jogando com a camiseta do Atlético. Ronaldinho, já na fase descendente da sua carreira, chegara ao Horto meses antes, provocando uma pequena revolução no clube. O Atlético navegava em águas agitadas há largos anos, oscilando entre o meio da tabela do Brasileirão, e a angústia das últimas jornadas. Tinha, inclusivé, militado na Série B recentemente. A chegada do Génio elevou de forma espectacular o nível de exigência e ambição, do que resultou uma campanha épica na Taça dos Libertadores da América, que acabou por conquistar. Foi com ele, com Rubinho que ,nas bancadas do Horto, vi o génio de Ronaldinho, o toque de bola, a finta de corpo, o gingado. E o sorriso, sobretudo esse sorriso que era a sua imagem de marca.

Era justo, pois, que tivesse retribuído o gesto, que lhe tivesse mostrado Jonas, o toque de génio de Jonas, a inteligência, a visão de jogo. O golo. Que tivéssemos trocado um abraço aquando de um qualquer golo de Jonas.

Hoje começa para o Benfica a época 2019/20. Sem Jonas, que resolveu que era chegada a hora de parar. Mas sobretudo sem Rubinho.

perdimos, amigo, perdimos…

luz

“Perdimos, amigo, perdimos”
Disse-o Gaitán, frustrado, depois de um qualquer jogo particular, desta pré-época desastrosa. Podia tê-lo dito ontem, para aplacar a decepção, para controlar a ira. Disse-o e sentiu-o, e ao fazê-lo, confirmou o que o tempo me vinha dizendo. Que Gaitán é um jogador maior, um dos nossos. Lembro-me dessa longínqua silly season, que nos trouxe Gaitán e Jara. Após os primeiros jogos, ou pré-jogos, vá, sentenciei que Jara era jogador, Gaitán seria no máximo um brinca-na-areia. Disse-o, indignando Luísa, minha filha, que se encarregou ao longo destes anos, de me lembrar tamanha gaffe. Fê-lo a cada toque de génio, relembrou-o a cada passe perfeito. “blá-blá-bla, e o Jara é que era, e blá-blá-blá”. Ouvi-o depois do golo em Belém, depois do passe para Cardozo contra o Man’U, ou a selar aquela jogada do golo de Lima a Patrício, naquela que foi talvez a mais bela jogada a que assisti.
“Perdimos, amigo, perdimos”, é o lamento que queria ter ouvido ontem na boca de todos os jogadores, de todos os profissionais, de todos os Benfiquistas. E que fosse sentido, que fosse envergonhado, que fosse visceral. Não aquele baixar a cabeça, e dizer que agora é trabalhar para melhorar, que foi apenas um jogo. Não foi, foi uma derrota, que diabo, e foi uma derrota que expôs uma falta de atitude, falta de empenho e de vontade que me preocupam. Preocupam dentro do campo e preocupam-me fora dele.
Perdemos, amigos, perdemos…

Outubro Vermelho

aimar 01 1280Era Outubro, era um fim-de-semana chuvoso que havia de se interromper para dar à nossa noite, à noite do Benfica, aquele cheiro de relva molhada que antecede os grandes momentos, as inesquecíveis noites. Entrámos na Luz, e nunca o seu nome me pareceu tão poético, tão apropriado para justificar o olhar brilhante de Luísa ao ver lá em baixo o relvado iluminado, ao ouvir aquele burburinho motivado pela excitação do momento, pela proximidade de nos encontrarmos com o objecto último da nossa paixão, por estarmos finalmente em casa. Sim, era a primeira vez da Luísa, era Outubro, e ali, no relvado, a escassos metros aquecia a equipa, David Luiz, Saviola e Gaitán. Luisão, Javi e Coentrão. E Pablo. Era Outubro, e não tardava a ouvir-se, a cantarmos o hino do Glorioso, não tardava e a camisola 10 subiria ao relvado. Pablo Aimar era daqueles jogadores que admirava profundamente, daqueles jogadores que nunca imaginara ver com a camisola berrante. E no entanto ali estava ele, espalhando magia como poucos, jogando como nenhum. E Luísa, incrédula por estar na primeira fila, mal contendo a emoção de cada vez que ali passava David Luiz ou Coentrão, de cada vez que Gaitán subia à linha sem imaginar, sequer, que um dia seria dele aquela camisola 10. Aimar não precisava de se aproximar da linha, a Aimar não se pedia senão que jogasse, a Aimar bastava ser ele próprio, o génio que um dia impressionou Maradona, o virtuoso que inspirou Messi. A Aimar bastava ser Aimar, e vê-lo ali, com a camisola do Benfica era sonho realizado. Fazê-lo com Luísa, sua filha, a seu lado, era mais do que qualquer um poderia pedir.
Era Outono, e foi aquela a primeira vez que vi, que vimos Pablo, e que nos encantámos com ele. Hoje, em pleno cacimbo, soube que não mais sentirei essa excitação infantil de vê-lo com uma bola nos pés. Mas o encanto não cessou. E não cessará nunca, por mais Outonos que passem, por mais invernos que se lhe sigam. Não cessará, simplesmente.

(Para o Capareira, que hoje completa cerca de diversos anos de vida, amigo e companheiro de Benfiquismo, responsável, entre outras coisas, por me fazer vencer hoje a preguiça e dedicar umas palavras ao Pablo Aimar…)

Agostinho

people agostinho 2 1501 xq1 30x20 colourAgostinho é do Panguila. Agostinho é segurança, Agostinho guarda um terreno imenso junto à praia deserta, a sul de Luanda. Há-de ser um resort, certamente, será um resort quando o turismo for finalmente aposta em Angola. E é Agostinho que o guarda, que zela pelos 60 hectares de terreno junto ao grande Atlântico. 24 horas por dia, durante 15 longos dias, durante duas semanas ininterruptas que passará ali, no enorme terreno junto à bela praia deserta. Agostinho aproxima-se, ao chegarmos, para pedir cigarros. Não temos. Dá cem quanza só, eu compro. Agostinho há-de aproximar-se outra vez, timidamente, ao ver a bola sozinha no areal. Enquanto isso, mergulhamos no quente Atlântico na deserta praia de fim de tarde. Agostinho ensaiará toques na bola, com pesadas botas militares, agora cheias de areia. Agostinho aguarda pacientemente um companheiro, alguém a quem passar a bola, alguém com quem trocar toques de habilidade, sem largar o cassetete, mas com um largo sorriso nos lábios. Agostinho, o segurança, há-de sentir-se criança perante a bola nova, perante a possibilidade de brincar com ela, com a bola. Sentir-se-á craque e terá a certeza de que, tivesse estado no relvado do 11 de Novembro, meses antes, e Angola estaria agora no CAN. E todo o país em festa. E talvez reparassem nele. No remate em arco que agora ensaia, e certamente rumaria à Europa. Talvez até para o Benfica. E o Panguila ficaria para trás, tornar-se-ia recordação e saudade, que evocaria a cada golo marcado. Agostinho passará 15 longos dias e 15 escuras noites a dormir ao relento, ao lado da sua AK. A sonhar, talvez. Depois regressará ao Panguila. 

Bernardo

bernardoMais de um ano se passou sobre o dia em que um amigo Benfiquista me pediu que escrevesse umas linhas sobre futebol romântico Que fazia falta na página, que ali cerravam fileiras e clamavam contra o que estava mal no nosso Benfica, e era muito, e que esqueciam um pouco esse romantismo de que o futebol é feito. Acedi, honrado. Nunca me faltou romantismo no que ao Benfica diz respeito, pelo contrário, sempre me sobrou paixão, que partilhei, com amigos, com conhecidos, com a minha filha. Assim, foi, e acabei por escrever palavras sentidas, sobre Eusébio, Coluna ou Cardozo. Depois a vida. E a vida entendeu colocar 7000km entre mim e Luísa, minha filha e companheira de paixão, companheira de futebol, desse que se joga com o coração aberto. E o romantismo deu lugar à saudade. À mágoa, até. E as palavras foram-se tornando escassas. O silêncio foi-se assumindo, pese embora os sucessos desportivos. Saiu Cardozo e calei-me. Saiu Rodrigo e nem palavra me saiu. Garay e Enzo. Silêncio. Agora Bernardo. Mas vender Bernardo não é simplesmente vender Bernardo. Vender Bernardo, agora, é crime lesa-Benfica. Bernardo é aquele rapaz a quem foi permitido cumprir um sonho, a Bernardo não o vemos como um fora-de-série, não como uma estrela, Bernardo é um de nós. Bernardo Silva é nosso conhecido, amigo e até primo distante. Bernardo somos nós e Bernardo é o nosso Benfiquismo personificado. Bernardo é a secreta certeza de que, tivéssemos sido bafejados pela sorte, e poderia ser nossa a fotografia da criança com a camisola do Benfica que cumpriu um sonho. Vendê-lo, vender Bernardo é vender o nosso Benfiquismo. Vendê-lo é matar irremediavelmente uma parte da paixão que nos une ao Benfica. Que é infinita, bem sei, mas que se sente substancialmente diminuída com este rude golpe. Vendê-lo, por quinze, trinta ou duzentos milhões, é tornar o Benfica mais pobre, mais triste, mais cinzento. É tornar-nos, a nós, menos Benfica. É apagar um pouco a chama imensa. Tristes, estes dias. Para nós. E para Bernardo, certamente.

(publicada na página “Ontem vi-te no Estádio da Luz” ontem, dia 21 de Janeiro de 2015)

o derby

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Vezes sem conta o disse, o meu futebol, o meu Benfica é o das pessoas. Dos que, dentro ou fora de quatro linhas, amam o jogo e fazem do Benfica uma família, imperfeita, falível mas eterna e apaixonante.
É de pessoas, pois, que o derby de amanhã se fará. Nomes que surgirão, um atrás do outro nas bancadas, nas roulotes, nomes que trarão saudade imensa e sorrisos aberto. E risos, e lamentos. Nomes que, duma forma ou de outra, vestiram e honraram aquelas camisolas que pesam hoje em outros ombros. Falar-se-á de Mantorras, claro, e de João Pinto. Mas também de Beto e Fernando Aguiar. Caniggia, Paneira e Isaías. Schwarz e Magnusson, Rui Costa e Aimar. Todos com uma imperial numa mão e uma bifana na outra.
Enquanto isso, do outro lado da segunda circular olha-se para o passado buscando razões para um futuro glorioso que teima em não aparecer, um futuro absurdamente maior do que a sua dimensão. Da que realmente têm, não da que efabulam. E nessa grandiosidade delirante cabem apenas bolas de ouro, Figo, Ronaldo e até, pasme-se, Eusébio. Pelo caminho, pelos caminhos do esquecimento vão caindo outros que, não sendo do mesmo quilate, brilharam em Alvalade, que tiveram papel significativo no atribulado percurso do clube. Nomes como Beto Acosta, Peter Schmaichel e até Liedson e Polga mereciam melhor sorte, mereciam a memória dos adeptos. Mereciam fotos no facebook, mereciam conversas de ocasião em dia de jogo.
Há derby, amanhã. E se dum lado estarão em campo Preud’Homme, Coentrão, Ricardo Gomes, Mozer e Veloso, Thern, Valdo, Simão e Poborsky,
Nuno Gomes e Rui Águas, do outro lado somente Figo e Cristiano, serão lembrados. Do outro lado apenas soberba. E uma derrota certa, perante tão desigual contenda.

(Para o Capareira que gostava de ver amanhã, no Estádio da Luz)

O meu, o nosso Benfica…

28042011493O Benfica de Eusébio é o meu Benfica. É, aliás, o Benfica de todos nós, benfiquistas ou não. É o Benfica que nunca desiste, que nunca se dá por derrotado, que sobretudo nunca se dá por perdido.
O meu, o nosso Benfica é o que não esqueceu Mantorras na infeliz hora da despedida. Não o que lhe fez uma despedida vazia, não o que foi incapaz de lhe dar um minuto sequer, no ano do 32° título de campeão.
O meu, o nosso Benfica é o que trata todos os jogadores como seus, por nascimento, criação ou adopção. Não o que os  abandona na Roda de outrora, hoje sob forma de empréstimos ad eternum.
O meu, o nosso Benfica é o que venera Deuses e mitos, em campo, nas bancadas, na memória, no coração. Não é que se apressa em prometer efígies em camisolas e anos de luto. Ou nomes em estádios, pavilhões ou centros de estágio.
Não é o meu Benfica, não é certamente o de Eusébio. E se, mesmo que por breves dias, nos esquecemos disso, não lhe fazemos honra. A Eusébio ou ao seu Benfica. Ao nosso.

Pepsi

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Nada como o abismo para nos levar ao futebol. Foi preciso o dramatismo de mais um play-off para resgatar a nação de Scolari, adormecida pela tranquilidade de Paulo Bento, pela pobreza da campanha de qualificação. E como voltou, a geração das bandeiras chinesas à janela, como voltou essa geração cheia de patriotismo vazio, cheia de falso gosto por futebol, parca em urbanidade e sensatez. Nada como o futebol para nos levar ao abismo. Sim, admito que não se goste do anúncio da pepsi que, diga-se, até tem piada. Mas o levantamento que por aí se viu, redes sociais fora, é deprimente. Deprimente pela intolerância, deprimente pela desproporção, assustador pela inversão de valores. É de futebol que falamos, de um jogo, caramba. De um dos jogadores mais escandalosamente bem pago do mundo e de um anúncio de uma marca de refrigerantes. Não falamos de um boicote a uma marca que, fechando uma fábrica em Portugal, atira centenas para o desemprego. Não nos indignamos pelos lucros das maiores empresas portuguesas taxados na Holanda. Nós, que escolhemos fruta pelo preço, não pela origem geográfica. Não protegemos os nossos, salvo se forem bem sucedidos e andarem de chuteiras nos pés. Não nos indignamos com os desmandos e empobrecimento planeado a que somos sujeitos, dia após dia, ano após ano, com troika ou sem ela. Não nos levantamos contra mentiras infames e inverdades todos os dias repetidas. Não mexemos uma palha contra as indignidades que a toda a hora nos entram pelos olhos dentro. A não ser que seja absolutamente irrelevante. Não é este o meu país, não é este o meu futebol. Este país merece campanhas ridículas, sim, merece enxovalhamentos, é um país sem vergonha e sem decoro. Sem auto-estima. Salvo se ela vier em forma de remate cruzado que, partindo da Suécia termine no fundo das redes lá longe, no Brasil. Sinceramente não tenho estudos para isto.

Pireu

rocks

Chegado ao Pireu, para uma escala de poucas horas, apressei-me em procurar uma forma de subir à Acrópole. Na parede, um cartaz anunciava 12€ como sendo o preço de uma viagem de taxi até ao monte sagrado. Assim foi, entrámos no taxi e rumámos a Atenas, passando pelo estádio do Olympiakos antes de nos embrenhar em ruas inclinadas que nos haviam de deixar no sopé da Acrópole. O taxímetro marcava algo em torno de 11€ quando, como que por artes mágicas, passou subitamente para os 27€ que o taxista me exigiu. Argumentei que era um absurdo, que o cartaz apontava para 12€, ao que me respondeu “where?”, olhando para trás, procurando ver o Pireu. Deixei uma nota de 10€ e saí do carro com um apressado “keep the change”.
Anos depois o taxista vingou-se. Imagino-o hoje, em pleno estádio, venerando Roberto, fazendo gestos obscenos para a claque Portuguesa, procurando-me entre eles, vociferando “keep the change, bitch”…