Posts tagged “Fuji

gosto

Gosto. Confesso que gosto da foto que fiz de Sean Rilley. Gosto e muito. Da aparência, do resultado final, da imagem pronta. Sim, falta-lhe nitidez, definição e cor. Falta-lhe o foco, também. E o significado, a mensagem, a intenção. Mas gosto, apesar disso, e muito. Serei o único, provavelmente. Não importa, há paixões que não se partilham…

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ao longe



Sim, com uma objectiva mais luminosa a imagem ganharia outro brilho. Ver-se-iam certamente as horas no  relógio da torre da Igreja da Barra. Sim com um corpo de última geração os contornos seriam nítidos, a gama de cinzentos completa, o grão inexistente. Mas não, não planeio trocar de equipamento. Certo é que algumas vezes procuro um novo corpo usado, mais actual, com melhor resolução, com um enorme LCD que dê para ver um jogo de futebol. Ou uma objectiva melhor, mais rápida, luminosa e manobrável do que a velhinha Nikkor. O sucesso da procura, no entanto, é directamente proporcional ao entusiasmo que nela invisto. Afinal a S3 é como se fosse uma extensão de mim mesmo, com suas manhas e as suas imperfeições de quem ficou preso entre o analógico e o digital. Afinal a Nikkor é a dificuldade que aguça o engenho, a limitação que espicaça a imaginação. É, mais do que isso, um sonho de adolescência tornado realidade tardia. Sim, com outro equipamento ver-se-iam as horas na torre da Igreja da Barra. Felizmente a Igreja da Barra não tem relógio. Fica todo o resto. O essencial.


do meu pai


O Meu pai. Quando deixou Portugal rumo ao Brasil, lá por 59, levava na mala uma velha Rolleicord. Com ela o sonho de ser fotógrafo em terras de Vera Cruz. Regressou 3 anos depois sem cumprir o destino, deixando para trás os planos que o fizeram embarcar para a Cidade Maravilhosa. deixando para trás a Rolleicord. Não deixou, no entanto, a paixão pela fotografia, guardada na luminosa Rolleiflex que acompanhou o seu regresso. Depois disso vieram as Zenit, as Praktica, Chinon e Pentax. E, a cada nova máquina, havia uma velhinha que, caindo nas minhas mãos enchia de felicidade os dias da minha infância e adolescência. À parte deste jogo, desse ciclo, permaneceu sempre a mítica Rolleiflex, companheira de viagem, impossível de destronar, insubstituível no seu papel de guardiã da paixão. Anos voaram, máquinas e máquinas passaram pelas minhas mãos. Até que, sem que ninguém o esperasse a velha Rolleicord, abandonada e desprezada, incompreendida na sua simplicidade rude, na sua dificuldade de aceitar olhares menos atentos, regressa a Portugal vinda do Rio de Janeiro. Para morrer em mãos conhecidas, talvez. E essa sim, fez o caminho das outras, acabando nas minhas mãos que, incrédulas, lhe pegaram pela primeira vez. Que, trémulas, procuraram entender os processos de outros tempos. A ausência de fotómetro, a necessidade de armar o obturador a cada disparo, a focagem dura, o visor escuro. A paixão, enfim. Outras vieram, entretanto, compactas, reflex, analógicas e digitais. E o ciclo recomeçou. Com Luisa, à espreita, esperando cada máquina nova para que lhe caia nas mãos uma velhinha capaz de dar largas à sua imaginação. Esperando, ansiosamente, a Fuji que agora me acompanha. Não espera a Rolleicord, essa que permanece no seu patamar inatingível, no seu papel de guardiã da minha paixão…

27 de Janeiro de 2012

(Para o meu pai que hoje completa 78 anos…)