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Enzo

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Que o Sporting morreu, que o Sporting não jogou, que Jardim inventou. São estes os comentários reinantes hoje. E não podiam ser mais errados. O Sporting jogou o que pode, o que lhe foi permitido. O Benfica esse jogou, e jogou bem, fez uma partida segura e tranquila, e fez esquecer tempos recentes, fez esquecer tempos em que se falava à boca cheia da desunião do balneário, da equipa contra o treinador, da iminência de um golpe palaciano. Tudo isso é passado, tudo isso é tormenta que passou. E Sálvio continua lesionado, Cardozo no banco, Matic no Chelsea e Garay com a cabeça cheia de rublos. E no entanto o Benfica sobrevive e, mais do que isso, joga. E reinventa-se, Fejsa revela-se, Enzo confirma-se, Maxi reergue-se das cinzas. E depois há Enzo Perez. Enzo é talvez o caso mais significativo, é a bela história do proscrito tornado herói, do dispensável feito pedra basilar. Basta vê-lo jogar para perceber o que ele já percebeu, que jogar no Benfica, jogar como ele joga de encarnado é abrir uma enorme porta para a eternidade, para a memória dos adeptos, que é a mais bela forma de eternidade. Tempos distantes chegarão em que o campo parecerá mais vazio sem o n°35, tempos haverão em que as bancadas da Luz não se curvarão perante o grande Enzo, em que a sua emoção não dominará ondas hertzianas, desaguando depois em todas as TVs e no coração dos que amam o Benfica. Sim serão tempos distantes em que Enzo existirá apenas nas memórias daquele dia de lágrimas em Amsterdam, ou do nó cego a Dier e Patrício de ontem. Ou das muitas recordações que esperam ser construídas, na Luz ou em qualquer Estádio, jogando a 8, ou a 6, ou mesmo a 10, pouco importa. O certo é que Enzo perdurará. Ele percebeu o caminho. E nós, todos nós lhes estamos gratos por isso.


Domingo à tarde, lá para os lados do Jamor…

Sofia,

Obrigado pela tua resposta, consolo certeiro para este Benfiquista em fim-de-festa. Sim, é verdade, jogámos o melhor futebol que vi este ano, e nunca o termo Beautiful Game me pareceu tão apropriado, nunca tão merecido. Jogámos futebol com estilo próprio, frenético e desenfreado, de ataque, futebol universal e vistoso, reconhecível, mas sobretudo repetível. Repetiu-se ontem, em Wembley, quando a Luísa reconheceu a geometria dos passes vermelhos de Enzo, as recuperações de Matic, a variação de flanco passando por Garay e Luisão, seguindo para Maxi lançar Sálvio… Sim, aquele é o nosso futebol, foi com ele que o Bayern ganhou, foi nele que Robben se inspirou para matar o jogo de ontem. E foi essa a nossa vitória, ter jogado o nosso futebol e tê-lo jogado até ao fim, e continuá-lo a jogar hoje, dia de festa no vale do Jamor, com pique-niques, churrasco e porco no espeto, com fotos de família, bigodes e abraços. E golos, mais logo, golos de bandeira, passes de letra, toques de calcanhar. Recuperações in extremis, lançamentos longos, cavalgadas frenéticas e esforços inglórios. É tudo isso, a festa de hoje. Façamo-la, façamo-la como só nós sabemos, debaixo do sol Lisboeta, com o Tejo ao fundo. E só depois as férias.

Pedro


nós somos futebol

(Enzo Pérez em Barcelos, by Luisa)

Há algo de entusiasmante neste Benfica. Algo de imprudente e ousado, urgente e desvairado. Algo que me faz lembrar o Benfica de 2009/2010, o primeiro de Jorge Jesus, o que será lembrado como o do renascimento. Dessa época lembro-me da vertigem, do tudo ou nada. Era a Liga ou a ruína, a glória ou o abismo. No campo brilhavam Aimar e Di Maria, Luisão e David Luiz. Cardozo marcava, com Saviola a seu lado. E brilhava Jesus, brilhava a dinâmica frenética, o ataque desenfreado, como se não houvesse amanhã. E talvez não houvesse, talvez fosse precisamente isso que estava em jogo. Houve, felizmente, e o escudo da Liga haveria de embelezar as camisolas berrantes no ano seguinte.

Duas ligas entretanto perdidas para o Porto, a última das quais de forma impensável, haveriam de fazer regressar tensão suficiente para que ganhar se tornasse essencial, bastante para por em causa a cabeça de Jesus. E de súbito a saída de Javi, e o adeus de Wit$el, de súbito nuvens negras sobre o centro do campo, de súbito o dramatismo de volta. A incerteza, o abismo ou a glória. E mais uma vez, entre eles, terreno fértil para a paixão. Para o futebol desregradamente ansioso. Para os riscos desnecessários de Melgarejo na esquerda, para  Ola John tão imparável como imprevisível, para um Sálvio bipolar na direita. Pelo meio o empurrão de Luisão que haveria de sobressaltar mais a nós, Benfiquistas, do que ao ridículo Fischer. Mas eis que tivémos Jardel então, oscilando entre o auto-golo de Moscovo e segurança tranquila  com que se passeou no resto do tempo. Eis que Lima surgiu, rapidamente justificando a passagem de incompreensível negócio a dor-de-cabeça para Rodrigo. Eis que da cartola Jesus tirou Enzo Pérez, passado de renegado a estrela improvável. Eis que o jogo volta a ser mais frenético do que consistente, mais histérico do que prudente. Como deve ser. Dissabores? Por certo que os teremos, provavelmente já em Camp Nou. Ou em Alvalade. Mas no fim, no fim vencerá o ataque desenfreado, o sentido único, os golos de bandeira. Vencerá o futebol, como deve ser. Vencerão as papoilas saltitantes.