nós somos futebol

(Enzo Pérez em Barcelos, by Luisa)

Há algo de entusiasmante neste Benfica. Algo de imprudente e ousado, urgente e desvairado. Algo que me faz lembrar o Benfica de 2009/2010, o primeiro de Jorge Jesus, o que será lembrado como o do renascimento. Dessa época lembro-me da vertigem, do tudo ou nada. Era a Liga ou a ruína, a glória ou o abismo. No campo brilhavam Aimar e Di Maria, Luisão e David Luiz. Cardozo marcava, com Saviola a seu lado. E brilhava Jesus, brilhava a dinâmica frenética, o ataque desenfreado, como se não houvesse amanhã. E talvez não houvesse, talvez fosse precisamente isso que estava em jogo. Houve, felizmente, e o escudo da Liga haveria de embelezar as camisolas berrantes no ano seguinte.

Duas ligas entretanto perdidas para o Porto, a última das quais de forma impensável, haveriam de fazer regressar tensão suficiente para que ganhar se tornasse essencial, bastante para por em causa a cabeça de Jesus. E de súbito a saída de Javi, e o adeus de Wit$el, de súbito nuvens negras sobre o centro do campo, de súbito o dramatismo de volta. A incerteza, o abismo ou a glória. E mais uma vez, entre eles, terreno fértil para a paixão. Para o futebol desregradamente ansioso. Para os riscos desnecessários de Melgarejo na esquerda, para  Ola John tão imparável como imprevisível, para um Sálvio bipolar na direita. Pelo meio o empurrão de Luisão que haveria de sobressaltar mais a nós, Benfiquistas, do que ao ridículo Fischer. Mas eis que tivémos Jardel então, oscilando entre o auto-golo de Moscovo e segurança tranquila  com que se passeou no resto do tempo. Eis que Lima surgiu, rapidamente justificando a passagem de incompreensível negócio a dor-de-cabeça para Rodrigo. Eis que da cartola Jesus tirou Enzo Pérez, passado de renegado a estrela improvável. Eis que o jogo volta a ser mais frenético do que consistente, mais histérico do que prudente. Como deve ser. Dissabores? Por certo que os teremos, provavelmente já em Camp Nou. Ou em Alvalade. Mas no fim, no fim vencerá o ataque desenfreado, o sentido único, os golos de bandeira. Vencerá o futebol, como deve ser. Vencerão as papoilas saltitantes.

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a primeira vez

Não foi a minha primeira vez, na Luz.
Foi a da Luisa.
E foi para a Luisa.
Foi por ela que a chuva parou, depois do dilúvio.
Foi para ela toda a chuva do dia.
O cheiro do relvado húmido, ali à mão.
Foi por ela que, um a um, David Luiz, Aimar e Coentrão desfilaram, naquela lateral esquerda.
Que Maxi e Luisão foram inultrapassáveis, na direita da defesa.
COmo só podia ser para ela aquele golo do Carlos Martins.
Não foi a minha primeira vez, na Luz.
Mas foi única.

dia D

OK, é confortável ganhar campeonatos com 15 pontos. A 4 ou 5 jogos do fim.
Mas onde fica a vertigem?
Onde fica aquela emoção de estar entre o abismo e glória?
Aquele nervoso miudinho. Aquela cerveja que definitivamente não passa pela garganta apertada.
Aquele pavor de ouvir “Braaaaagaaaa” a seguir a um qualquer golo anunciado…
Futebol não é para ser vivido calmamente.
Futebol é excesso. De paixão, sobretudo.
Não me peçam para ser sensato, durante aquelas duas horas.
Não me peçam para ver o óbvio. Para reconhecer que o árbitro tem razão.
Não me peçam para estar calmo, hoje.
Não! Hoje é o dia.
É dia de futebol!
(Quis o destino que o dia D coincidisse com o Dia das Mães, no Brasil. Espero que haja mães particularmente felizes, mais logo à noite. Em Amparo e Diadema e Barra do Piraí…)