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desesperança

a.notícia À notícia recebera-a com estupefacção. Com um murro no estômago, como um tiro no peito, terá dito um clérigo. Sim, no fundo esperava-a, como a esperavam todos os que, deixando o conforto das ideias profusamente repetidas como verdades incontestáveis, observavam a situação com um mínimo de senso crítico. Afinal tinham sido anos de fuga para a frente, de glamour, de excessos, de orgias, que mais não pretendiam do que o benefício imediato e egoísta, mais não fizeram do que minar todas as bases razoáveis de uma sociedade viável.

o.conteúdo O anunciado já o vira antes, a mesma receita repetida pela última vez, vezes sem conta. Agora sim, era mesmo necessário o sacrifício. E não, não será para sempre, apenas enquanto se fazem reformas corajosas que, essas sim, nos abrirão um futuro radioso. Afinal este bem intencionado governo herdara uma situação crítica e inesperada, quase criminosa, perpetrada e prolongada pelos seus antecessores, meliantes que se haviam lambuzado com a coisa pública. Inesperado sim, porque de nada sabiam quando, impolutos, receberam o voto de confiança do povo. E esse, o povo é soberano. A espaços, pelo menos

a.forma Ouvira a voz grave e trémula ditando sacrifícios alheios, fingindo consternação, aperto na consciência. E assustara-se ao vislumbrar, com clareza cristalina, a vertigem do poder, a demência de quem se julga imbuído de uma missão suprema, a excitação de uma glória futura. Glória vã, será.

as.ruas Mas, mais do que indignação, mais do que revolta, foi apatia o que se seguiu. Desesperança. Certeza de que, daqui nada mais de bom sairá. De que nada de bom algum dia virá, de que nada vale o esforço. Sentar e esperar. É aí que o encontramos, é aí que estamos, no fundo, todos nós. Sem vislumbrar o futuro. Porque foi esse, o futuro, que Passos Coelho ontem confiscou. Os subsídios são trocos.

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crisis, what crisis?

É assim, primeiro o deslumbramento com a cena, com a oportunidade, e a certeza de que dali sairão algumas fotos boas, para mostrar, para postar, para o álbum. Depois aquele ângulo não aparece, a luz queima, há sempre algo a mais. E o amuo. Já nada de jeito sairá dali. A má vontade com que se olha o resultado, decepcionante,  no computador. Esquece-se o falhanço, esquecem-se as fotos, evitam-se os thumbnails. Passam os anos, e subitamente uma crise, a máquina, fiel companheira, abandonada num canto, nada sai bem, o melhor é parar. Olham-se então fotografias antigas, procuram-se novas maneiras de as olhar, agora que, quer saibamos ou não, amadurecemos um pouco mais, agora que, quer queiramos ou não, precisamos de um novo alento. E, por magia, descobrem-se novos encantos em imagens rejeitadas, um muro que não devia ali estar, mas cuja textura dá profundidade à alvura da parede, um sol que, sendo incómodo, projecta um qualquer pormenor, resgatando-o ao marasmo. Trata-se, edita-se e mostra-se. Eis finalmente o fim da breve crise…