Köbe

Corria o ano de 1858 quando a fábrica de cerveja Bier and Malzextrakt Dampfbrauerei Koch (1), iniciou a sua actividade no Heumarkt, um dos mais importantes mercados de Colónia. Terá sido mais ou menos por essa altura que as cervejarias locais, afamadas pela sua Kölsch (2), começaram a servir a sua cerveja directamente ao público. Pátios, salas e armazéns encheram-se então de mesas onde os visitantes se deliciavam com a cerveja de fermentação alta e cor amarela dourada. A acompanhá-la, o prato típico Himmel un Ääd (3), céu e terra, literalmente, representados pelas maçãs e batatas, ambas em puré. Pelo meio, fatias de Blootwoosch, uma espécie de morcela de sangue, frita, com cebola caramelizada.

Para servi-los, os donos das Brauhaus recorreram a peregrinos que ali passavam em direcção a Santiago De Compostela, rumo ao túmulo de Santiago Maior. Jacob, em Alemão, razão pela qual passaram a ser tratados abreviadamente pelo nome Köbe. Fosse porque precisavam do dinheiro para prosseguir viagem, fosse por fraqueza da fé que os levava ao túmulo do Apóstolo, muitos aceitaram o trabalho. E foram ficando, até hoje, servindo comensais sem delongas e sem demasiadas formalidades, cumprindo a suprema missão de erradicarem das mesas todos os copos vazios, substituindo-os prontamente por novos stange cheios de Kölsh.

Aqui, na magnífica Brauerei zur Malzmühle, outrora chamada Bier and Malzextrakt Dampfbrauerei Koch, em pleno Mercado do Feno, bebo uma última Kölsch, servida pelo Köbe que, imagino, amanhã se fará ao caminho, em busca de Santiago Maior.

Köln_6_Junho_2019
fotos tiradas com fujifilm xq1

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Warsteiner

Antes de rumar a Frankfurt, uma rápida consulta ao livro do Francisco José Viegas com o objectivo de decidir que cervejas escolher por terras alemãs. Do índice constam apenas as famosas Spaten e Warsteiner. Referências escassas mas elogiosas, em todo o caso. Da Warsteiner retive aliás o facto de, apesar de mundialmente conhecida não ser autorizada a sua produção “sob licença” fora de solo Alemão, recusando a banalização, provando que nem tudo pode a globalização, nem tudo pode o mercado. Venha essa cerveja, então, enquanto Frankfurt é ainda uma miragem, enquanto o céu é ainda Francês. Chegou e triunfou, com o seu dourado perfeito, com o seu sabor amargo, tão subtil quanto insinuante, tão discreto quanto sedutor. Revelou-se perfeita para, quem diria, acompanhar uma espécie de canolli de caril servido pela lufthansa, aos viajantes que certamente sonhavam já com tradicional schweinshaxe estaladiço que só às margens do Main se encontra. Já o caril havia desaparecido, já a cerveja ia no fim quando um arrepio se impôs, vindo do rótulo da Warsteiner. Afinal o que mais senão um arrepio pode provocar a evocação de uma German Purity Law, ainda que seja de cervejas do que se fala aqui?…

super bock

Chegou-me às mãos o livro “99 cervejas +1”, de Francisco José viegas.
Das mãos de um bom amigo.
Com copos de cerveja, de permeio.
Vieram-me então à ideia as cervejas da minha vida.
A Super Bock com que começava as noites de terça-feira, no Académico em Coimbra.
Ou a Topázio com que a encerrava, invariavelmente.
Pelo meio uma mesa naquele primeiro andar onde mal cabíamos em pé.
Mas onde cabia o Jorge Lopes.
Onde cabiam todas as conversas do mundo.
Nessa mesa onde não coube Deus. Onde me conheci como ateu.
Onde se sentava, em horas tardias um miúdo com sono e com pensos-rápidos para vender.
Depois o tempo, que tudo arrasta.
Deixei Coimbra, para regressar ao Porto
O Jorge rumou a Évora, via Funchal.
Do Académico só resta o nome. E um daqueles cafés, assépticos e aburguesados.
A Super Bock há muito deixou de ser aquela cerveja bairrista e nortenha.
A alta de Coimbra ficou vazia.
A Praça da República deixou de ter o encanto de outrora.
E a Topázio, essa desapareceu, simplesmente.

Levando com ela o meu ateísmo convicto…