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Matosinhos (II)

Corria então o ano de 84, ano de Jogos Olípicos de Los Angeles. Os últimos da Guerra Fria e dos grandes boicotes, os jogos do épico Ouro de Carlos Lopes, da Prata de Rosa Mota. Ano do Europeu em que, brilhando Chalana venceu Platini, nessa véspera de São João em que já todo o Caramulo se preparava para a sardinhada dessa noite. Findo esse ano estranho, depois desse longo Verão a vida recomeçaria longe de Tondela, em Matosinhos. Vida nova, amigos novos. A mudança, essa começara a delinear-se anos antes, no momento em que recebera de sua mãe um presente inesperado. Um conjunto didático de electricidade, com pequenas lâmpadas, interruptores e até uma campainha, fios de cobre e uma bateria, de 4,5V, com patilhas, uma longa e outra curta, distinguindo assim a sua polaridade. Possibilidades infinitas se abriam com aquela parafernália, ligações improváveis, resultados surpreendentes. E depois os telefones que, avariados e condenados à sucata, lhe eram oferecidos  pelo Sr Firmino, guarda-fios e seu vizinho, para serem sucessivamente esventrados e transformados em peças estranhas para as quais havia sempre uma função, uma utilidade. Ou os arrancadores de lâmpadas fluorescentes gastos, que com a sua misteriosa lâmina bi-metálica conferiam magia a qualquer montagem. Mais tarde os pequenos electrodomésticos que, após muitos anos de trabalho fiel, lá acabavam por avariar, contribuindo com novos componentes, que logo se veriam trespassadas por uma corrente de electrões vindas das inesgotáveis baterias de 4,5V. Trespassado também, decidiu então o que era óbvio, que era aquilo que queria estudar. Nem que fosse necessário sair do Caramulo, virar costas a Tondela. Assim foi, deixando para trás definitivamente esse ano tão estranho.

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