Manuel

Essa bengala, feita de eucalipto, era para aquele moço cego ali de baixo. Coitado, foi o irmão que o cegou. O irmão Manuel, com chumbo de uma caçadeira.

Manuel era complicado, não parava de saltar de trabalho em trabalho. Começou uma casa anos antes, muitos anos antes, e não a terminou. Ainda hoje é só cimento e tijolos, sem janelas, assim aberta. E tem umas escadas que sobem para o piso de cima. A mulher bem lhe dizia: anda connosco e com a nossa filha, lá para a Holanda ou Venezuela. Ou para o Luxemburgo, que era afinal onde estavam. Trabalhamos e acabamos a casa, e isso chega-nos para viver. E quando o Manuel finalmente foi, acabou por lhe partir tudo, em casa. Ela chamou a Guarda, claro, e Manuel regressou a Portugal. 

Depois foram as partilhas, ali no pé da Serra, onde o pai tinha uma quinta. O irmão tinha lá construído uma casa, e não se entenderam por causa disso. O Manuel deu-lhe um tiro, com a caçadeira. E, com o irmão já no chão, perguntou-lhe se queria viver ou morrer. Não sei o que lhe respondeu, mas o Manuel pegou nele e levou-o, dentro de gamela no tractor, até à aldeia. Foi beber umas minis ao café, assobiando como se nada fosse. Encontraram o irmão moribundo, chamaram o INEM que o levou  de helicóptero para Coimbra. Mas a vista já não se salvou. Cego, coitado.  Afinal o irmão não o matou. Mas se calhar até matou.

Manuel, deixou-se apanhar pela GNR e foi preso ali mesmo. Assim ficou, até ao dia em que finalmente saiu da prisão para vir à terra, pela Páscoa. Foi aí que o sobrinho resolveu subir as escadas da casa por acabar, e riu-se: olha. o tio Manel tem um espantalho pendurado por uma corda. Quando percebeu, fugiu escadas abaixo branco como a cal. O Manuel, esse parou de fugir.

Malhapão de Cima, 6 de Julho de 2019
fotografias tiradas no caminho velho dos Jueus a Malhapão
Nikon D800 + Nikon 80-200mm f2,8
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Estádio de Marte

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Quis o destino que este derby o passasse no Caramulo, quis o destino que, não sendo transmitido em canal aberto, este jogo o visse no café Marte. No velho Marte da minha infância, onde se jogava bilhar às três tabelas ou matraquilhos, onde se compravam jornais, onde se liam jornais da casa com enormes travessas de madeira, onde se compravam pastilhas Pirata ou se furavam os paineis de bolinhas da Regina esperando um qualquer prémio. No Marte, ontem dividido entre os dois lados da segunda circular, ambos bem representados, enchendo o café como nunca o vi. Sim, no meu Caramulo as grandes disputas ainda são entre o Benfica e o Sporting, no meu Caramulo as preferências futebolísticas continuam a passar de pais para filhos, eternizando rivalidades antigas, perpetuando paixões e ódios de estimação. Pais, filhos e netos que ontem se juntaram ali para assistir a um grande jogo de futebol, ali, naquele café, onde em dia de derby não há lugar para parcimónias, para falinhas mansas, contemplações ou meias-medidas. Ali grita-se alto, berra-se a plenos pulmões, salta-se da cadeira a cada golo de Cardozo, vibra-se, sente-se, vive-se futebol como se, gritando dali, do cimo da Serra do Caramulo, as vozes se ouvissem lá, em baixo no relvado. Ouviu-as Cardozo, felizmente. Patrício, esse estava longe demais.

do São João

Dentre as minhas mais vivas memórias do São João o futebol ocupa um lugar incontornável. O golo de Poborsky que nos fez cair em 96 surgiu quando as sardinhas estavam já no fogareiro, quando os balões esperavam o ar quente que os faria subir aos céus húmidos da noite Portuense. 12 anos antes, todo o Caramulo se preparava para a festa daquele que, não sendo o seu padroeiro, é motivo bastante para comer umas boas sardinhas assadas, acompanhadas de broa e caldo verde. Desta feita éramos nós o underdog frente à poderosa França de Platini. Seria este, aliás, o carrasco que nos impediria de chegar pela primeira vez a uma final europeia. Não jogamos, desta vez, na véspera de São João. Mas é do jogo de hoje que sairá o nosso adversário da próxima quarta-feira.  Ironicamente será a França a cair hoje, caso a vontade de Platini se cumpra. Pouco me importa,  há contas contas para ajustar em qualquer caso. Venham pois as sardinhas, venha o verde-tinto. Depois da bola virão os balões, esses que são a minha mais antiga recordação de São João, quando, pela primeira vez os vi subirem aos céus de Junho em Pereiró, lançados do telhado da garagem do Sr. Almeida, para gáudio dos presentes. Assim seja hoje. E quem ganhar cairá aos pés de Portugal.

Matosinhos (II)

Corria então o ano de 84, ano de Jogos Olípicos de Los Angeles. Os últimos da Guerra Fria e dos grandes boicotes, os jogos do épico Ouro de Carlos Lopes, da Prata de Rosa Mota. Ano do Europeu em que, brilhando Chalana venceu Platini, nessa véspera de São João em que já todo o Caramulo se preparava para a sardinhada dessa noite. Findo esse ano estranho, depois desse longo Verão a vida recomeçaria longe de Tondela, em Matosinhos. Vida nova, amigos novos. A mudança, essa começara a delinear-se anos antes, no momento em que recebera de sua mãe um presente inesperado. Um conjunto didático de electricidade, com pequenas lâmpadas, interruptores e até uma campainha, fios de cobre e uma bateria, de 4,5V, com patilhas, uma longa e outra curta, distinguindo assim a sua polaridade. Possibilidades infinitas se abriam com aquela parafernália, ligações improváveis, resultados surpreendentes. E depois os telefones que, avariados e condenados à sucata, lhe eram oferecidos  pelo Sr Firmino, guarda-fios e seu vizinho, para serem sucessivamente esventrados e transformados em peças estranhas para as quais havia sempre uma função, uma utilidade. Ou os arrancadores de lâmpadas fluorescentes gastos, que com a sua misteriosa lâmina bi-metálica conferiam magia a qualquer montagem. Mais tarde os pequenos electrodomésticos que, após muitos anos de trabalho fiel, lá acabavam por avariar, contribuindo com novos componentes, que logo se veriam trespassadas por uma corrente de electrões vindas das inesgotáveis baterias de 4,5V. Trespassado também, decidiu então o que era óbvio, que era aquilo que queria estudar. Nem que fosse necessário sair do Caramulo, virar costas a Tondela. Assim foi, deixando para trás definitivamente esse ano tão estranho.

Norte

Sempre foi o meu Norte, o Cabeço da Neve, sempre reinou, absoluto, nesse meu Caramulo. Apesar de, ali ao lado, o Caramulinho espreitar altivo dos seus mais de 1000m, da. Apesar de ser o Caramulinho, com a sua inconfundível forma de cesto poceiro, que os olhos desesperados procuram quando, em terras beijadas pelo Mar de Aveiro, buscam o conforto de casa. Mas uma vez lá, nas Paredes do Guardão é ele, é o Cabeço da Neve que me serve de referência, que me serve de guarda, que me acolhe generosamente no seu regaço. É ele que me dá esse Norte que, não sendo o geográfico é o que realmente me guia…

Páscoa

A Páscoa era, mais do que o Natal, tempo de regresso no Caramulo. A decadência dos Sanatórios levara muitos a procurar sorte fora da Serra, Porto, Lisboa ou outras paragens mais distantes. Mas este era o tempo do regresso, em que se reencontravam primos distantes, velhos amigos, era este o Domingo em que as ruas do Povo, o núcleo original das Paredes do Guardão, se enchiam, era este o Domingo em que se encontrava o Compasso em cada esquina. Em que o Abade saía com os seus melhores paramentos, em que entrava em casa de todos os paroquianos ansiosos pela visita Pascal. Na nossa casa entrava já o Sol tinha desaparecido atrás do Caramulinho, já noitinha, já cansado da longa jornada. Nem por isso deixava de dizer umas palavras simpáticas, alusivas ao dia da Ressurreição de Cristo. Naquele ano referiu-se à sapiência divina, ao fazer coincidir a Páscoa com a Primavera, “tempo de renascimento”. Palavras a que todos acenaram, certos de que era de facto prova de harmonia divina. Todos menos a Ana que, estupefacta, lembrava o Outono que então dourava a Páscoa em Minas…

aqui

É aqui que regresso, é daqui que sou. Sim, nasci longe, nasci Tripeiro, e sim, é já mais o tempo em que vivi longe daqui do que o que passei nesta Serra. E contudo é aqui que me sinto em casa, é aqui que me sinto reconfortado. Foi aqui que pela primeira vez olhei derretido para ela, a menina mais bonita de toda a escola, foi aqui que, tendo 6 ou 7 anos peguei na sua mão no recreio. Foi aqui que o Sr Aníbal me vendeu chicletes Gorila, gelados Olá e cerveja Sagres. Foi por aqui que joguei marcantes jogos de futebol, fosse no Lusitano, no Parque, em frente ao Cemitério ou nos lameiros da Longra. Foi aqui que, às escondidas, fumei o meu primeiro Português Suave (long size) com o Chico. Foi aqui que selei uma promessa de eternidade com um anel de luar. Foi aqui que tantas vezes me chamaram Fernando, como chamam hoje Pedro ao Francisco. É daqui que eu sou, e é aqui que, mesmo sendo um pouco de outras paragens, renasço a cada Páscoa…

Domingos…



Era Domingo, dos antigos. Daqueles Domingos perfeitos, dias próprios para rituais, dias que serviam unicamente para lembrar que, pelo menos por um dia, tudo seguia a ordem natural, tudo era como devia ser.

Deus tinha escolhido aquele dia, o sétimo, para descansar. No Caramulo, ti’António padeiro imitava-o, e ao Domingo não havia pão. O Café Marte era apenas isso mesmo: um café, com mesas e o Sr. Aníbal a servir e bilhares e matraquilhos. Mas sem pão-quente, descongelado e estaladiço.

Por isso havia aos sábados pão-de-forma, feito a pensar no dia seguinte.

Aos Domingos acordava com o barulho de lenha a crepitar no fogão. Sabia distinguir o barulho das pinhas e galhos, usados bem cedo para acender o lume. Ou das cavacas de pinho, que alimentavam o fogão depois.

A função primeira daquele fogão era a de torrar as fatias do pão-de-forma, que seriam depois pinceladas com manteiga derretida num pequeno copo de alumínio.

O ritual tornava-se então pessoal. Primeiro comia cuidadosamente as côdeas e suas vizinhanças. Para o fim deixava o miolo do pão, quente e ensopado em manteiga, forma perfeita de fechar o pequeno-almoço, abrindo um dia perfeito.

Era domingo, a lenha já crepitava no fogão, mas nesse dia não conseguiu comer uma torrada completa, uma única, que fosse. O miolo, cuidadosamente poupado, teimava em desaparecer repetida e impunemente. Roubado ali, à sua frente, perante a sua passividade incrédula. Afinal havia visitas, em casa. Havia ela, de visita. E só ela para cometer repetidamente tal crime e escapar. Com um sorriso nos lábios, como se fosse aquilo a coisa mais natural do mundo, como se fosse assim que devesse ser. Talvez fosse, talvez algum dia os rituais devessem mudar. Talvez fosse um sinal, talvez não pudesse ser outra coisa.

Era um sinal, sem dúvida.

E ainda hoje, quando ele come uma torrada fá-lo sabendo que nem sempre conseguirá comer o meio, o miolo.

pisco-de-peito-ruivo

Gosto de fotografar animais.
Sobretudo pelo acto em si.
Pelo processo.
Sair sem rumo, sozinho. Procurar. Esconder. Esperar.
Arriscar. Tentar. Falhar.
Recomeçar.
O resultado final suscita, normalmente, apreciações técnicas.
A nitidez, o instante, o foco, a luz.
Mas, por vezes, sobrevêm a qualidade estética, a composição, o ambiente.
Fazendo esquecer o desfoque, provocado pela grande abertura e consequente falta de profundidade-de-campo.
O ligeiro tremido. Baixa velocidade de obturação. Inevitável no Inverno. No fim-de-tarde Caramulano.
O pisco-de-peito-ruivo, esse esteve à altura do momento.
Posando com garbo nos ramos de uma videira seca.
Às portas de um qualquer Natal…