Estádio de Marte

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Quis o destino que este derby o passasse no Caramulo, quis o destino que, não sendo transmitido em canal aberto, este jogo o visse no café Marte. No velho Marte da minha infância, onde se jogava bilhar às três tabelas ou matraquilhos, onde se compravam jornais, onde se liam jornais da casa com enormes travessas de madeira, onde se compravam pastilhas Pirata ou se furavam os paineis de bolinhas da Regina esperando um qualquer prémio. No Marte, ontem dividido entre os dois lados da segunda circular, ambos bem representados, enchendo o café como nunca o vi. Sim, no meu Caramulo as grandes disputas ainda são entre o Benfica e o Sporting, no meu Caramulo as preferências futebolísticas continuam a passar de pais para filhos, eternizando rivalidades antigas, perpetuando paixões e ódios de estimação. Pais, filhos e netos que ontem se juntaram ali para assistir a um grande jogo de futebol, ali, naquele café, onde em dia de derby não há lugar para parcimónias, para falinhas mansas, contemplações ou meias-medidas. Ali grita-se alto, berra-se a plenos pulmões, salta-se da cadeira a cada golo de Cardozo, vibra-se, sente-se, vive-se futebol como se, gritando dali, do cimo da Serra do Caramulo, as vozes se ouvissem lá, em baixo no relvado. Ouviu-as Cardozo, felizmente. Patrício, esse estava longe demais.

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É aqui que regresso, é daqui que sou. Sim, nasci longe, nasci Tripeiro, e sim, é já mais o tempo em que vivi longe daqui do que o que passei nesta Serra. E contudo é aqui que me sinto em casa, é aqui que me sinto reconfortado. Foi aqui que pela primeira vez olhei derretido para ela, a menina mais bonita de toda a escola, foi aqui que, tendo 6 ou 7 anos peguei na sua mão no recreio. Foi aqui que o Sr Aníbal me vendeu chicletes Gorila, gelados Olá e cerveja Sagres. Foi por aqui que joguei marcantes jogos de futebol, fosse no Lusitano, no Parque, em frente ao Cemitério ou nos lameiros da Longra. Foi aqui que, às escondidas, fumei o meu primeiro Português Suave (long size) com o Chico. Foi aqui que selei uma promessa de eternidade com um anel de luar. Foi aqui que tantas vezes me chamaram Fernando, como chamam hoje Pedro ao Francisco. É daqui que eu sou, e é aqui que, mesmo sendo um pouco de outras paragens, renasço a cada Páscoa…

Domingos…



Era Domingo, dos antigos. Daqueles Domingos perfeitos, dias próprios para rituais, dias que serviam unicamente para lembrar que, pelo menos por um dia, tudo seguia a ordem natural, tudo era como devia ser.

Deus tinha escolhido aquele dia, o sétimo, para descansar. No Caramulo, ti’António padeiro imitava-o, e ao Domingo não havia pão. O Café Marte era apenas isso mesmo: um café, com mesas e o Sr. Aníbal a servir e bilhares e matraquilhos. Mas sem pão-quente, descongelado e estaladiço.

Por isso havia aos sábados pão-de-forma, feito a pensar no dia seguinte.

Aos Domingos acordava com o barulho de lenha a crepitar no fogão. Sabia distinguir o barulho das pinhas e galhos, usados bem cedo para acender o lume. Ou das cavacas de pinho, que alimentavam o fogão depois.

A função primeira daquele fogão era a de torrar as fatias do pão-de-forma, que seriam depois pinceladas com manteiga derretida num pequeno copo de alumínio.

O ritual tornava-se então pessoal. Primeiro comia cuidadosamente as côdeas e suas vizinhanças. Para o fim deixava o miolo do pão, quente e ensopado em manteiga, forma perfeita de fechar o pequeno-almoço, abrindo um dia perfeito.

Era domingo, a lenha já crepitava no fogão, mas nesse dia não conseguiu comer uma torrada completa, uma única, que fosse. O miolo, cuidadosamente poupado, teimava em desaparecer repetida e impunemente. Roubado ali, à sua frente, perante a sua passividade incrédula. Afinal havia visitas, em casa. Havia ela, de visita. E só ela para cometer repetidamente tal crime e escapar. Com um sorriso nos lábios, como se fosse aquilo a coisa mais natural do mundo, como se fosse assim que devesse ser. Talvez fosse, talvez algum dia os rituais devessem mudar. Talvez fosse um sinal, talvez não pudesse ser outra coisa.

Era um sinal, sem dúvida.

E ainda hoje, quando ele come uma torrada fá-lo sabendo que nem sempre conseguirá comer o meio, o miolo.