Posts tagged “bola

Agostinho

people agostinho 2 1501 xq1 30x20 colourAgostinho é do Panguila. Agostinho é segurança, Agostinho guarda um terreno imenso junto à praia deserta, a sul de Luanda. Há-de ser um resort, certamente, será um resort quando o turismo for finalmente aposta em Angola. E é Agostinho que o guarda, que zela pelos 60 hectares de terreno junto ao grande Atlântico. 24 horas por dia, durante 15 longos dias, durante duas semanas ininterruptas que passará ali, no enorme terreno junto à bela praia deserta. Agostinho aproxima-se, ao chegarmos, para pedir cigarros. Não temos. Dá cem quanza só, eu compro. Agostinho há-de aproximar-se outra vez, timidamente, ao ver a bola sozinha no areal. Enquanto isso, mergulhamos no quente Atlântico na deserta praia de fim de tarde. Agostinho ensaiará toques na bola, com pesadas botas militares, agora cheias de areia. Agostinho aguarda pacientemente um companheiro, alguém a quem passar a bola, alguém com quem trocar toques de habilidade, sem largar o cassetete, mas com um largo sorriso nos lábios. Agostinho, o segurança, há-de sentir-se criança perante a bola nova, perante a possibilidade de brincar com ela, com a bola. Sentir-se-á craque e terá a certeza de que, tivesse estado no relvado do 11 de Novembro, meses antes, e Angola estaria agora no CAN. E todo o país em festa. E talvez reparassem nele. No remate em arco que agora ensaia, e certamente rumaria à Europa. Talvez até para o Benfica. E o Panguila ficaria para trás, tornar-se-ia recordação e saudade, que evocaria a cada golo marcado. Agostinho passará 15 longos dias e 15 escuras noites a dormir ao relento, ao lado da sua AK. A sonhar, talvez. Depois regressará ao Panguila. 


Eppur se muove

É recorrente.
A cada Mundial, a cada Euro, surge uma nova bola.
Melhor para o espectáculo, supostamente. Melhor para o negócio, certamente.
Não tardará a surgir nas estantes das lojas de todo mundo, depois de testada pelos jogadores.
Jogadores que, a cada nova bola, desfiam um rol de críticas.
Efeitos estranhos, demasiado leve, demasiado pesada, sei lá que mais…
É sempre assim.
A bola, bem se vê, é o centro do jogo.
Mas não é o mais importante.
Volto à minha infância, aos jogos mais felizes da minha vida.
Alguém se preocupava com a bola? Não, desde que houvesse bola.
De borracha, de couro, cheia, vazia, nova, velha, redonda ou oval.
O importante era o jogo.
O dia que nos esquecermos disso, o dia em que dermos mais importância à bola, às chuteiras e aos acessórios, nesse dia o futebol começa a morrer…


geometria variável

Quando li a declaração de amor eterno que Veríssimo dedicou à sua primeira bola, em forma de crónica, viajei até ao Caramulo dos anos 70.
Em que nos deleitávamos em intermináveis jogos de futebol no pátio do Lusitano, antigo sanatório construído por meu avô.
Com a minha primeira bola.
Não era uma “nº5”. Não era de couro. Não era sequer verdadeiramente uma bola.
O uso intensivo, os estrondosos choques contra as paredes do edifício cedo lhe roubaram a forma esférica.
Mas a imperfeição geométrica nunca foi problema, quando o tema é paixão.
E essa bola era objecto de desejo, veículo de sonhos.
Era jogada num campo, aos nossos olhos perfeito, em que as balizas não eram paralelas entre si.
Não eram sequer centradas no rectângulo de jogo.
Que, por sua vez, nem um rectângulo era.
Limitado, por um lado, pelas paredes do edifício, em forma de trapézio, e por outro por uma curva sebe de loureiros, que se interpunha entre nós e um desnível de mais de 2m.
Enorme abismo que nos separava do silvedo de onde frequentemente tínhamos que resgatar a preciosa bola.
Outras houve, efémeras tentativas de a destronar.
Lembro-me especialmente do dia em que o Jorge, vizinho e companheiro fiel desses jogos, surgiu com uma verdadeira bola “oficial”.
De couro, nº5, que seu pai, empregado de um café na Av Lourenço Peixinho em Aveiro, lhe trouxe.
Podia ler-se ainda “Beira-Mar” escrito sobre o couro.
Mas, apesar da sua perfeição, mesmo sabendo que foi usada em jogos da primeira divisão, não nos conquistou.
Era demasiado dura, ameaça constante para as janelas vizinhas, e pesada demais para nós, então com 6 ou 7 anos.
Além disso já conhecíamos de cor os saltos caprichosos da nossa bola.
Já jogávamos com a trajectória ligeiramente curva que tomava.
Era a nossa bola.
E a nossa bola não se trai, não se troca.
Campeonatos sem fim eram jogados naquele improvável “teatro dos sonhos”.
Que não trocaria por Highbury, Santiago Bernabeu ou Maracanã. Ou sequer pela Luz.
Porque são inexplicáveis as razões do amor absoluto.
Tornam tudo o resto relativo.
Geometria incluída.

Belo Horizonte, 28 de Agosto de 2009