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perdimos, amigo, perdimos…

luz

“Perdimos, amigo, perdimos”
Disse-o Gaitán, frustrado, depois de um qualquer jogo particular, desta pré-época desastrosa. Podia tê-lo dito ontem, para aplacar a decepção, para controlar a ira. Disse-o e sentiu-o, e ao fazê-lo, confirmou o que o tempo me vinha dizendo. Que Gaitán é um jogador maior, um dos nossos. Lembro-me dessa longínqua silly season, que nos trouxe Gaitán e Jara. Após os primeiros jogos, ou pré-jogos, vá, sentenciei que Jara era jogador, Gaitán seria no máximo um brinca-na-areia. Disse-o, indignando Luísa, minha filha, que se encarregou ao longo destes anos, de me lembrar tamanha gaffe. Fê-lo a cada toque de génio, relembrou-o a cada passe perfeito. “blá-blá-bla, e o Jara é que era, e blá-blá-blá”. Ouvi-o depois do golo em Belém, depois do passe para Cardozo contra o Man’U, ou a selar aquela jogada do golo de Lima a Patrício, naquela que foi talvez a mais bela jogada a que assisti.
“Perdimos, amigo, perdimos”, é o lamento que queria ter ouvido ontem na boca de todos os jogadores, de todos os profissionais, de todos os Benfiquistas. E que fosse sentido, que fosse envergonhado, que fosse visceral. Não aquele baixar a cabeça, e dizer que agora é trabalhar para melhorar, que foi apenas um jogo. Não foi, foi uma derrota, que diabo, e foi uma derrota que expôs uma falta de atitude, falta de empenho e de vontade que me preocupam. Preocupam dentro do campo e preocupam-me fora dele.
Perdemos, amigos, perdemos…

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Outubro Vermelho

aimar 01 1280Era Outubro, era um fim-de-semana chuvoso que havia de se interromper para dar à nossa noite, à noite do Benfica, aquele cheiro de relva molhada que antecede os grandes momentos, as inesquecíveis noites. Entrámos na Luz, e nunca o seu nome me pareceu tão poético, tão apropriado para justificar o olhar brilhante de Luísa ao ver lá em baixo o relvado iluminado, ao ouvir aquele burburinho motivado pela excitação do momento, pela proximidade de nos encontrarmos com o objecto último da nossa paixão, por estarmos finalmente em casa. Sim, era a primeira vez da Luísa, era Outubro, e ali, no relvado, a escassos metros aquecia a equipa, David Luiz, Saviola e Gaitán. Luisão, Javi e Coentrão. E Pablo. Era Outubro, e não tardava a ouvir-se, a cantarmos o hino do Glorioso, não tardava e a camisola 10 subiria ao relvado. Pablo Aimar era daqueles jogadores que admirava profundamente, daqueles jogadores que nunca imaginara ver com a camisola berrante. E no entanto ali estava ele, espalhando magia como poucos, jogando como nenhum. E Luísa, incrédula por estar na primeira fila, mal contendo a emoção de cada vez que ali passava David Luiz ou Coentrão, de cada vez que Gaitán subia à linha sem imaginar, sequer, que um dia seria dele aquela camisola 10. Aimar não precisava de se aproximar da linha, a Aimar não se pedia senão que jogasse, a Aimar bastava ser ele próprio, o génio que um dia impressionou Maradona, o virtuoso que inspirou Messi. A Aimar bastava ser Aimar, e vê-lo ali, com a camisola do Benfica era sonho realizado. Fazê-lo com Luísa, sua filha, a seu lado, era mais do que qualquer um poderia pedir.
Era Outono, e foi aquela a primeira vez que vi, que vimos Pablo, e que nos encantámos com ele. Hoje, em pleno cacimbo, soube que não mais sentirei essa excitação infantil de vê-lo com uma bola nos pés. Mas o encanto não cessou. E não cessará nunca, por mais Outonos que passem, por mais invernos que se lhe sigam. Não cessará, simplesmente.

(Para o Capareira, que hoje completa cerca de diversos anos de vida, amigo e companheiro de Benfiquismo, responsável, entre outras coisas, por me fazer vencer hoje a preguiça e dedicar umas palavras ao Pablo Aimar…)


Bernardo

bernardoMais de um ano se passou sobre o dia em que um amigo Benfiquista me pediu que escrevesse umas linhas sobre futebol romântico Que fazia falta na página, que ali cerravam fileiras e clamavam contra o que estava mal no nosso Benfica, e era muito, e que esqueciam um pouco esse romantismo de que o futebol é feito. Acedi, honrado. Nunca me faltou romantismo no que ao Benfica diz respeito, pelo contrário, sempre me sobrou paixão, que partilhei, com amigos, com conhecidos, com a minha filha. Assim, foi, e acabei por escrever palavras sentidas, sobre Eusébio, Coluna ou Cardozo. Depois a vida. E a vida entendeu colocar 7000km entre mim e Luísa, minha filha e companheira de paixão, companheira de futebol, desse que se joga com o coração aberto. E o romantismo deu lugar à saudade. À mágoa, até. E as palavras foram-se tornando escassas. O silêncio foi-se assumindo, pese embora os sucessos desportivos. Saiu Cardozo e calei-me. Saiu Rodrigo e nem palavra me saiu. Garay e Enzo. Silêncio. Agora Bernardo. Mas vender Bernardo não é simplesmente vender Bernardo. Vender Bernardo, agora, é crime lesa-Benfica. Bernardo é aquele rapaz a quem foi permitido cumprir um sonho, a Bernardo não o vemos como um fora-de-série, não como uma estrela, Bernardo é um de nós. Bernardo Silva é nosso conhecido, amigo e até primo distante. Bernardo somos nós e Bernardo é o nosso Benfiquismo personificado. Bernardo é a secreta certeza de que, tivéssemos sido bafejados pela sorte, e poderia ser nossa a fotografia da criança com a camisola do Benfica que cumpriu um sonho. Vendê-lo, vender Bernardo é vender o nosso Benfiquismo. Vendê-lo é matar irremediavelmente uma parte da paixão que nos une ao Benfica. Que é infinita, bem sei, mas que se sente substancialmente diminuída com este rude golpe. Vendê-lo, por quinze, trinta ou duzentos milhões, é tornar o Benfica mais pobre, mais triste, mais cinzento. É tornar-nos, a nós, menos Benfica. É apagar um pouco a chama imensa. Tristes, estes dias. Para nós. E para Bernardo, certamente.

(publicada na página “Ontem vi-te no Estádio da Luz” ontem, dia 21 de Janeiro de 2015)


o abraço

20140125-101236.jpgAcordou sozinho, nesse Domingo de Páscoa. Era a primeira celebração da Ressurreição de Cristo que havia de passar fora do seu Caramulo. A primeira celebração que havia de passar longe da família. Acordou com a boca seca e o sabor a saudade. Correu, fugindo aos cânticos alegres que entoavam na Igreja em frente, para o mar, para esse Atlântico purificador que banha a Ilha, esse mar que, a cada ano, recua derrotado pela Babel que é hoje Luanda. Cumprido o ritual matinal de Domingo, é hora de regresso a São Paulo. Pelo caminho, camisolas vermelhas a lembrar que também ali há Portugal, a lembrar-lhe essa outra festa prometida para mais tarde, essa outra celebração que, para ele, soava desta vez mais a Via Sacra do que a Ressurreição.

Luísa, sua filha, aguardava esse mesmo jogo. Mas longe, demasiado longe. Luisa, sua filha, era sua companheira de mesas de café onde, juntos, vibravam com as camisolas berrantes, onde, juntos, discutiam substituições, penalties e foras-de-jogo. Sem isenção, sem parcimónia, mas com cumplicidade. Nunca esperara que o futebol se tornasse esse forte elo entre eles, entre pai e filha. Nunca esperara, nunca o procurara, nunca precisara dele. Mas o certo é que ali estava ele, o jogo que os fazia abraçarem-se em bancadas de Estádios, comemorando golos de Cardozo, Martins, Lima ou André Gomes. Que os fazia rir vitórias ou chorar derrotas. Ou traumas recentes que não serão lembrados hoje quando, mais logo ele sair para a Vouzelense pensando na Luisa. E mais ainda quando, no calor de Luanda, sair com um cachecol vermelho. Tão inapropriado como a distância que o destino entendeu colocar entre ele e Luisa, sua filha. No dia de Ressurreição de Jesus. No dia do 33º título do Campeão dos Campeões. Hão-de comemorar juntos sim. Faltará, em todo o caso, esse abraço que hoje, mais do que qualquer outra coisa, desejava…


Enzo

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Que o Sporting morreu, que o Sporting não jogou, que Jardim inventou. São estes os comentários reinantes hoje. E não podiam ser mais errados. O Sporting jogou o que pode, o que lhe foi permitido. O Benfica esse jogou, e jogou bem, fez uma partida segura e tranquila, e fez esquecer tempos recentes, fez esquecer tempos em que se falava à boca cheia da desunião do balneário, da equipa contra o treinador, da iminência de um golpe palaciano. Tudo isso é passado, tudo isso é tormenta que passou. E Sálvio continua lesionado, Cardozo no banco, Matic no Chelsea e Garay com a cabeça cheia de rublos. E no entanto o Benfica sobrevive e, mais do que isso, joga. E reinventa-se, Fejsa revela-se, Enzo confirma-se, Maxi reergue-se das cinzas. E depois há Enzo Perez. Enzo é talvez o caso mais significativo, é a bela história do proscrito tornado herói, do dispensável feito pedra basilar. Basta vê-lo jogar para perceber o que ele já percebeu, que jogar no Benfica, jogar como ele joga de encarnado é abrir uma enorme porta para a eternidade, para a memória dos adeptos, que é a mais bela forma de eternidade. Tempos distantes chegarão em que o campo parecerá mais vazio sem o n°35, tempos haverão em que as bancadas da Luz não se curvarão perante o grande Enzo, em que a sua emoção não dominará ondas hertzianas, desaguando depois em todas as TVs e no coração dos que amam o Benfica. Sim serão tempos distantes em que Enzo existirá apenas nas memórias daquele dia de lágrimas em Amsterdam, ou do nó cego a Dier e Patrício de ontem. Ou das muitas recordações que esperam ser construídas, na Luz ou em qualquer Estádio, jogando a 8, ou a 6, ou mesmo a 10, pouco importa. O certo é que Enzo perdurará. Ele percebeu o caminho. E nós, todos nós lhes estamos gratos por isso.


O meu Benfica

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Não, não vi Eusébio jogar, e não, não fui ao Estádio da Luz em tenra idade. Nasci no Porto e cedo regressei ao Caramulo dos meus pais, onde passaria a minha meninice e adolescência jogando à bola em todos os cantos em que me era possível, do trapezoidal pátio do velho sanatório construído por meu avô até ao recreio da escola primária com icónicos cubos de granito em vez de balizas. Ou no adro do cemitério, o que obrigava não raras vezes a saltar o alto portão para resgatar a bola de entre as campas. No pequeno parque que viria a ser o recinto da festa de Santa Margarida, fintando árvores e driblando raízes, marcando golos em balizas imaginárias. Sim, o meu futebol era o que se jogava na rua, o futebol dos amigos, dos colegas, dos companheiros. E esses eram invariavelmente do Benfica ou do Sporting. Apenas esses tinham dimensão nacional, apenas esses atravessavam o vale subiam à serra, apenas esses. Ser do Porto, do meu Porto natal, seria ser tão bairrista como escolher o Académico de Viseu por critérios de proximidade. Tão exótico como ser do Belenenses. Ou do Leixões. Seria um grito de diferença, uma necessidade imperiosa de afirmação. De confronto. Não, a minha escolha foram os amigos, companheiros de bola e de joelhos esmurrados. Foi o Jorge e o Chico. Foi o meu Pai, Benfiquista discreto e sensato. A minha escolha foram os afectos, as pessoas. E é esse o meu Benfica. Dos companheiros de bancada, ou de mesa de café, dos amigos, de aquém e além mar, da Escócia da Sofia ao Brasil de Rubinho, da Bragança do Blitz a Angra do Heroísmo do Capareira. De Fernando, meu pai, a Luísa, minha filha. É esse o Benfica que, antes de ser escolha minha, me acolheu. De braços abertos.


A voz do dono

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E pronto, o Porto perde e, acto contínuo, regressam os ataques às arbitragem vergonhosas e desonestas. Limpinho, limpinho. E déjà vu. O que é diferente, neste caso, são os dias que separaram os factos da reacção. E se do velho Dono já se espera lentidão nos processos, o dócil cachorrinho esperou dias infindos para reagir. Para, embevecido com os elogios da esposa, urdir contra cabalas misteriosas que visam derrotar fora do campo uma equipa que, já o disse bastas vezes, roça a perfeição. Sem perceber que a derrota da Luz é dele. Só dele e das suas opções. Contra um Benfica que, longe de brilhante, não foi sequer empolgante. Que ganhou porque jogou o seu jogo, não o do Outro. Que escolheu os 11, os seus 11, pondo de lado cautelas e caldos de galinha. Que teve no banco um Jesus sem Paulo Fonseca, como nunca conseguiu ter um Jesus sem Vitor Pereira. E a escolha de Oblak, quando todos esperavam Artur, é talvez o melhor exemplo. Enquanto isso, do outro lado subia Helton, em vez de Fabiano. E, se não foi pelo Esloveno que o Benfica ganhou, pode perfeitamente ter sido por Fabiano. Pela ausência dele. Ou, em última análise, por Paulo Fonseca. Pela ausência dele. Pela ausência de alma, vendida nas últimas jornadas da época passada, vendida por trinta dinheiros, ou por um prato de lentilhas.
Já era pois, tempo de Paulo Fonseca travar as suas guerras. Não esperar que a mão do dono lhas indique.


O meu, o nosso Benfica…

28042011493O Benfica de Eusébio é o meu Benfica. É, aliás, o Benfica de todos nós, benfiquistas ou não. É o Benfica que nunca desiste, que nunca se dá por derrotado, que sobretudo nunca se dá por perdido.
O meu, o nosso Benfica é o que não esqueceu Mantorras na infeliz hora da despedida. Não o que lhe fez uma despedida vazia, não o que foi incapaz de lhe dar um minuto sequer, no ano do 32° título de campeão.
O meu, o nosso Benfica é o que trata todos os jogadores como seus, por nascimento, criação ou adopção. Não o que os  abandona na Roda de outrora, hoje sob forma de empréstimos ad eternum.
O meu, o nosso Benfica é o que venera Deuses e mitos, em campo, nas bancadas, na memória, no coração. Não é que se apressa em prometer efígies em camisolas e anos de luto. Ou nomes em estádios, pavilhões ou centros de estágio.
Não é o meu Benfica, não é certamente o de Eusébio. E se, mesmo que por breves dias, nos esquecemos disso, não lhe fazemos honra. A Eusébio ou ao seu Benfica. Ao nosso.


Pireu

rocks

Chegado ao Pireu, para uma escala de poucas horas, apressei-me em procurar uma forma de subir à Acrópole. Na parede, um cartaz anunciava 12€ como sendo o preço de uma viagem de taxi até ao monte sagrado. Assim foi, entrámos no taxi e rumámos a Atenas, passando pelo estádio do Olympiakos antes de nos embrenhar em ruas inclinadas que nos haviam de deixar no sopé da Acrópole. O taxímetro marcava algo em torno de 11€ quando, como que por artes mágicas, passou subitamente para os 27€ que o taxista me exigiu. Argumentei que era um absurdo, que o cartaz apontava para 12€, ao que me respondeu “where?”, olhando para trás, procurando ver o Pireu. Deixei uma nota de 10€ e saí do carro com um apressado “keep the change”.
Anos depois o taxista vingou-se. Imagino-o hoje, em pleno estádio, venerando Roberto, fazendo gestos obscenos para a claque Portuguesa, procurando-me entre eles, vociferando “keep the change, bitch”…


O vento

O vento sopra, finalmente. O vento sopra nas Geraes trazendo com ele a insuportável saudade do meu Benfica. A vontade de estar lá, agora, como se Alvalade fosse ali, do outro lado da Serra do Curral, como se 7.500km se esfumassem sob o peso do desejo, como se a distância dos últimos meses sucumbisse perante a imagem das camisolas berrantes. O vento sopra, finalmente, mas o vento que cala a desgraça, o vento que nada me diz, deixa espaço para a ilusão, para a subida de Aimar ao relvado, sim, de Aimar, como se o 10 nunca nos tivesse deixado pela porta pequena. Ou, pelo canto do olho, traz a imagem de Pedro Mantorras, no banco, assegurando que, se algo correr mal, ele estará lá, qual anjo vingador pronto a devolver às bancadas verdes a incerteza da sua mortalidade. Sim, do vento não constam os pequenos desmandos ou as grandes mentiras, neste vento não cabe Jesus dos últimos dias. O Jesus que com ele voa não se ajoelha jamais, o Jesus que vejo é o que transforma, com toque de Midas, inconstantes extremos em laterais de luxo, aquele que reabilita argentinos proscritos transformando-os em insubstituíveis 8’s. É o Jesus que nos devolveu o mais belo futebol de uma vida, não o que o desbaratou em dias tristes.
Olho para o papel e percebo que afinal a distância existe. Um oceano separa o sonho da realidade. Mas, que diabo, ainda temos Cardozo. E Tacuara pode não voar com o vento, mas, como sabemos, não perdoa nunca. Nem esquece. Que seja ele a salvar-nos. E a enterrar a distância que nos separa, que teima em interpôr-se entre nós e a nossa equipa, essa distância que dura há muito tempo. Há demasiado tempo.

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