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o derby

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Vezes sem conta o disse, o meu futebol, o meu Benfica é o das pessoas. Dos que, dentro ou fora de quatro linhas, amam o jogo e fazem do Benfica uma família, imperfeita, falível mas eterna e apaixonante.
É de pessoas, pois, que o derby de amanhã se fará. Nomes que surgirão, um atrás do outro nas bancadas, nas roulotes, nomes que trarão saudade imensa e sorrisos aberto. E risos, e lamentos. Nomes que, duma forma ou de outra, vestiram e honraram aquelas camisolas que pesam hoje em outros ombros. Falar-se-á de Mantorras, claro, e de João Pinto. Mas também de Beto e Fernando Aguiar. Caniggia, Paneira e Isaías. Schwarz e Magnusson, Rui Costa e Aimar. Todos com uma imperial numa mão e uma bifana na outra.
Enquanto isso, do outro lado da segunda circular olha-se para o passado buscando razões para um futuro glorioso que teima em não aparecer, um futuro absurdamente maior do que a sua dimensão. Da que realmente têm, não da que efabulam. E nessa grandiosidade delirante cabem apenas bolas de ouro, Figo, Ronaldo e até, pasme-se, Eusébio. Pelo caminho, pelos caminhos do esquecimento vão caindo outros que, não sendo do mesmo quilate, brilharam em Alvalade, que tiveram papel significativo no atribulado percurso do clube. Nomes como Beto Acosta, Peter Schmaichel e até Liedson e Polga mereciam melhor sorte, mereciam a memória dos adeptos. Mereciam fotos no facebook, mereciam conversas de ocasião em dia de jogo.
Há derby, amanhã. E se dum lado estarão em campo Preud’Homme, Coentrão, Ricardo Gomes, Mozer e Veloso, Thern, Valdo, Simão e Poborsky,
Nuno Gomes e Rui Águas, do outro lado somente Figo e Cristiano, serão lembrados. Do outro lado apenas soberba. E uma derrota certa, perante tão desigual contenda.

(Para o Capareira que gostava de ver amanhã, no Estádio da Luz)

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Estádio de Marte

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Quis o destino que este derby o passasse no Caramulo, quis o destino que, não sendo transmitido em canal aberto, este jogo o visse no café Marte. No velho Marte da minha infância, onde se jogava bilhar às três tabelas ou matraquilhos, onde se compravam jornais, onde se liam jornais da casa com enormes travessas de madeira, onde se compravam pastilhas Pirata ou se furavam os paineis de bolinhas da Regina esperando um qualquer prémio. No Marte, ontem dividido entre os dois lados da segunda circular, ambos bem representados, enchendo o café como nunca o vi. Sim, no meu Caramulo as grandes disputas ainda são entre o Benfica e o Sporting, no meu Caramulo as preferências futebolísticas continuam a passar de pais para filhos, eternizando rivalidades antigas, perpetuando paixões e ódios de estimação. Pais, filhos e netos que ontem se juntaram ali para assistir a um grande jogo de futebol, ali, naquele café, onde em dia de derby não há lugar para parcimónias, para falinhas mansas, contemplações ou meias-medidas. Ali grita-se alto, berra-se a plenos pulmões, salta-se da cadeira a cada golo de Cardozo, vibra-se, sente-se, vive-se futebol como se, gritando dali, do cimo da Serra do Caramulo, as vozes se ouvissem lá, em baixo no relvado. Ouviu-as Cardozo, felizmente. Patrício, esse estava longe demais.