Posts tagged “belo horizonte

Milton

Entrou casa adentro não teria eu mais de 6 ou 7 anos. Entrou ele, Chico, Gilberto, Bethânia, entraram todos, agora que se podia ouvi-los sem medo, agora que os tempos eram de liberdade. Entraram pretos, de vinil, exigindo rituais de limpeza e cuidados vários, antes de encherem a sala, antes de aplacarem a sofreguidão, sinal daqueles anos quentes. Saciada a fome, foram caindo pelo caminho, um a um, Gilberto, Bethânia, Simone. Chico, genial como poucos, manter-se-á para sempre na minha vida. Ele reaparecerá lá para 87, aprisionado numa cassete, habitando meu walkman, entretendo viagens de trem entre Coimbra-B e São Bento. Havia de voltar anos depois em forma de evocação, quando, pela primeira vez, nesse mítico bar na esquina da Aimorés com Maranhão, pedi um chopp que, ousaria dizer, serviu de água benta do meu baptismo Mineiro. Milton é pois meu padrinho. E foi a benção, o que lhe pedi ontem aqui, na cidade onde nasci. A ele que vagueou lentamente pelo palco, levitando sem lhe tocar, a ele de cuja presença duvidamos, tal o ar etéreo que o envolve, tal a distância que o separa da plateia dos mortais. Seria assim até ao final quando, descendo à terra, chegou perto o suficiente para se lhe ouvir um “Deus te abençoe”. Juro que ouvi, juro que era para mim…

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Belo Horizonte

Tudo era novo então, tudo era encanto, tudo descoberta. O ipê da Praça da Liberdade, o parque das Mangabeiras, o pão de queijo ou a coxinha de frango com catupiry da Tia Clara. A Pampulha de Burle Marx, a feira da Afonso Pena e até o JK de Óscar. O Bar Brasil, os azulejos de Portinari, o caldo de cana com pastel de banana do boteco da Tupis. Tudo era deslumbre e as paixões sucediam-se a cada esquina. O Palácio das Artes, o Parque Municipal, O nome de ilustres mineiros, uns de nascimento outros honorários, surgiam na sua boca com a proximidade íntima de velhos amigos. Corria o ano de 1992, ainda BH não era centenária, quando, ali chegando pela primeira vez se viu tomado de amores pela cidade. Pelo ambiente de metrópole, pela novidade que transformava  qualquer passeio, por insignificante que fosse, numa experiência ímpar. E foi num desses passeios ao baixo centro que, sem planos, ele recém-mineiro e ela de papel passado, entraram na Galeria Ouvidor e puseram no anelar direito uma pequena e discreta aliança. Sem cerimónia. Sem dia certo. Mas é esse dia acertado, mais do que qualquer outro de que ele se lembra, a cada regresso…

(Nota: inaugurada a  12 de Dezembro de 1897, Belo Horizonte está hoje de parabéns pelos seus 114 anos…)


trânsito

Impressiona o trânsito de Belo Horizonte. O volume, o frenesim, a anarquia, a quase ausência de regras, que atingem o seu climax na hora de mudar de direcção. Mudanças de direcção sem sinal, viradas surpreendentes cruzando várias faixas são normais. E aparentemente são encaradas como tal. Nas passadeiras, então, a ordem é seguir em frente, salvo se não se conseguir por nenhum outro meio fugir ao atropelamento iminente. Impressiona-me o trânsito de Belo Horizonte. A quase ausência de acidentes, toques, grandes ou pequenos, ou atropelamentos. É como se a anarquia realmente funcionasse. Como se, perante a inevitabilidade da infracção alheia, todos adoptassem postura previdente e cautelosa. Ajuda, evidentemente, a tradição de inexistência ou ineficiência dos seguros, levando a que, em caso de acidente seja cada um por si. No fundo é como se a imperfeição do sistema fosse a razão para o seu bom funcionamento. Como se da imprevisibilidade reinante nascesse uma nova ordem, efectivamente auto-regulada. É como se a anarquia tivesse encontrado terreno fértil, nas ruas de Belo Horizonte, como se, pelo menos aqui, ela realmente funcionasse…


Mariana

Há coisas que não mudam, coisas a que, por muito que o tempo passe não passa o encanto. Ouro Preto, mítica capital de Minas Gerais, é uma delas. Ali voltei depois de uma longa ausência de 19 anos, ali voltei para pisar as calçadas de Vila Rica, para seguir os insurrectos caminhos da Inconfidência Mineira, ali voltei com o firme propósito de me demorar nos corredores do Museu de Mineralogia, de me sentar na mesa da magnífica Casa do Ouvidor, de vaguear sem rumo por entre repúblicas e vendedores de pedras preciosas. Assim foi, contemplando com evidente fascínio a vasta exposição de águas marinhas e topázios, turmalinas e ametistas, sorrindo ao encontrar uma biotite, pedra parideira oriunda de “Aráuca, Portugal”. Assim foi, ao repetir todos os passos que, ao acaso, me levaram há 19 anos às escadas que dão acesso à Casa do Ouvidor, ao constatar que tudo naquela sala continua igual, tradicional e mineiro como o divino tutu que, não fora a impossibilidade temporal, e poderia jurar ser o mesmo de então. Para rematar a jornada um reconfortante chá de fim de tarde na Pousada Casa Grande, antecipando o dia seguinte reservado a Mariana. Há coisas que não mudam e, admitindo que Mariana está entre elas, mudei eu, mudaram os tempos, mudaram-se as vontades. Mudou a imagem que tinha da primeira cidade Mineira, que surgiu agora, ordenada e preservada, encantadora e histórica, monumental e com personalidade bem vincada. Livre da omnipresença de Tiradentes e da Inconfidência Mineira, perdido o estatuto de capital do Estado para Vila Rica, Mariana manteve como poucas a dimensão e o encanto de cidade de interior, com ruas vivas, praças cheias de maritacas e de ipês, belas igrejas coloniais e um pelourinho desenterrado do esquecimento a que foi votado aquando da abolição da escravatura e reerguido novamente, retomando a sua pose autoritária. Mas há coisas que não mudam, e uma delas é a obrigatoriedade do regresso. Para trás, o Itacolomi deleitava-se com os últimos raios do sol de inverno. Adiante a noite ia caindo sobre a centenária capital das Geraes, destino último dos meus regressos. Porque há coisas que não mudam…


luso-brasileiro-qualquer-coisa

Nasci Tripeiro. Filho de Beirões.

A infância, essa foi no Caramulo.

E a adolescência em Matosinhos.

Um ano em Coimbra e Porto, novamente.

Aí, a Avenida dos Aliados cruza-se com a Afonso Pena.

Belo Horizonte chega à Invicta.

E eu a Minas.

Desde então sofro com as desgraças do Atlético, como vibro com as vitórias do Benfica.

Como tripas-à-moda-do-Porto, com saudade do feijão-tropeiro.

Subo à Serra do Curral esperando avistar a Foz do Douro.

Misturo cerveja Sagres com cachaça Perdizes.

Minha vida é esta: subir a Boavista e descer a Floresta…