Posts tagged “Açores

Weekly Photo Challenge: Green

Dos lugares recordo cheiros, sabores, mas guardo sobretudo cores. Do meu Porto guardo o cinzento majestoso e humilde do medievo granito. De Minas recordarei sempre o exuberante vermelho do minério de ferro. De Lisboa acompanha-me o branco que lhe dá o Sol, que o Tejo reflecte. Os Açores, esses surgem sempre que de verde se trata. Os Açores, esses são o próprio verde. Sejam os campos de chá da Gorreana, sejam os verdes pastos que cobrem São Miguel ou os bosques que guardam a lagoa de«o Congro. Sim, é dos Açores que falo quando o tema é o verde…

(São Miguel 2011)

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São Miguel

5 anos depois regressei aos Açores, regressei a São Miguel, à ilha onde tinha estado em trabalho e que apenas pude ver por breves horas, suficientes, no entanto, para deixar a certeza de que voltaria a aterrar em Ponta Delgada.
E foi assim que voltei, na noite de sexta-feira. No sábado, Ponta Delgada, capital da ilha e do arquipélago. Decepção moderada, pela segunda vez. Falta-lhe o tempo, o espírito, o ar colonial de Vila Franca do Campo e, imagino, de Angra do Heroísmo. Salvou-se o bife do Aliança, divino, acompanhado pela surpreendente Kima maracujá…
Tempo de rumar, por entre chuviscos, abertas e nevoeiro para a inevitável Lagoa das Sete Cidades que apenas consegui ver a espaços. Suficiente para deixar no ar a suspeita de que o trono da Lagoa do Fogo estará a salvo.
Finalmente a Ponta da Ferraria, imponente no seu preto vulcânico, fazendo o Atlântico aparecer majestosamente azul a seus pés.
Segundo dia, tempo de subir à Lagoa do Fogo, deslumbrante e misteriosa, segura de ser a mais bela da ilha, certa de que depois dela será sempre a descer. Durou pouco a descida, durou até à Caldeira Velha que surge com suas águas quentes por entre a vegetação verde e luxuriante, que julgamos possível apenas noutras latitudes. Depois tempo de retemperar forças em Porto Formoso, com o inevitável chá Gorreana, representando a capacidade de sobrevivência e de adaptação dos Açorianos depois de uma catástrofe. Desta feita a doença que no Sec. XIX dizimou os prósperos laranjais Micaelenses, forçando a procura de alternativas. Recuperadas as forças, tempo para retomar uma grata recordação da minha primeira visita à ilha, tempo para o almoço em Santana, na Associação Agrícola de São Miguel, tempo para um bife de lombo com molho de queijo da ilha, perfeito, fazendo justiça ao anunciado lema “do prado para a mesa”…
Para a digestão nada como as águas das fumarolas das Furnas, brotando sulfurosas do chão, debaixo dos nossos pés, canalizadas para fontes onde se podem provar, ora azedas, ora férreas, mas sempre malcheirosas, sempre estranhas ao paladar. Não consegui repetir desta feita a maçaroca de milho cozida em plena fumarola com que me delicei há 5 anos. Paragem final na misteriosa lagoa das Furnas, com o seu campo de fumarolas onde se faz o famoso cozido, enterrado no chão quente e borbulhante.
Terceiro dia, segunda oportunidade para a Lagoa das Sete Cidades se redimir, mostrando-se brilhante como nos postais ilustrados da ilha. Em vão, pois o melhor que consegui foi um rápido vislumbre desde o magnífico Pico da Lagoa do Canário, antes do nevoeiro devorar a paisagem. Depois rumo ao Nordeste, com magníficas vistas sobre o Atlântico, culminando com a vista do Farol do Arnel. Antes, a surpresa da cachoeira da majestosa Ribeira dos Caldeirões, depois, a magnífica vista sobre o vale verdejante que termina na Povoação, que termina no Atlântico, como quase tudo na ilha…
Finalmente o quarto dia, dia de Entrudo, dia em que Ponta Delgada e a sua guerra das Limas é de evitar, dia que parecia condenado ao tédio. Nada mais falso, nada mais enganador. E a certeza de que assim seria, começou quando avistámos a casa que Thomas Hickling, vice-cônsul dos Estados Unidos para as ilhas de São Miguel e Santa Maria construiu nas furnas, com um enorme lago de águas castanhas e quentes a seus pés. Depois o demorado mergulho nessa água, que o frio do ar e o vento forte faziam paradisíacas e irresistíveis, seguido do passeio pelos jardins magníficos do agora chamado Parque de Terra Nostra. Depois disso o último regresso a Ponta Delgada, não sem antes ceder a uma última tentação, a um último desvio, em direcção à Lagoa do Congro. Em boa hora o fiz, pois dali veio a surpresa da viagem, revelada aos poucos, enquanto o caminho serpenteava por entre a vegetação densa e húmida, enquanto descia a encosta em direcção à água que se via apenas a espaços, que ficava mais perto à medida em que a luz se escondia entre a folhagem. Finalmente a prometida lagoa, deixando-se ver apenas com os pés molhados, cercada de paredes verticais e densamente arborizadas, ocupando o lugar que outrora foi cratera de vulcão. Por fim a subida, o regresso, longo e vagaroso para recuperar o fôlego perdido, para saborear a vista. Para fechar em grande esta visita. Para abrir o apetite para a próxima…

o Açor



Pedro Pauleta nunca foi, para mim, mais do que um jogador vagamente interessante. Nunca percebi o que Scolari via nele, sempre achei teimosia Gaúcha a sua titularidade,  cega e obstinada. Não entendi a veneração de que era alvo em França, vendo com estupefação a sua eleição como melhor jogador de sempre do Paris Saint-Germain.

Era eficaz, não há como negá-lo, foi eficaz em todos os clubes por onde passou, desde o Estoril-Praia ao Bordéus, do Depor ao Paris Saint-Germain. Mas via-o apenas como isso: eficaz.

E, sabemos todos, não basta ser eficaz para ser um ídolo, não basta ser virtuoso, veloz ou forte para ser uma lenda. Para isso há que ser maior do que um hectare, há que superar o jogo, ser lembrado por mais do que um belo golo, por mais do que qualquer vitória, por maior que seja.

E Pauleta foi lembrado, a uma mesa de jantar, nas palavras embevecidas e graves de alguém que muito prezo. Não por qualquer golo, não por qualquer jogo, toque ou malabarismo. Foi lembrado por ser Açoriano. Por representar a superação para todo um povo. Por chegar onde nenhum Micaelense julgou ser possível, onde nenhum Terceirense jamais ousou sonhar. Por chegar à Selecção Portuguesa, por ser todos os Açorianos a envergar aquela camisola.

Por voltar aos Açores, por voltar a jogar aos 38 anos, pelo Desportivo de São Roque no campeonato de São Miguel.

Por tudo isso olho hoje para Pauleta de forma diferente, entendo agora o que de notável teve a sua carreira. Entendo finalmente porque é merecidamente um ídolo.

E sinto subitamente vontade de rever o voo do Açor, com que comemorava os seus inúmeros golos. Com a camisola do São Roque, desta feita…