II Nápoles

Foi Nápoles a desgraça de Diego Armando. Decadente e suja, mafiosa e perversa. Devoto de Maradona, chegara à Piazza Garibaldi com baixas expectativas. Seria a cidade sobretudo um posto avançado para, usando a Circumvesuviana, chegar às míticas Herculano e Pompeia. Foi assim que, passando Porta Nolana, se dirigiu a Castel Nuovo, seguindo o caminho mais recto, passando por vielas sujas e praças decadentes, roupa nas janelas, construções caóticas e futebol de rua, futebol como lixo, por todo o lado. Mas é curva a arte do futebol, chapéu, trivela, livre em arco, passe de letra. Como é tudo menos linear a trajectória de um 10 genial, com tempos negros e momentos de glória. É curvo também, o golfo de Nápoles, fazendo suceder aleatóriamente beleza e decadência, esplendor e pretenciosismo, ordenamento e caos. Foi assim que, encontrando fechada a pizzaria onde pretendia retemperar energias entretanto esgotadas pelos intermináveis passeios, deu de cara com a mítica Da Michele. Não fazia questão de ali ir, detestara o filme onde Julia Roberts comera a lendária Margherita. Mas, naquele momento, achou melhor não desafiar o capricho do destino que o levara àquela porta discreta. Em boa hora o fez, pois não sendo a melhor pizza que comeu, longe disso aliás, foi a mais surpreendente. Desarmante na simplicidade, única no gosto, encantadoramente enquadrada no ambiente informal e familiar, com retratos de família que, desde 1870, se ocupava daquele singelo e mágico forno. Talvez volte a Nápoles, talvez. À Da Michele voltará. Assim queira o destino caprichoso…

(Quis o destino que escrevesse este texto no dia de aniversário de Pablo Aimar, outro mítico 10, o melhor que vestiu de águia ao peito. Parabéns a ele…)

Anúncios

Mengo

Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte:- quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas, tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.

Nelson Rodrigues

(na impossibilidade de comparecer hoje na cidade maravilhosa para uma tentadora feijoada, deixo as palavras de Nelson Rodrigues, em jeito de agradecimento pelo convite…)

Fortaleza

De Fortaleza guardo a vista do mar. Sim, a vista é de cidade turística, de um certo turismo, que vive de passeios na marginal, praias urbanas e noites animadas, de costas voltadas para a cidade, no fundo. Entende-se, quando a cidade oscila entre a ostentação de prédios de 20 andares, e deprimentes barracas, de acrescentos e anexos, crescendo paredes-meias com as piscinas, quadras e elegantes áreas sociais. Entende-se, quando a presença de segurança é intimidatória, evidente nos  gorilas à porta dos restaurantes, como nos ameaçadores cães-de-guarda distribuídos ao anoitecer a guardas plantados à porta dos edifícios de luxo. Entende-se quando o que não falta são sinais da omissão do estado, patente na insegurança caótica de bairros como o titãzinho ou mesmo na Praia do Futuro. Ou a incúria que permite o abandono de velhos navios ao largo, deixados à sua sorte e aos elementos. Fico-me pois pela vista de longe, do barco que passeia ao largo da cidade, evitando destroços metálicos colossais, que o tempo vai apagando…

Mariana

Há coisas que não mudam, coisas a que, por muito que o tempo passe não passa o encanto. Ouro Preto, mítica capital de Minas Gerais, é uma delas. Ali voltei depois de uma longa ausência de 19 anos, ali voltei para pisar as calçadas de Vila Rica, para seguir os insurrectos caminhos da Inconfidência Mineira, ali voltei com o firme propósito de me demorar nos corredores do Museu de Mineralogia, de me sentar na mesa da magnífica Casa do Ouvidor, de vaguear sem rumo por entre repúblicas e vendedores de pedras preciosas. Assim foi, contemplando com evidente fascínio a vasta exposição de águas marinhas e topázios, turmalinas e ametistas, sorrindo ao encontrar uma biotite, pedra parideira oriunda de “Aráuca, Portugal”. Assim foi, ao repetir todos os passos que, ao acaso, me levaram há 19 anos às escadas que dão acesso à Casa do Ouvidor, ao constatar que tudo naquela sala continua igual, tradicional e mineiro como o divino tutu que, não fora a impossibilidade temporal, e poderia jurar ser o mesmo de então. Para rematar a jornada um reconfortante chá de fim de tarde na Pousada Casa Grande, antecipando o dia seguinte reservado a Mariana. Há coisas que não mudam e, admitindo que Mariana está entre elas, mudei eu, mudaram os tempos, mudaram-se as vontades. Mudou a imagem que tinha da primeira cidade Mineira, que surgiu agora, ordenada e preservada, encantadora e histórica, monumental e com personalidade bem vincada. Livre da omnipresença de Tiradentes e da Inconfidência Mineira, perdido o estatuto de capital do Estado para Vila Rica, Mariana manteve como poucas a dimensão e o encanto de cidade de interior, com ruas vivas, praças cheias de maritacas e de ipês, belas igrejas coloniais e um pelourinho desenterrado do esquecimento a que foi votado aquando da abolição da escravatura e reerguido novamente, retomando a sua pose autoritária. Mas há coisas que não mudam, e uma delas é a obrigatoriedade do regresso. Para trás, o Itacolomi deleitava-se com os últimos raios do sol de inverno. Adiante a noite ia caindo sobre a centenária capital das Geraes, destino último dos meus regressos. Porque há coisas que não mudam…

Emporium

Ao Emporium Mineiro chega-se subindo a Afonso Pena, subindo a Serra do Curral. Ao restaurante chega-se por um acolhedor beco ladeado por típicas construções mineiras, um bar convidando à prova de cachaças, um armazém, levantando a ponta do véu para a típica cozinha mineira que se avizinha. Ao fundo, a sala, acolhedora e informal, telheiro assente em paredes cheias de recordações do passado ou vislumbres do futuro. Ali convivem fotografias antigas, portas pesadas com prateleiras cheias de ovos de codorna, pimenta de bico prometendo encantos futuros, ou enormes tachos por onde passaram as muitas compotas e doces que ali nos esperam. Às mesas, enormes e convidativas, chega em primeiro lugar o papo solto, seguido da generosa cerveja Bohemia, solta também, acompanhada aqui e ali por cachaça bem mineira. O obrigatório pão-de-queijo e o irresistível torresminho fazem o seu caminho até à mesa, onde solta segue a conversa. Depois o perfeito e omnipresente feijão tropeiro que, quando acompanhado por um belo pernil assado, merece a classificação de património imorredouro da humanidade. Para fechar, doce de leite, queijo minas e um indescritível doce de goiaba que, imagino, terá passado por sábias mãos mineiras guardiãs de segredos que circulam entre gerações desde os tempos de Curral D’El Rei. Por fim, ainda rolava solta a conversa, impôs-se o aromático café recém-passado, que quero crer vindo do norte de Minas, pedindo o muito Português hábito do cheirinho. Desta feita com um pouco da honestíssima Vale Verde, encerrando em beleza o almoço. Já na rua, na Afonso Pena, já o sol se preparava para desaparecer, tornando dourada a Serra, e ainda a conversa não dava sinais de fraqueza. Mas a hora era de descer rumo ao centro, passando por ipês floridos, vendo ao longe os despojos do dia, restos da feira que anima a cidade, todos os domingos de manhã…

de Portugal e dos Algarves…

Tenho com o Algarve estival uma relação estranha. Paixão-ódio, amor-irritação, admiração-desdém, algo assim, algo que nasce ao atravessar as áridas serras, quase desumanas em que pequenas casas espreitam por entre a vegetação rasteira, algo que cresce ao descer em direcção a esse Atlântico pré-mediterrânico, por entre  desmandos de toda a sorte, por entre depressões urbanísticas. E sempre a vegetação irritante, rasteira e seca, e sempre o ar, quente e árabe. E com que rapidez se desce, com que rapidez se deseja a Ria, Formosa e Algarvia, essa Ria, dos pernilongos e pelicanos, das conquilhas e do lingueirão. Dos dias tórridos e lânguidos fins-de-tarde. Das sardinhas, do Costa da Fábrica e da Cacela Velha. Da irresistível Albufeira, da velha cidadela de Faro. De Sagres mítica. Dos Dom Rodrigos e da Amêndoa Amarga. Do São João de Tavira, do chão juncado de hortelã, do aromático ar da noite quente.
É assim o meu Algarve.
Ora bolas sem creme, ora conquilhas com alho…

Parabéns…

Aqui cheguei saltando de blog em blog, de recomendação em recomendação. Em boa hora, pois desde então as duas Fridas foram conquistando um pouco do meu tempo um tanto da minha atenção, uma parte da minha rotina. Como conquistaram justamente um espaço aqui ao lado, na coluna do “vale a pena”. Porque, garanto-vos, vale mesmo a visita. Por tudo isso e por muito mais não podia deixar passar esta data festiva sem deixar os meus sinceros parabéns! E o desejo de que contem por muitos os anos de existência…

 

 

Páscoa

A Páscoa era, mais do que o Natal, tempo de regresso no Caramulo. A decadência dos Sanatórios levara muitos a procurar sorte fora da Serra, Porto, Lisboa ou outras paragens mais distantes. Mas este era o tempo do regresso, em que se reencontravam primos distantes, velhos amigos, era este o Domingo em que as ruas do Povo, o núcleo original das Paredes do Guardão, se enchiam, era este o Domingo em que se encontrava o Compasso em cada esquina. Em que o Abade saía com os seus melhores paramentos, em que entrava em casa de todos os paroquianos ansiosos pela visita Pascal. Na nossa casa entrava já o Sol tinha desaparecido atrás do Caramulinho, já noitinha, já cansado da longa jornada. Nem por isso deixava de dizer umas palavras simpáticas, alusivas ao dia da Ressurreição de Cristo. Naquele ano referiu-se à sapiência divina, ao fazer coincidir a Páscoa com a Primavera, “tempo de renascimento”. Palavras a que todos acenaram, certos de que era de facto prova de harmonia divina. Todos menos a Ana que, estupefacta, lembrava o Outono que então dourava a Páscoa em Minas…