Rubinho

Na última vez que falei com o Rubinho, prometi-lhe que iríamos à Luz ver o Benfica. Que nos emocionaríamos com o voo da Águia e com a estátua de Eusébio, que talvez parássemos no Alto dos Moínhos, para uma bifana e uma cerveja. Talvez. E que certamente sentiríamos aquele frio na barriga ao finalmente avistar o relvado, ao ouvir o hino.

“Ser Benfiquista é ter na alma a chama imensa…”

Rubinho tinha essa chama imensa. Esse peito aberto com que enfrentou  desventuras várias, com que enfrentava mais uma vez a doença que voltava a fechar o cerco. Rubinho era do Atlético Mineiro, o clube que escolhi como meu, quando a hora de decidir chegou. Escolhi-o por ser o time da massa, o clube popular, sem distinção de classe ou cor. Como o Benfica, no fundo. E talvez tenha sido por isso, por essa semelhança, que o Rubinho caiu de amores pelo Glorioso. Por isso lhe prometi que sim, que iríamos juntos à Luz.

Anos antes foi o Rubinho quem me levou ao Independência, em Belo Horizonte, para ver Ronaldinho Gaúcho jogando com a camiseta do Atlético. Ronaldinho, já na fase descendente da sua carreira, chegara ao Horto meses antes, provocando uma pequena revolução no clube. O Atlético navegava em águas agitadas há largos anos, oscilando entre o meio da tabela do Brasileirão, e a angústia das últimas jornadas. Tinha, inclusivé, militado na Série B recentemente. A chegada do Génio elevou de forma espectacular o nível de exigência e ambição, do que resultou uma campanha épica na Taça dos Libertadores da América, que acabou por conquistar. Foi com ele, com Rubinho que ,nas bancadas do Horto, vi o génio de Ronaldinho, o toque de bola, a finta de corpo, o gingado. E o sorriso, sobretudo esse sorriso que era a sua imagem de marca.

Era justo, pois, que tivesse retribuído o gesto, que lhe tivesse mostrado Jonas, o toque de génio de Jonas, a inteligência, a visão de jogo. O golo. Que tivéssemos trocado um abraço aquando de um qualquer golo de Jonas.

Hoje começa para o Benfica a época 2019/20. Sem Jonas, que resolveu que era chegada a hora de parar. Mas sobretudo sem Rubinho.

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O meu Benfica

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Não, não vi Eusébio jogar, e não, não fui ao Estádio da Luz em tenra idade. Nasci no Porto e cedo regressei ao Caramulo dos meus pais, onde passaria a minha meninice e adolescência jogando à bola em todos os cantos em que me era possível, do trapezoidal pátio do velho sanatório construído por meu avô até ao recreio da escola primária com icónicos cubos de granito em vez de balizas. Ou no adro do cemitério, o que obrigava não raras vezes a saltar o alto portão para resgatar a bola de entre as campas. No pequeno parque que viria a ser o recinto da festa de Santa Margarida, fintando árvores e driblando raízes, marcando golos em balizas imaginárias. Sim, o meu futebol era o que se jogava na rua, o futebol dos amigos, dos colegas, dos companheiros. E esses eram invariavelmente do Benfica ou do Sporting. Apenas esses tinham dimensão nacional, apenas esses atravessavam o vale subiam à serra, apenas esses. Ser do Porto, do meu Porto natal, seria ser tão bairrista como escolher o Académico de Viseu por critérios de proximidade. Tão exótico como ser do Belenenses. Ou do Leixões. Seria um grito de diferença, uma necessidade imperiosa de afirmação. De confronto. Não, a minha escolha foram os amigos, companheiros de bola e de joelhos esmurrados. Foi o Jorge e o Chico. Foi o meu Pai, Benfiquista discreto e sensato. A minha escolha foram os afectos, as pessoas. E é esse o meu Benfica. Dos companheiros de bancada, ou de mesa de café, dos amigos, de aquém e além mar, da Escócia da Sofia ao Brasil de Rubinho, da Bragança do Blitz a Angra do Heroísmo do Capareira. De Fernando, meu pai, a Luísa, minha filha. É esse o Benfica que, antes de ser escolha minha, me acolheu. De braços abertos.

fim de linha

Sim, o caminho já foi o inverso, o da concentração de todos os meus posts num único blog. Mas, sobretudo por causa do Weekly Photo Challenge, a fotografia trouxe ao lanchonete novos visitantes, novos seguidores interessados quase exclusivamente em fotografia. Além disso, a sua origem geográfica é dispersa, mantendo em comum o desconhecimento quase completo da língua Portuguesa. Chegado aqui julgo não fazer muito sentido manter sob o mesmo tecto textos sobre futebol, viagens, família e amigos, e as fotografias que, passo a passo, conquistaram um espaço especial. Assim nasceu o novo rolleicord35.wordpress.com onde postarei exclusivamente fotografias. Espero que visitem, espero que gostem. E que não se esqueçam da lanchonete, que  continuará aberta, servindo as especialidades do costume…

For the non-portuguese followers and visitors, please read:

http://rolleicord35.wordpress.com/2013/01/06/weekly-photo-challenge-resolved/

Catalunya

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(bife na frigideira com ovo a cavalo, Cervejaria Edmundo, Benfica, Lisboa)

Prometia ser Catalão, este final de 2012. Anunciava-se então a alvorada de um novo estado Europeu, esperava-se que a imparável vaga de fundo independentista reduzisse a escombros a unidade Española, via-se já Artur Mas, messiânico, clamando o irreversível caminho para a independência da Catalunya. Semanas depois e o ano voltaria a prometer uma inequívoca afirmação da superioridade Catalã, desta feita em Camp Nou, desta vez com os Culés entusiasmados com o tiki-taka a celebrarem a goleada ao Benfica. Com ou sem Messi esperava-se o massacre dos Portugueses que, quais bárbaros desvairados, correriam desesperados atrás da bola, propriedade exclusiva da equipa blaugrana.
Não foi assim e Artur Mas conseguiu uma vitória de Pirro, adiando a questão da independência para as calendas gregas, Não foi assim e o Barcelona seguraria um sofrido nulo frente a um Benfica apenas sofrível, adiando a afirmação do tiki-taka como sistema independente do onze em campo. Não é, não foi, senão a espaços e de forma absolutamente inofensiva. A confirmá-lo está a única defesa de Artur, a confirmá-lo estão os recorrentes falhanços de Lima, Rodrigo e Ola John, a noite tranquila de Melgarejo, a aventura de Luisão a ponta-de-lança. Assim se encaminha o ano para o fim. Com a Canaluña em España, como deve ser. Com o Benfica na Liga Europa, que é no fundo onde pode ter sucesso.

Weekly Photo Challenge: Green

Dos lugares recordo cheiros, sabores, mas guardo sobretudo cores. Do meu Porto guardo o cinzento majestoso e humilde do medievo granito. De Minas recordarei sempre o exuberante vermelho do minério de ferro. De Lisboa acompanha-me o branco que lhe dá o Sol, que o Tejo reflecte. Os Açores, esses surgem sempre que de verde se trata. Os Açores, esses são o próprio verde. Sejam os campos de chá da Gorreana, sejam os verdes pastos que cobrem São Miguel ou os bosques que guardam a lagoa de«o Congro. Sim, é dos Açores que falo quando o tema é o verde…

(São Miguel 2011)

de Istambul e outras paragens

Em frente, a altiva Gálata entre o Bósforo e o Corno de Ouro. Para trás Mármara. Ali chegava, vindo de Ephesus, seguindo o mesmo trajecto marítimo que, séculos antes, algumas colunas do templo de Artemisa terão feito. Hagia Sophia, era pois o seu destino, e era para lá que se dirigia quando por momentos se deteve no antigo hipódromo da cidade. Ali mais testemunhos de outras paragens, desta feita parte de uma coluna piramidal trazida do templo de Karnak, em Luxor. Mais à frente a coluna serpentina, trípode de Plateias trazida do templo de Apolo em Delfos e cuja bola dourada que a encabeçava terá sido por sua vez saqueada durante a Quarta Cruzada. Ali mesmo, ladeando a agora Praça Sultanahmet Meydanı, os seis minaretes da Mesquita Azul cumprem a sua missão de chamamento, tornando inevitável uma visita. A entrada faz-se pelo pátio frontal, que, rematado nos cantos com quatro dos minaretes da mesquita, faz parecer lógica a escolha invulgar de seis torres onde os muezim, cinco vezes por dia, iniciariam o chamamento à oração com a frase Allah hu Akbar. De facto, reza a lenda, o Sultão Ahmed I teria ordenado a construção de uma mesquita com 4 minaretes em ouro, ordem essa que, transmitida de forma oral, foi percebida como sendo para construir o complexo com seis torres. Regressado de uma longa ausência em batalha, a ira ter-se-à apossado do Sultão que, ao ver desrespeitadas as suas ordens ordenou o castigo imediato do Arquitecto responsável. Hesitou, porém, e, rendido à beleza do interior da mesquita terá recuado no castigo, reabilitado o autor de semelhante ousadia. Passado o pátio, confirma-se o porquê da deslumbramento de Ahmed. Os ajulezos, que com os seus desenhos florais repetitivos e azuis baptizam a mesquita, conferem ao seu espaço imenso uma leveza e serenidades insuperáveis, sobretudo quando beijados pela luz diáfana que invade o templo. Aí se quedou, deslumbrado pela paz da mesquita, quase esquecendo o propósito primeiro da viagem. Dias antes, chegara a Izmir, celebrava-se então a ascensão da Virgem Maria. a mãe de Jesus teria sido trazida por João para Ephesus, a poucos quilómetros dali terminando lá os seus dias terrenos. Dirigiu-se, pois a Ephesus, pretendendo visitar a sua última morada. A afluência de peregrinos, no entanto, desviara o seu rumo para as ruínas da cidade. Desta cidade, outrora uma das maiores do mundo, reteve, maravilhado, a antiga biblioteca de Celso, da qual resta a impressionante fachada, e o teatro grego, ao qual falta apenas o Egeu que, entretanto recuado para longe, outrora beijava a via portuária por detrás. Mas foi a solitária coluna que resta do templo de Artemis que o havia de levar a Istambul, a Hagia Sophia, que agora mira. Na entrada os vestígios da segunda edificação, destruída pela revolta popular de 532 contra Justiniano. À frente, a nova basílica, mandada construir pelo mesmo Imperador, uma vez dominada a rebelião, e que se manteria como o maior templo do mundo até à conclusão da catedral de Sevilha, em 1520. Lá dentro impressiona a dimensão majestosa da cúpula, suportada por uma intrincada estrutura de base da qual fazem parte precisamente as quatro colunas de Ephesus, razão da sua presença em Istambul. Saindo, é impossível não reparar na entrada de Topkapi, luxuosa residência dos sultões otomanos. Escolhida entretanto para Albergar o tesouro dos sucessivos Sultões, deixado para trás por Mehmed VI, exilado aquando da implantação da república por Mustafa Kemal. Entre esse tesouro estão várias relíquias de Maomé, o Profeta, deixando esperar uma forte carga religiosa. Não é assim, e o ambiente é essencialmente laico, sobressaindo a beleza do espaço e a vista sobre a cidade, o Corno de Ouro e o Bósforo. Depois de um merecido repouso nos jardins, mirando a outrora Constantinopla, é agora tempo para uma visita ao grande Bazar, imensa sucessão labiríntica de pequenas lojas, e seus insistentes vendedores. Tempo para um café turco. O destino seguinte que o decidam as borras…

Warsteiner

Antes de rumar a Frankfurt, uma rápida consulta ao livro do Francisco José Viegas com o objectivo de decidir que cervejas escolher por terras alemãs. Do índice constam apenas as famosas Spaten e Warsteiner. Referências escassas mas elogiosas, em todo o caso. Da Warsteiner retive aliás o facto de, apesar de mundialmente conhecida não ser autorizada a sua produção “sob licença” fora de solo Alemão, recusando a banalização, provando que nem tudo pode a globalização, nem tudo pode o mercado. Venha essa cerveja, então, enquanto Frankfurt é ainda uma miragem, enquanto o céu é ainda Francês. Chegou e triunfou, com o seu dourado perfeito, com o seu sabor amargo, tão subtil quanto insinuante, tão discreto quanto sedutor. Revelou-se perfeita para, quem diria, acompanhar uma espécie de canolli de caril servido pela lufthansa, aos viajantes que certamente sonhavam já com tradicional schweinshaxe estaladiço que só às margens do Main se encontra. Já o caril havia desaparecido, já a cerveja ia no fim quando um arrepio se impôs, vindo do rótulo da Warsteiner. Afinal o que mais senão um arrepio pode provocar a evocação de uma German Purity Law, ainda que seja de cervejas do que se fala aqui?…

Quinzena

Já a manhã de quarta-feira ia alta quando, deixando para trás o centro histórico da Capital do Gótico Português, chegou à taberna do Quinzena. Chegou mão dada com uma promessa, de uma mistura única de sabores só possível naquele planalto fortificado sobre o majestoso Tejo. Um mangusto, especialidade escalabitana que, prometendo acompanhar com garbo um muy clássico bacalhau assado, é servida apenas à segunda-feira. Não chegou a ser decepção, pois a notícia ouviu-a ainda extasiado pela decoração, feita de cartazes amarelecidos e fotografias da festa brava, de touros e toureiros, de velhas glórias e novas promessas. Deliciado ainda pelo mobiliário, pelos bancos grosseiros, daqueles com um providencial buraco no centro, pelas mesas, quadradas com tampo de mármore nobre na sua alvura. Cobrindo-as toalhas coloridas e a baixela, pratos de barro e pequenos copos, bem típicos de uma taberna de outrora. Não havendo mangusto a escolha recaiu sobre umas perfeitas plumas de porco preto que, grelhadas no ponto, com sal a preceito, têm o condão de lembrar as velhas manhãs de domingo da sua infância em que, ajudando ao desmanche do porco, provava as primeiras carnes, atiradas para as brasas apenas com sal grosso como companhia. Antes disso, já um surpreendente prato de ovos mexidos com farinheira se havia revelado prémio suficiente para justificar a deslocação a Sul. Para terminar em beleza, copos de dedal e uma selha cheia de garrafas variadas, incluindo um competente licor de poejo e uma luminosa aguardente velha. Saciado, saiu pelas portas de vai-e-vem que adivinha ali desde o início dos tempos. Saiu com a certeza do regresso, a Santarém e à Taberna do Quinzena, para um mangusto ou para qualquer outra iguaria, pouco importa.