foto da semana I

 Faltando-me as palavras, e faltam nesta era de desalento, não há-de faltar-me a fotografia. Aqui as deixarei, ao ritmo de uma por semana, é uma promessa. E é para cumprir. Assim não me faltem leitores…(“manif 2.0” – Avenida dos Aliados, Porto, durante a manifestação de 15 de Setembro de 2012)

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arquitecto

Não fossem as lâmpadas e fios de cobre e estaria agora entre lápis e papeis. Não fosse o conjunto didático que recebi da minha mãe em tenra idade e estaria agora debruçado sobre um estirador. Não fosse a engenharia e seria provavelmente arquitecto.
Não sou, e por isso se foram os espaços, formas, vazios e volumes. Não totalmente, no entanto. É que, não me saindo das mãos, vão me entrando pelos olhos, não as fazendo de carvão, fixo-as em sais de prata. E estes, dispostos a preceito sobre um fino suporte de triacetato de celulose, chegaram-me pelas mãos do meu pai. Em bom tempo, pois graças a eles, graças a ele, guardo comigo portas, janelas, paredes, espaços, rampas, formas, escadas. Prevaleceu, no fundo, a engenharia oferecida pela minha mãe. A arquitectura, essa sobreviveu graças ao presente do meu pai…

Milton

Entrou casa adentro não teria eu mais de 6 ou 7 anos. Entrou ele, Chico, Gilberto, Bethânia, entraram todos, agora que se podia ouvi-los sem medo, agora que os tempos eram de liberdade. Entraram pretos, de vinil, exigindo rituais de limpeza e cuidados vários, antes de encherem a sala, antes de aplacarem a sofreguidão, sinal daqueles anos quentes. Saciada a fome, foram caindo pelo caminho, um a um, Gilberto, Bethânia, Simone. Chico, genial como poucos, manter-se-á para sempre na minha vida. Ele reaparecerá lá para 87, aprisionado numa cassete, habitando meu walkman, entretendo viagens de trem entre Coimbra-B e São Bento. Havia de voltar anos depois em forma de evocação, quando, pela primeira vez, nesse mítico bar na esquina da Aimorés com Maranhão, pedi um chopp que, ousaria dizer, serviu de água benta do meu baptismo Mineiro. Milton é pois meu padrinho. E foi a benção, o que lhe pedi ontem aqui, na cidade onde nasci. A ele que vagueou lentamente pelo palco, levitando sem lhe tocar, a ele de cuja presença duvidamos, tal o ar etéreo que o envolve, tal a distância que o separa da plateia dos mortais. Seria assim até ao final quando, descendo à terra, chegou perto o suficiente para se lhe ouvir um “Deus te abençoe”. Juro que ouvi, juro que era para mim…

a fuga

Fugia a estas imagens, fugia de fotografias invasivas, fotografias que, corrompendo irremediavelmente o momento, o faziam parecer plástico, pouco autêntico, artificial. Impuro. Fugia de fotografias fáceis, clichés coloridos, com pores-do-sol, mares e areia, abraços ou contemplações. Mesmo da cor lhe apetecia fugir, dos tons quentes e alaranjados, das nuvens, coqueiros ou luas. Fugia. Mas não dali, não daquele momento. Daquele estrado de madeira apontando irremediavelmente o sol posto, daquela conversa cúmplice, daquele beijo adivinhado, daquele fim-de-tarde de um qualquer Maio, na Foz do Douro, daquele gigantesco pastiche não conseguiu ele fugir…

Queima do Judas

Voltava a Tondela anos mais tarde, voltava para ver a Queima do Judas. O que agora era um famoso espectáculo começara por ser uma simples cerimónia com um rudimentar boneco que, representando o discípulo caído em desgraça, era queimado até à apoteótica explosão da sua cabeça deixar em delírio os Tondelenses. A festa ficava a cargo de um tal de “Mau- Mau”, figura conhecida lá da terra que se dedicava com afinco ao labor de construir o boneco de inflamáveis vísceras ao qual deitaria fogo, vendo esfumar-se num ápice todo o seu trabalho de um ano. Nunca vira tal espectáculo, ele, soube-o por ela, agora que voltava a Tondela.
Chegara à então Vila e sede de Concelho muitos anos antes, mais de 32, agora que fazia as contas. Chegara para o quinto ano, para o Ciclo Preparatório no Colégio de Santa Maria, entretanto abandonado. Era um edifício que à data lhe pareceu absolutamente majestoso, com a sua forma em U, cujas arcadas da galeria do piso térreo sugeriam um claustro incompleto onde se passavam os intervalos, onde certamente se cruzaram pela primeira vez, ainda que não se recordem de tão afortunado evento. Lembram-se, isso sim, do velho Tomás Ribeiro, passo seguinte no percurso académico de ambos. 30 anos se passaram, ainda a queima do Judas se fazia no adro da Igreja, nesse Sábado em que Jesus jazia morto no Sepulcro. Conheceram-se ali, finalmente, e era graças a ela que ali voltava, para ver a agora majestosa e encenada queima do Judas, feita na moderna Escola que substituiria a velha Tomás Ribeiro, levada a cena pela reconhecida companhia ACERT, que entretanto tomaria o saudoso Santa Maria para sua sede…
Estranho círculo o que o fez voltar. Estranho círculo que finda com Judas em chamas. E que renasce no Domingo de Aleluia.

(para a Teresa, cujo convite nos levou a descer a serra num sábado à noite…)

(galeria de fotos…)

Braga

Quis o acaso que descobrisse este post hoje. Quis o destino que o lesse horas antes de mais um Benfica-Braga, o mais decisivo dos últimos anos. Quis o destino que a primeira visita da Luisa à Luz tivesse sido nesse longínquo Outubro de 2010, precisamente para um Braga-Benfica. Quis o destino que o golo de Carlos Martins tivesse sido selado com um abraço de pai e filha, desses que não esqueço. Que ninguém esquece. É tarde, hoje. Caso contrário rumaria a sul sem demora. Entraria apressadamente com ela na Luz. Mesmo a tempo de comemorar o golo de Cardozo com um desses abraços capaz de se congelar no tempo, de congelar o próprio tempo. Que me acompanharia vida fora. Que nos acompanharia vida fora. É tarde, mas haverá abraços no café do Sr Coutinho, celebrando os golos do Benfica, claro, mas celebrando sobretudo essa paixão por futebol. Partilhada, como todas as paixões devem ser…

(Este post vai para o Capareira, alentejano na Terceira, Benfiquista como poucos…)

Split, versão II

I

Chegava dividido àquele encontro. Chegava sabendo que, sendo o certo falar-lhe, o mais cómodo seria não o fazer, e assim continuar com a rotina agradável, segura. Evitar dessa forma aquele pequeno terramoto que podia mudar as suas vidas, as suas adolescências.

Não era a primeira vez que se via naquela situação, sabia do arrependimento que viria depois, da frustração, da incredulidade, tudo enorme, tudo esmagador. Sabia que procuraria conforto na inevitabilidade de outra ocasião, de outra oportunidade, essa sim perfeita, em que tudo, absolutamente tudo o empurraria para ela, para o seu destino. Destino de ambos, aliás.

Devolveu-lhe o vinil, tocando na sua mão, querendo-lhe falar, mas certo de que não o faria. E naquele momento, no pátio da escola onde tantas vezes se encontraram, pressentiu algo de diferente, pressentiu que talvez aquele encontro fosse singular, um ponto sem retorno, uma última oportunidade. Pressentiu-o bem, e foi aquela a última vez que a veria em muitos anos.

A primeira fora alguns anos antes, no Colégio de Santa Maria onde fizera o 1º e 2º anos do ciclo preparatório. Teriam 10 ou 11 anos, e o normal seria esquecê-la em algumas semanas, provavelmente ao ver uma amiga sua que acharia infinitamente mais bonita. Life goes on. Mas não, não foi assim. E a bela Cláudia haveria de permanecer um longo período como a sua paixão, pouco adolescente, importante demais para a sua idade. Muito para além do razoável, aliás. Depois da admiração à distância, da veneração, chegara finalmente ao seu círculo de amigos. Trocara breves palavras, articulara pequenas conversas. Emprestaram-se discos, partilharam música. Sublimes esses tempos. Para quê estragá-los, então? Para tentar algo quando era evidente que ela estava num patamar de perfeição inatingível?

Daí a hesitação daquela tarde, daí o recato, daí as palavras vagas e de circunstância naquele ponto de viragem depois do qual nada seria como dantes. Sentiu-o quando, ao largar o disco, ao deixar a sua mão e seguir o caminho da mesmice e do silêncio, se viu sacudido por um estremecer. Soube-o quando se viu irremediavelmente dividido, partido em dois, quando viu, estupefacto, que ao afastar-se dela, uma metade de si ficava para trás, continuando a segurar-lhe docemente a mão. Assustado apressou o passo. Não o suficiente, no entanto, para deixar de ouvir na boca do outro, na sua voz, as palavras que sempre sonhou dizer-lhe, confessando-lhe o que já era público, formalizando o início desse namoro adolescente que tanto havia desejado. Correu. Mas não o suficiente para afastar do seu pensamento o beijo que certamente dariam. Ele e ela.

Remeteu-se ao silêncio, desapareceu, tentando entender o que se havia passado. Tentando articular explicações para o insólito. Pensando como faria, sabendo que havia agora dois Pedros circulando pelas ruas de Tondela.

II

Descia a serra na camioneta que o levaria à escola. Aproveitava para tentar recompor-se do susto, para perceber como faria para sobreviver incólume a esses últimos dias de Tondela. O ano escolar terminava, e o próximo iniciar-se-ia noutras paragens. Sabia-o desde que recebera de sua mãe uma caixa cheia de interruptores, lâmpadas e fios de cobre coloridos. Sabia-o desde que pela primeira vez levara um punhado de electrões provenientes de uma velha pilha de 4,5V a atravessar o fino filamento de tungsténio de uma pequena lâmpada. Por força da sua opção pela Electrotecnia, deveria continuar os estudos em Viseu ou no Porto. A opção lógica seria a sua terra Natal, a escola d’o Infante a sua primeira escolha. Via-se já chegando de comboio à Avenida de França, descendo Júlio Dinis depois de passar pela rotunda da Boavista. Sonhava-se já entre amperímetros e voltímetros velhos, de pesada madeira e certeiras escalas, operando reóstatos, verificando a lei de Ohm, comprovando as leis de Kirchoff.

A sua preocupação era agora evitar encontros indesejáveis, esquivar-se aos locais habituais, fugir dos percursos costumeiros. Evitar a todo o custo cruzar-se com a sua invejada metade que ficara para trás. Havia lido, um dia, as palavras de Hugo Pratt que, pela boca de Corto Maltese, assegurava que do cruzamento com um seu duplo surgiriam tragédias de proporções bíblicas. E de Corto não se duvida. Mudou os seus passos, os seus hábitos e até as suas companhias. Naquela tarde recebeu o convite com precaução. Uma festa de garagem, naquela parte da Vila, pareceu-lhe um risco. Moderado, mas um risco, em todo o caso. Mas um risco que valia a pena correr, pela companhia. Conhecera-a meses antes, no início desse ano, lá por Outubro. O fugaz namoro que então surgiu não resistiu à inexperiência, à imaturidade de dois pré adolescentes. O seu fim, no entanto, seria início de uma ligação próxima, cada dia mais próxima, como se só depois disso se tivessem realmente conhecido. Era difícil, pois, resistir às suas palavras. Ao seu convite. A essa festa de despedida. Do ano, de Tondela. Dela. E de si mesmo.

León


A seus pés se deteve a romana Legio VI Victrix, a vitoriosa. A isso mandava a prudência, que a imponência daquela cordilheira prometia ser feroz guarda para segredos tão inconfessáveis quanto perigosos. E assim foi, ali se acantonou e ali ficou por séculos, naquele chão que havia de se chamar León. Ali me detive eu também, que os tempos não aconselham aventuras, e a prudência manda que seja segura, a jornada. E foi segurança o que vi naquela esquina da Calle Regidores, ali, na Bodega Regia, segurança de um bom repasto, de um vinho caloroso, de uma palavra hospitaleira. Assim foi, com as Alubias a que do outro lado da cordilheira chamarei fabes, assim foi com o aconselhado vinho de Bierzo, com os croquetes de queijo, assim foi com tudo o que o dono, de sábia idade, resolveu trazer à mesa. Depois o passeio pelas elegantes ruas, a visita à bela Catedral de San Isidoro, subtil mistura de gótico e românico. Mas, se as sua grossas paredes me guardavam a vista, o pensamento esse voava em direcção a Norte, ansiando por essas míticas montanhas que na minha infância tantas vezes vi inatingíveis no mapa, que tantas vezes povoaram os meus sonhos de criança. Era hora pois de tomar o caminho da montanha, de rumar às Astúrias, de ir em busca de Pelayo, esperando ver por fim o Mar Cantábrico…

o caminho…

Descobrira-se ateu lá pelos seus 18 anos, condição obviamente definitiva como tantas outras nesses tempos de descoberta. Continuaria assim por anos, ateu juramentado, certo da sua existência finita e individual, caminho biológico com princípio, meio, mas sobretudo fim. Da riqueza dessa existência nunca ousara duvidar, nunca o permitiu a sucessão de acasos, de felizes cruzamentos, de encontros mais ou menos improváveis. Ironicamente seria um desses felizes encontros que abalaria as suas certezas. Encontro que, qual furacão, o havia de atirar para águas agitadas, o havia de fazer duvidar do seu tranquilo ateísmo e das suas confortáveis certezas.  Caiu, em primeiro lugar a certeza de um caminho irremediavelmente uno. Depois a inevitabilidade de um fim. E por fim até do próprio início se duvida. Sim, naquele encontro havia um caminho, um caminho sem fim à vista, sem fim simplesmente. O início, soube-o então, não foi nesse dia que consta no seu BI, da Imaculada Conceição, do ano da graça de 1969. Foi, isso sim, um pouco antes, num dia de Santo Antão. Como hoje…

17 de Janeiro de 2012