sei lá

Agostinho

people agostinho 2 1501 xq1 30x20 colourAgostinho é do Panguila. Agostinho é segurança, Agostinho guarda um terreno imenso junto à praia deserta, a sul de Luanda. Há-de ser um resort, certamente, será um resort quando o turismo for finalmente aposta em Angola. E é Agostinho que o guarda, que zela pelos 60 hectares de terreno junto ao grande Atlântico. 24 horas por dia, durante 15 longos dias, durante duas semanas ininterruptas que passará ali, no enorme terreno junto à bela praia deserta. Agostinho aproxima-se, ao chegarmos, para pedir cigarros. Não temos. Dá cem quanza só, eu compro. Agostinho há-de aproximar-se outra vez, timidamente, ao ver a bola sozinha no areal. Enquanto isso, mergulhamos no quente Atlântico na deserta praia de fim de tarde. Agostinho ensaiará toques na bola, com pesadas botas militares, agora cheias de areia. Agostinho aguarda pacientemente um companheiro, alguém a quem passar a bola, alguém com quem trocar toques de habilidade, sem largar o cassetete, mas com um largo sorriso nos lábios. Agostinho, o segurança, há-de sentir-se criança perante a bola nova, perante a possibilidade de brincar com ela, com a bola. Sentir-se-á craque e terá a certeza de que, tivesse estado no relvado do 11 de Novembro, meses antes, e Angola estaria agora no CAN. E todo o país em festa. E talvez reparassem nele. No remate em arco que agora ensaia, e certamente rumaria à Europa. Talvez até para o Benfica. E o Panguila ficaria para trás, tornar-se-ia recordação e saudade, que evocaria a cada golo marcado. Agostinho passará 15 longos dias e 15 escuras noites a dormir ao relento, ao lado da sua AK. A sonhar, talvez. Depois regressará ao Panguila. 


o abraço

20140125-101236.jpgAcordou sozinho, nesse Domingo de Páscoa. Era a primeira celebração da Ressurreição de Cristo que havia de passar fora do seu Caramulo. A primeira celebração que havia de passar longe da família. Acordou com a boca seca e o sabor a saudade. Correu, fugindo aos cânticos alegres que entoavam na Igreja em frente, para o mar, para esse Atlântico purificador que banha a Ilha, esse mar que, a cada ano, recua derrotado pela Babel que é hoje Luanda. Cumprido o ritual matinal de Domingo, é hora de regresso a São Paulo. Pelo caminho, camisolas vermelhas a lembrar que também ali há Portugal, a lembrar-lhe essa outra festa prometida para mais tarde, essa outra celebração que, para ele, soava desta vez mais a Via Sacra do que a Ressurreição.

Luísa, sua filha, aguardava esse mesmo jogo. Mas longe, demasiado longe. Luisa, sua filha, era sua companheira de mesas de café onde, juntos, vibravam com as camisolas berrantes, onde, juntos, discutiam substituições, penalties e foras-de-jogo. Sem isenção, sem parcimónia, mas com cumplicidade. Nunca esperara que o futebol se tornasse esse forte elo entre eles, entre pai e filha. Nunca esperara, nunca o procurara, nunca precisara dele. Mas o certo é que ali estava ele, o jogo que os fazia abraçarem-se em bancadas de Estádios, comemorando golos de Cardozo, Martins, Lima ou André Gomes. Que os fazia rir vitórias ou chorar derrotas. Ou traumas recentes que não serão lembrados hoje quando, mais logo ele sair para a Vouzelense pensando na Luisa. E mais ainda quando, no calor de Luanda, sair com um cachecol vermelho. Tão inapropriado como a distância que o destino entendeu colocar entre ele e Luisa, sua filha. No dia de Ressurreição de Jesus. No dia do 33º título do Campeão dos Campeões. Hão-de comemorar juntos sim. Faltará, em todo o caso, esse abraço que hoje, mais do que qualquer outra coisa, desejava…


para a Ana…

Leça da Palmeira, Janeiro de 2013…razão última de tudo na minha vida. Fotografia incluída…


Weekly Photo Challenge: Changing Seasons

people snow milano 0811 small bw(Duomo, Milano, 2008)

28 de Novembro de 2008, último dia em Itália, primeiro nevão do ano. Excitação e surpresa, vontade de brincar na neve, caos absoluto no trânsito citadino. Atrasos, correrias, e a neve a cair sem parar. Param os transeuntes, deixando-se molhar lentamente pelos flocos ainda insípidos. Parei eu, para admirar a desordem aparente, a coreografia das ruas, ora frenética, ora letárgica. Foi então, foi naquele dia de Novembro sob a primeira neve do ano que realmente gostei da cidade. Foi a primeira vez em muitos anos que realmente tive pena de a deixar. Milagres do Inverno que naquele dia se anunciou. Milagres que justificam toda a devoção que lhe guardo, ao Inverno. À minha estação favorita…


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Weekly Photo Challenge: Thankful


Weekly Photo Challenge: Renewal

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Poucas coisas evocarão o conceito de renovação tão imediatamente como as flores. Elas que, florescendo, marcam o reinício de um ciclo. Que, surgindo, recordam a necessidade de seguir em frente. Que, morrendo, deixam a certeza de renascer outra vez, mais tarde, quando for hora de renovação.
Esta, com um oportuno caule em forma de “S”, publico-a em dia de aniversário, em resposta ao desafio semanal, em jeito de presente virtual para terras distantes…


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15

20121020-102152.jpgDa Luísa, destes 15 anos poderia escrever sem fim à vista. De como foi feliz o dia de Outono em que ela nasceu, de como foram felizes todos os dias que se lhe seguiram, de como serão todos os que virão. Ou da primeira vez em que, esmagado pela sua alvura serena a segurei em meus braços, ou dos beijos de boa noite que encerraram os dias, todos os dias desde então. De todos as jornadas de escola, creche, primária ou liceu, das descobertas, dos sucessos, dos ensaios, dos concertos, dos espectáculos. De todos os jogos do Benfica que vimos juntos, todas as desilusões que sobre nós se abateram, todas as pragas que rogámos, toda a devoção que partilhámos, todos os abraços, sobretudo desses, dos tantos abraços que selaram outros tantos golos bonitos, sofridos ou simplesmente golos. Poderia escrever, poderia ficar aqui a escrever sem fim à vista. Não o farei, há parabéns para cantar, velas para soprar e um bolo para abrir. E um dia para celebrar.


Foto da semana II

Sim, sei que tinha prometido uma fotografia por semana. Apenas. Sei que, visto assim, postar uma segunda imagem pode parecer o romper de um acordo. Por excesso de zelo. Não resisti, apesar disso. Não resisti porque nada resiste a este rumo cego, a esta sucessão de medidas que mais não visam que o empobrecimento de todo um país. Ao inominável descaramento de uns, ao cúmplice e ensurdecedor silêncio de outros. Não resisti porque a decepção teima em não desaparecer. Porque o desânimo não se rende. Nem eu.

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(“S/T″ – Avenida dos Aliados, Porto, durante a manifestação de 15 de Setembro de 2012)


foto da semana I

 Faltando-me as palavras, e faltam nesta era de desalento, não há-de faltar-me a fotografia. Aqui as deixarei, ao ritmo de uma por semana, é uma promessa. E é para cumprir. Assim não me faltem leitores…(“manif 2.0” – Avenida dos Aliados, Porto, durante a manifestação de 15 de Setembro de 2012)


arquitecto

Não fossem as lâmpadas e fios de cobre e estaria agora entre lápis e papeis. Não fosse o conjunto didático que recebi da minha mãe em tenra idade e estaria agora debruçado sobre um estirador. Não fosse a engenharia e seria provavelmente arquitecto.
Não sou, e por isso se foram os espaços, formas, vazios e volumes. Não totalmente, no entanto. É que, não me saindo das mãos, vão me entrando pelos olhos, não as fazendo de carvão, fixo-as em sais de prata. E estes, dispostos a preceito sobre um fino suporte de triacetato de celulose, chegaram-me pelas mãos do meu pai. Em bom tempo, pois graças a eles, graças a ele, guardo comigo portas, janelas, paredes, espaços, rampas, formas, escadas. Prevaleceu, no fundo, a engenharia oferecida pela minha mãe. A arquitectura, essa sobreviveu graças ao presente do meu pai…