Outubro Vermelho

aimar 01 1280Era Outubro, era um fim-de-semana chuvoso que havia de se interromper para dar à nossa noite, à noite do Benfica, aquele cheiro de relva molhada que antecede os grandes momentos, as inesquecíveis noites. Entrámos na Luz, e nunca o seu nome me pareceu tão poético, tão apropriado para justificar o olhar brilhante de Luísa ao ver lá em baixo o relvado iluminado, ao ouvir aquele burburinho motivado pela excitação do momento, pela proximidade de nos encontrarmos com o objecto último da nossa paixão, por estarmos finalmente em casa. Sim, era a primeira vez da Luísa, era Outubro, e ali, no relvado, a escassos metros aquecia a equipa, David Luiz, Saviola e Gaitán. Luisão, Javi e Coentrão. E Pablo. Era Outubro, e não tardava a ouvir-se, a cantarmos o hino do Glorioso, não tardava e a camisola 10 subiria ao relvado. Pablo Aimar era daqueles jogadores que admirava profundamente, daqueles jogadores que nunca imaginara ver com a camisola berrante. E no entanto ali estava ele, espalhando magia como poucos, jogando como nenhum. E Luísa, incrédula por estar na primeira fila, mal contendo a emoção de cada vez que ali passava David Luiz ou Coentrão, de cada vez que Gaitán subia à linha sem imaginar, sequer, que um dia seria dele aquela camisola 10. Aimar não precisava de se aproximar da linha, a Aimar não se pedia senão que jogasse, a Aimar bastava ser ele próprio, o génio que um dia impressionou Maradona, o virtuoso que inspirou Messi. A Aimar bastava ser Aimar, e vê-lo ali, com a camisola do Benfica era sonho realizado. Fazê-lo com Luísa, sua filha, a seu lado, era mais do que qualquer um poderia pedir.
Era Outono, e foi aquela a primeira vez que vi, que vimos Pablo, e que nos encantámos com ele. Hoje, em pleno cacimbo, soube que não mais sentirei essa excitação infantil de vê-lo com uma bola nos pés. Mas o encanto não cessou. E não cessará nunca, por mais Outonos que passem, por mais invernos que se lhe sigam. Não cessará, simplesmente.

(Para o Capareira, que hoje completa cerca de diversos anos de vida, amigo e companheiro de Benfiquismo, responsável, entre outras coisas, por me fazer vencer hoje a preguiça e dedicar umas palavras ao Pablo Aimar…)

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