Archive for Janeiro, 2014

O meu Benfica

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Não, não vi Eusébio jogar, e não, não fui ao Estádio da Luz em tenra idade. Nasci no Porto e cedo regressei ao Caramulo dos meus pais, onde passaria a minha meninice e adolescência jogando à bola em todos os cantos em que me era possível, do trapezoidal pátio do velho sanatório construído por meu avô até ao recreio da escola primária com icónicos cubos de granito em vez de balizas. Ou no adro do cemitério, o que obrigava não raras vezes a saltar o alto portão para resgatar a bola de entre as campas. No pequeno parque que viria a ser o recinto da festa de Santa Margarida, fintando árvores e driblando raízes, marcando golos em balizas imaginárias. Sim, o meu futebol era o que se jogava na rua, o futebol dos amigos, dos colegas, dos companheiros. E esses eram invariavelmente do Benfica ou do Sporting. Apenas esses tinham dimensão nacional, apenas esses atravessavam o vale subiam à serra, apenas esses. Ser do Porto, do meu Porto natal, seria ser tão bairrista como escolher o Académico de Viseu por critérios de proximidade. Tão exótico como ser do Belenenses. Ou do Leixões. Seria um grito de diferença, uma necessidade imperiosa de afirmação. De confronto. Não, a minha escolha foram os amigos, companheiros de bola e de joelhos esmurrados. Foi o Jorge e o Chico. Foi o meu Pai, Benfiquista discreto e sensato. A minha escolha foram os afectos, as pessoas. E é esse o meu Benfica. Dos companheiros de bancada, ou de mesa de café, dos amigos, de aquém e além mar, da Escócia da Sofia ao Brasil de Rubinho, da Bragança do Blitz a Angra do Heroísmo do Capareira. De Fernando, meu pai, a Luísa, minha filha. É esse o Benfica que, antes de ser escolha minha, me acolheu. De braços abertos.

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A voz do dono

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E pronto, o Porto perde e, acto contínuo, regressam os ataques às arbitragem vergonhosas e desonestas. Limpinho, limpinho. E déjà vu. O que é diferente, neste caso, são os dias que separaram os factos da reacção. E se do velho Dono já se espera lentidão nos processos, o dócil cachorrinho esperou dias infindos para reagir. Para, embevecido com os elogios da esposa, urdir contra cabalas misteriosas que visam derrotar fora do campo uma equipa que, já o disse bastas vezes, roça a perfeição. Sem perceber que a derrota da Luz é dele. Só dele e das suas opções. Contra um Benfica que, longe de brilhante, não foi sequer empolgante. Que ganhou porque jogou o seu jogo, não o do Outro. Que escolheu os 11, os seus 11, pondo de lado cautelas e caldos de galinha. Que teve no banco um Jesus sem Paulo Fonseca, como nunca conseguiu ter um Jesus sem Vitor Pereira. E a escolha de Oblak, quando todos esperavam Artur, é talvez o melhor exemplo. Enquanto isso, do outro lado subia Helton, em vez de Fabiano. E, se não foi pelo Esloveno que o Benfica ganhou, pode perfeitamente ter sido por Fabiano. Pela ausência dele. Ou, em última análise, por Paulo Fonseca. Pela ausência dele. Pela ausência de alma, vendida nas últimas jornadas da época passada, vendida por trinta dinheiros, ou por um prato de lentilhas.
Já era pois, tempo de Paulo Fonseca travar as suas guerras. Não esperar que a mão do dono lhas indique.


O meu, o nosso Benfica…

28042011493O Benfica de Eusébio é o meu Benfica. É, aliás, o Benfica de todos nós, benfiquistas ou não. É o Benfica que nunca desiste, que nunca se dá por derrotado, que sobretudo nunca se dá por perdido.
O meu, o nosso Benfica é o que não esqueceu Mantorras na infeliz hora da despedida. Não o que lhe fez uma despedida vazia, não o que foi incapaz de lhe dar um minuto sequer, no ano do 32° título de campeão.
O meu, o nosso Benfica é o que trata todos os jogadores como seus, por nascimento, criação ou adopção. Não o que os  abandona na Roda de outrora, hoje sob forma de empréstimos ad eternum.
O meu, o nosso Benfica é o que venera Deuses e mitos, em campo, nas bancadas, na memória, no coração. Não é que se apressa em prometer efígies em camisolas e anos de luto. Ou nomes em estádios, pavilhões ou centros de estágio.
Não é o meu Benfica, não é certamente o de Eusébio. E se, mesmo que por breves dias, nos esquecemos disso, não lhe fazemos honra. A Eusébio ou ao seu Benfica. Ao nosso.