Archive for Novembro, 2013

Pepsi

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Nada como o abismo para nos levar ao futebol. Foi preciso o dramatismo de mais um play-off para resgatar a nação de Scolari, adormecida pela tranquilidade de Paulo Bento, pela pobreza da campanha de qualificação. E como voltou, a geração das bandeiras chinesas à janela, como voltou essa geração cheia de patriotismo vazio, cheia de falso gosto por futebol, parca em urbanidade e sensatez. Nada como o futebol para nos levar ao abismo. Sim, admito que não se goste do anúncio da pepsi que, diga-se, até tem piada. Mas o levantamento que por aí se viu, redes sociais fora, é deprimente. Deprimente pela intolerância, deprimente pela desproporção, assustador pela inversão de valores. É de futebol que falamos, de um jogo, caramba. De um dos jogadores mais escandalosamente bem pago do mundo e de um anúncio de uma marca de refrigerantes. Não falamos de um boicote a uma marca que, fechando uma fábrica em Portugal, atira centenas para o desemprego. Não nos indignamos pelos lucros das maiores empresas portuguesas taxados na Holanda. Nós, que escolhemos fruta pelo preço, não pela origem geográfica. Não protegemos os nossos, salvo se forem bem sucedidos e andarem de chuteiras nos pés. Não nos indignamos com os desmandos e empobrecimento planeado a que somos sujeitos, dia após dia, ano após ano, com troika ou sem ela. Não nos levantamos contra mentiras infames e inverdades todos os dias repetidas. Não mexemos uma palha contra as indignidades que a toda a hora nos entram pelos olhos dentro. A não ser que seja absolutamente irrelevante. Não é este o meu país, não é este o meu futebol. Este país merece campanhas ridículas, sim, merece enxovalhamentos, é um país sem vergonha e sem decoro. Sem auto-estima. Salvo se ela vier em forma de remate cruzado que, partindo da Suécia termine no fundo das redes lá longe, no Brasil. Sinceramente não tenho estudos para isto.

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Estádio de Marte

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Quis o destino que este derby o passasse no Caramulo, quis o destino que, não sendo transmitido em canal aberto, este jogo o visse no café Marte. No velho Marte da minha infância, onde se jogava bilhar às três tabelas ou matraquilhos, onde se compravam jornais, onde se liam jornais da casa com enormes travessas de madeira, onde se compravam pastilhas Pirata ou se furavam os paineis de bolinhas da Regina esperando um qualquer prémio. No Marte, ontem dividido entre os dois lados da segunda circular, ambos bem representados, enchendo o café como nunca o vi. Sim, no meu Caramulo as grandes disputas ainda são entre o Benfica e o Sporting, no meu Caramulo as preferências futebolísticas continuam a passar de pais para filhos, eternizando rivalidades antigas, perpetuando paixões e ódios de estimação. Pais, filhos e netos que ontem se juntaram ali para assistir a um grande jogo de futebol, ali, naquele café, onde em dia de derby não há lugar para parcimónias, para falinhas mansas, contemplações ou meias-medidas. Ali grita-se alto, berra-se a plenos pulmões, salta-se da cadeira a cada golo de Cardozo, vibra-se, sente-se, vive-se futebol como se, gritando dali, do cimo da Serra do Caramulo, as vozes se ouvissem lá, em baixo no relvado. Ouviu-as Cardozo, felizmente. Patrício, esse estava longe demais.


Pireu

rocks

Chegado ao Pireu, para uma escala de poucas horas, apressei-me em procurar uma forma de subir à Acrópole. Na parede, um cartaz anunciava 12€ como sendo o preço de uma viagem de taxi até ao monte sagrado. Assim foi, entrámos no taxi e rumámos a Atenas, passando pelo estádio do Olympiakos antes de nos embrenhar em ruas inclinadas que nos haviam de deixar no sopé da Acrópole. O taxímetro marcava algo em torno de 11€ quando, como que por artes mágicas, passou subitamente para os 27€ que o taxista me exigiu. Argumentei que era um absurdo, que o cartaz apontava para 12€, ao que me respondeu “where?”, olhando para trás, procurando ver o Pireu. Deixei uma nota de 10€ e saí do carro com um apressado “keep the change”.
Anos depois o taxista vingou-se. Imagino-o hoje, em pleno estádio, venerando Roberto, fazendo gestos obscenos para a claque Portuguesa, procurando-me entre eles, vociferando “keep the change, bitch”…