Archive for Agosto, 2013

O vento

O vento sopra, finalmente. O vento sopra nas Geraes trazendo com ele a insuportável saudade do meu Benfica. A vontade de estar lá, agora, como se Alvalade fosse ali, do outro lado da Serra do Curral, como se 7.500km se esfumassem sob o peso do desejo, como se a distância dos últimos meses sucumbisse perante a imagem das camisolas berrantes. O vento sopra, finalmente, mas o vento que cala a desgraça, o vento que nada me diz, deixa espaço para a ilusão, para a subida de Aimar ao relvado, sim, de Aimar, como se o 10 nunca nos tivesse deixado pela porta pequena. Ou, pelo canto do olho, traz a imagem de Pedro Mantorras, no banco, assegurando que, se algo correr mal, ele estará lá, qual anjo vingador pronto a devolver às bancadas verdes a incerteza da sua mortalidade. Sim, do vento não constam os pequenos desmandos ou as grandes mentiras, neste vento não cabe Jesus dos últimos dias. O Jesus que com ele voa não se ajoelha jamais, o Jesus que vejo é o que transforma, com toque de Midas, inconstantes extremos em laterais de luxo, aquele que reabilita argentinos proscritos transformando-os em insubstituíveis 8’s. É o Jesus que nos devolveu o mais belo futebol de uma vida, não o que o desbaratou em dias tristes.
Olho para o papel e percebo que afinal a distância existe. Um oceano separa o sonho da realidade. Mas, que diabo, ainda temos Cardozo. E Tacuara pode não voar com o vento, mas, como sabemos, não perdoa nunca. Nem esquece. Que seja ele a salvar-nos. E a enterrar a distância que nos separa, que teima em interpôr-se entre nós e a nossa equipa, essa distância que dura há muito tempo. Há demasiado tempo.

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Planalto Central

Quis o destino que, no arranque de mais uma Liga Portuguesa, me encontre longe, em pleno Planalto Central Brasileiro. É assim nos anos ímpares, em que a angústia do guarda-redes no momento do penalty atravessa o oceano até terras de Vera Cruz. Foi aqui, deste lado do Atlântico, que soube do deprimente arranque de há dois anos, que culminaria com o título de Villas-Boas, foi assim que assisti ao empate com o Marítimo na época que nos daria o último título. Desta feita, apesar da desilusão fora de horas, da pré-época titubeante, do caso Cardozo, da impessoal despedida de Aimar, das irritantes incertezas no plantel, encontro-me ansioso uma vez mais. Que comece o futebol, que encha os meus Domingos, que me faça sair de casa até ao café do Sr. Coutinho, que me faça sair de casa para levar Luisa ao estádio mais perto, que me faça perder a paciência com os velhos do Restelo que se irritam com Maxi, que duvidam de Gaitán, que insultavam Cardozo. Que os jogos comecem, que seja, para variar, uma vitória a abrir a nossa caminhada segura e competente. Se assim for, estou certo de que os sucessos se sucederão, apesar dos percalços, que as vitórias se repetirão, apesar das pressões, apesar das invejas, que as bolas morrerão nas redes adversárias, apesar de Cardozo, que terminaremos a festejar, no Dragão, apesar de tudo, apesar de traumas passados. Seremos campeões, acreditemos nisso, convençamo-nos disso, mas sobretudo trabalhemos para isso.

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R10

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A importância de Ronaldinho neste Atlético não pode ser medida apenas em golos e assistências. Em 2006 o Galo militava na série B. Até 2011, oscilava entre o meio da tabela e a zona de rebaixamento. Em 2010 e 2011 lutou arduamente para escapar à série B. Entretanto chegou Ronaldinho vindo do Flamengo, culminando uma travessia no deserto demasiado longa. E, subitamente, o Atlético ganhou dois títulos mineiros. Lutou até ao fim pelo Brasileirão do ano passado, terminando como vice-campeão, ganhou a Libertadores, feito inédito no centenário clube. Com ele o Galo subiu um degrau, cresceu, a exigência aumentou, a alegria da torcida explodiu. Com ele em campo é de esperar o inesperado, com ele em jogo devemos reverenciar o enorme toque de bola e o sorriso contagiante. Não podia, pois, deixar de voltar ao renovado Independência, desta feita a convite do Rubinho, interrompendo assim o jejum de anos. A última vez que ali tinha estado, para ver o América selar a subida à série B, ainda se comia pão com linguiça no topo do Estádio, ainda se bebia cerveja verdadeira, ainda a turma sentava no cimento frio da bancada. Tudo mudou, e a nova arena Independência cresceu, como se isso fosse possível dentro das apertadas ruelas do horto. Diria que ganhou um charme inglês de estádio urbano, acolhedor, mas misturado com a informalidade Brasileira que, em dia de jogo, transforma qualquer janela das imediações em bar, qualquer pátio em restaurante, qualquer garagem particular em estacionamento pago. Voltei. Voltei para ver o jogar o Atlético que, mais do que se deixar adoptar, me adoptou e me acolheu em seus braços. A mim e a Luisa que, como eu, se deixou contagiar pela magia, que, como eu, se curvou em sinal de reverência quando, com o sorriso nos lábios e sem sequer tocar na bola o 10 alvinegro deixou pregado ao chão o enorme zagueiro do Bahia, abrindo todo o corredor esquerdo para mais um ataque infrutífero. Aquilo que presenciámos, ambos, aquele movimento, aquele gingado, aquela visão só está ao alcance de um punhado de eleitos. Que um deles tenha escolhido o Atlético é uma benção dos deuses do futebol.

Brasília, 16 de Agosto de 2013


Penalty

Há algo de decepcionante neste Benfica. Mais do que a forma como se perderam os títulos do ano passado, mais do que outro ano de jejum, há algo neste Benfica que me entristece. Não falo apenas deste Benfica de pré-época, deste Benfica de um Jesus aos tropeções na via crucis, falo do Benfica de Vieira, de Rui Costa, deste Benfica que se tornou uma empresa, mais do que um clube. Que se rendeu à “economia” e aos “mercados”, como aliás todo o país, toda a Europa, e que, ao fazê-lo, vendeu a mística, traíu o humanismo a que qualquer desporto deve se deve subordinar. Falo da saída de Aimar, por exemplo, sem honra nem glória, sem um abraço de despedida que devemos a um amigo, falo da saída de Nuno Gomes como falo do último ano de Pedro Mantorras, sem jogar sequer o minuto que o tornaria campeão nacional. Todas elas, todas estas despedidas, foram transformadas em meros actos de gestão, desprovidas de emoção, despidas de paixão. Corrói-me, esta indiferença, corrói-me mas suporto-o eu, como já suportei a inqualificável purga de Artur Jorge, ou a dispensa de JVP por Heynckes, suporto-o resignado e com mágoa. Mas a resignação desaparece quando vejo a paixão esvair-se dos olhos da Luisa. Crime de lesa-paixão não se perdoa em caso algum, e a forma como a novela Cardozo foi conduzida perfigura ilícito dessa gravidade. Porque por muito errado que Tacuara pudesse estar, o seu passado, o seu presente de águia ao peito aconselhava outra celeridade, outra clareza. Prolongar a indefinição, promover a exclusão não é coisa de gente avisada, e mais não faz do que afastar os adeptos dos estádios, dos campos onde vibram as papoilas. Ou da BenficaTV, palco para um inacreditável e pouco convincente mea culpa que, apesar de tudo, foi um passo em frente no impasse. Um passo digno de um 9 que, sentido ou não, fez a Luisa sorrir de vermelho outra vez. Cardozo pode não ter marcado um golo. Mas arrancou um penalty que urge transformar em golo. E é por este, como pelos outros cento-e-tal, que lhe estou grato.
9 de Agosto de 2013