Archive for Maio, 2013

o fim

Sofia,

Duas noites, deixei que se passassem duas noites antes antes de escrever sobre Domingo. E, ainda que me tenha talvez suavizado os termos, a almofada não mudou o conteúdo do que se impõe dizer. Cheirou a fim-de-ciclo, aquele final de tarde, ponto de não retorno, sítio ao qual não se volta. Não falo da derrota, que esse foi o menor dos problemas. Falo do jogo lento e previsível, sem garra nem vontade, sem aquela avalanche de futebol que só o Benfica sabe. Ou sabia. Falo da postura passiva, da falta de ombridade com que se recebeu a derrota, da multidão a abandonar o estádio antes do fim do jogo. Não foi Benfica, aquilo, não o foi e nesta hora há que pensar porquê. E se não o foi, o dedo a apontar terá que ser a Jesus. Como o fez Cardozo, não sei se viste, fê-lo quando e onde não devia, mas mais não fez do que exteriorizar o que 6 milhões de Benfiquistas sentiam naquele preciso momento. A época estava perdida, mas não me conformo com a perda de atitude, de Benfiquismo, diria. Por isso te digo que Jesus deve sair, Por muito que me custe, e custa de facto. Sabes bem que sempre fui um defensor da continuidade, que sempre fui um defensor de Jesus. Fui-o até Domingo, precisamente. Terminou. Jesus desbaratou em minutos o que construiu, e bem, durante 4 anos. Se é injusto? Profundamente, Sofia, aterradoramente injusto. Jesus foi provavelmente o treinador que mais fez pelo Benfica nos últimos anos, que resgatou a mística e a relação com o público, que impôs um modelo de jogo próprio e reconhecível, que deu uma sucessão de passos importantes no caminho certo. Mas o que aconteceu no Jamor foi mau demais, foram muitos passos atrás, um regresso a um passado que já julgava enterrado. Por isso deve sair. Se vai para o Porto? Sim, estou certo disso, mas, ao contrário de outros, o Benfica não pode condicionar as suas decisões pelo que os rivais fazem ou podem fazer, somos Benfica e somos maiores do que tudo isso. Por isso deixo aqui um Adeus sentido e um Obrigado sincero. Até sempre Jesus.

Pedro


Domingo à tarde, lá para os lados do Jamor…

Sofia,

Obrigado pela tua resposta, consolo certeiro para este Benfiquista em fim-de-festa. Sim, é verdade, jogámos o melhor futebol que vi este ano, e nunca o termo Beautiful Game me pareceu tão apropriado, nunca tão merecido. Jogámos futebol com estilo próprio, frenético e desenfreado, de ataque, futebol universal e vistoso, reconhecível, mas sobretudo repetível. Repetiu-se ontem, em Wembley, quando a Luísa reconheceu a geometria dos passes vermelhos de Enzo, as recuperações de Matic, a variação de flanco passando por Garay e Luisão, seguindo para Maxi lançar Sálvio… Sim, aquele é o nosso futebol, foi com ele que o Bayern ganhou, foi nele que Robben se inspirou para matar o jogo de ontem. E foi essa a nossa vitória, ter jogado o nosso futebol e tê-lo jogado até ao fim, e continuá-lo a jogar hoje, dia de festa no vale do Jamor, com pique-niques, churrasco e porco no espeto, com fotos de família, bigodes e abraços. E golos, mais logo, golos de bandeira, passes de letra, toques de calcanhar. Recuperações in extremis, lançamentos longos, cavalgadas frenéticas e esforços inglórios. É tudo isso, a festa de hoje. Façamo-la, façamo-la como só nós sabemos, debaixo do sol Lisboeta, com o Tejo ao fundo. E só depois as férias.

Pedro


fim-de-festa

Sofia,

Não te falarei hoje dos desaires desta última semana. Até ao lavar dos cestos é vindima, e balanços guardá-los-ei para o fim. Hoje é dia de falar da ponta de tristeza que acompanha o fim da época futebolística, do ar de fim-de-festa, do terror da silly season, das longas semanas de ausência de futebol, notícias disparatadas, contratações certas e mais tarde abortadas, jogadores desviados para os rivais, dispensas e demais manobras que mais não fazem do que aumentar o desejo por uma nova época, por futebol a sério. Depois a pré-época, onde surgirão promessas certas, talentos escondidos, confirmações surpreendentes. Que não tardaram a cair no esquecimento. De futebol, nada. Sim é duro para mim, como sei ser para ti. No meu caso, a ida a Belo Horizonte suavizará essa privação, com a oportunidade de ver o Atlético, na melhor fase que lhe conheci, de ver ao vivo a nova vida de Ronaldinho. Gaúcho? Definitivamente deveria ser “o Mineiro”. Ronaldinho, o  Mineiro, que belo soaria. Isso sim, seria fechar em alta uma longa carreira de altos e baixos, de genialidade e descaso. Isso sim, seria digno das melhores histórias de ressurreição no futebol, da sua dimensão simultaneamente humana e mítica. Sei que Julho e Agosto serão duros para ti. Por isso aqui deixo a promessa de um lugar guardado no Independência. E de um prato de feijão tropeiro à tua espera…

Pedro


Sei que estás em festa, pá…

Rubinho,
Sei que estás em festa, pá. O Galo está imparável, depois de golear o São Paulo, também o Cruzeiro caiu no horto. Não está morto, mas agoniza, imagino. Pois por cá já murcharam a nossa festa. Golpe duro, nos descontos, quando tudo parecia encaminhado para um desfecho feliz. Ninguém morreu, ainda, mas o passado recente pende sobre nossas cabeças. Sim, comemorámos cedo demais, sim fizémo-lo de forma exuberante. Mas, que diabo, se é para ser parcimonioso dediquemo-nos ao golfe, se é para ser prudente fiquemos em casa até ao fim da festa. Sim, ainda temos a Liga Europa que, respondendo à sua pergunta, é obviamente menos importante que a Champions League. Mas, para nós, Benfiquistas, tem um significado especial, é a oportunidade que quebrar a maldição de Béla Guttmann. O técnico húngaro que, depois de vencer duas taças dos campeões pelo Benfica, deixou o clube, deixando pairar a famosa frase «O Benfica não voltará a ganhar uma final europeia sem mim». Corria o ano de 62 e, apesar de ter chegado a várias finais europeias, o Glorioso não logrou alcançar nenhuma vitória. O Chelsea não é um adversário fácil, mas, que diabo, deixemos a cautela e acreditemos que Amesterdão coroará o Benfica pela segunda vez. E lamberemos então as feridas deixadas pelo golo de Kelvin, esperando ansiosamente a última jornada da Liga. Esperemos emoção na Mata Real onde o Paços de Ferreira, com o terceiro lugar assegurado, só foi derrotado pelo Benfica. As hipóteses são remotas claro, o Porto está motivado mas é nossa obrigação acreditar, ganhar ao Moreirense e esperar. Para terminar, não lhe peço um cheirinho de alecrim. Mas um feijão tropeiro seria inspiração divina, seria amuleto suficiente para quebrar o enguiço de Guttmann e, já agora, as palavras de Chico em “Ana de Amsterdam”…

Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar

Abraço,

Pedro


Um cheirinho de alecrim

Sofia,

Apesar da distância não te será difícil imaginar o que sinto hoje. Conheces-me, conheces o meu nervoso miudinho, a ansiedade mal contida, a vertigem de estar a um passo do abismo. Ou a dois da glória. Sabes bem destes sábados lentos que nem dia são, que se arrastam até à noite cair, até ao apito inicial que anunciará finalmente o início da jornada, o início de todo um dia concentrado em 90 minutos, de toda uma época jogada num tempo demasiado curto. O coração, esse bate desordenadamente até à hora em que Luisão pisar o relvado com a história a seus ombros, carregando a responsabilidade de levar os rapazes à glória que o seu futebol merece. E merece-o, esse futebol que encanta, que fez desta uma das mais belas épocas da minha memória. Mais logo o saberás, quando receberes um cheirinho de alecrim, anunciando que o nosso futebol venceu, que o futebol venceu, que há festa na Boavista, no Marquês e por todo o lado. O meu silêncio, ao invés será sinal de um calvário que se arrastará até ao próximo fim-de-semana. Sabê-lo-às logo, ao receber um abraço que únicamente os que amam futebol conhecem. De alegria explosiva ou de consolo misericordioso. Mas demorado em qualquer caso. E Benfiquista, sempre…

Pedro