Archive for Março, 2013

Baía

photo (4)Grande parte da sua adolescência, a melhor parte, aquela de que sempre se lembrará, passou-a na antiga Industrial de Matosinhos, actual Gonçalves Zarco. Aí encontrou amigos que o seguiriam toda a vida, alguns dos quais entraram inclusive para a família, aí se apaixonaria, aí cresceria como se deve crescer, com amigos e com paixão. Foi aí no velho campo de piso verde e dois ou três degraus de bancadas, qual estádio imponente, que muitas vezes saciou a sua paixão por futebol. Essa trazia-a de trás, do campo imperfeito e trapezoidal do Lusitano, ou das balizas feitas por vetustos cubos de granito no recreio da escola primária do Caramulo. Ou do campo do Colégio de Santa Maria, rodeado de árvores, onde pela primeira vez havia de defender uma baliza, paixão que duraria para a vida. Uma vez guarda-redes sempre guarda-redes. Cinco anos depois, a mudança para Matosinhos onde ninguém o conhecia pela sua perícia entre os postes, pareceu-lhe uma oportunidade única para “dar um tempo”, para tentar outro rumo, jogar em posições de campo, qualquer uma. E assim foi, naquela tarde em que, na baliza adversária olharia com despeito o pretensioso guarda-redes que ali estava, no seu impecável equipamento, nas suas luvas que faziam supor outros voos. Do jogo não recordaria mais do que, a satisfação plena do seu desejo de bola, de correr atrás dela, de lutar por ela como merece qualquer paixão. Anos passariam até reconhecer na televisão, até ver na odiada baliza do Porto aquele mesmo miúdo que defrontara anos antes. Incrédulo correu a confirmá-lo junto dos amigos. Que sim que era ele, o Vitor Baía. E garantiram-lhe alguns deles que lhe havia inclusive marcado um golo. Sorriu, como sorriu quando um acaso lhe deu a oportunidade de ver as suas luvas assinadas por ele, pelo Baía. Não resistiu em fazer-lhes chegar as suas luvas usadas e sorriu novamente quando as recebeu, ambas assinadas por ele. Voltará a usá-las sempre que a solenidade do jogo mereça fato de gala. E voltará a usá-las juntamente com a sua camisola do Benfica sem que daí resulte qualquer acto de hipocrisia ou sacrilégio. O que o move, o que sempre moveu, é o prazer imenso que o futebol lhe dá, que o faz saltar da cama aos domingos de manhã para ir defender uma baliza num armazém lá para os lados da Ponte da Pedra. Isso é paixão. O que o liga ao Benfica é amor. E isso, perdoem-me, está a salvo de qualquer discussão.


O maior Benfiquista

CameraAwesomePhoto (3)Chamado, por um conhecido blog, a nomear o maior Benfiquista, o meu amigo evocou o meu nome. Em vão, arriscaria dizer. Porque de grandes Benfiquistas está o país cheio, de grandes Benfiquistas está o mundo pejado. Benfiquistas que acompanham a equipa a qualquer estádio, enquanto eu me fico pelo café do Sr Coutinho. Benfiquistas que escrevem sobre o nosso clube a ritmo frenético por essa blogosfera, por esse facebook, cheios de razão, humor e inteligência. E eu, no meu cantinho, na minha lanchonete servindo apenas palavras esparsas em doses moderadas. Benfiquistas que assistiram ao vivo a momentos de glória, em Anfield Road ou Old Trafford, deixando-me a mim, humilde adepto, a missão de ir à Pedreira torcer pelos nossos, deixando-me a mim, sofredor treinado, o fardo de sair de Braga derrotado por Quim, eliminado por Ruben Amorim. Mas, confesso-o, saí feliz, com um estranho sorriso nos lábios. Porque, por muito que os grandes Benfiquistas não concordem, ver a nossa paixão é sempre fonte de prazer imenso. Vê-los, ali, a poucos metros, envergando camisolas berrantes, é motivo suficiente para acelerar o coração, para sentir no peito esse orgulho muito meu. O resultado é um apenas um pormenor  quando é de paixão que falo. E é disso que falo, daquela paixão incondicional que nos faz tremer as pernas, daquela paixão que nos faz vislumbrar beleza infinita na nossa amada, mesmo no seu pior dia, que nos faz sentir o sentido da vida cada vez que estamos com ela. Nos bons mas sobretudo nos maus momentos. Sim é paixão do que falo, e é essa paixão que ponho em tudo o que faço que alegra os meus dias. O título de maior Benfiquista devolvo-o ao remetente, a esse generoso amigo. Com o agradecimento de me ter dado, mais uma vez, motivo para vir aqui escrever umas esparsas palavras sobre a paixão de ser Benfiquista…