Archive for Julho, 2012

gosto

Gosto. Confesso que gosto da foto que fiz de Sean Rilley. Gosto e muito. Da aparência, do resultado final, da imagem pronta. Sim, falta-lhe nitidez, definição e cor. Falta-lhe o foco, também. E o significado, a mensagem, a intenção. Mas gosto, apesar disso, e muito. Serei o único, provavelmente. Não importa, há paixões que não se partilham…


arquitecto

Não fossem as lâmpadas e fios de cobre e estaria agora entre lápis e papeis. Não fosse o conjunto didático que recebi da minha mãe em tenra idade e estaria agora debruçado sobre um estirador. Não fosse a engenharia e seria provavelmente arquitecto.
Não sou, e por isso se foram os espaços, formas, vazios e volumes. Não totalmente, no entanto. É que, não me saindo das mãos, vão me entrando pelos olhos, não as fazendo de carvão, fixo-as em sais de prata. E estes, dispostos a preceito sobre um fino suporte de triacetato de celulose, chegaram-me pelas mãos do meu pai. Em bom tempo, pois graças a eles, graças a ele, guardo comigo portas, janelas, paredes, espaços, rampas, formas, escadas. Prevaleceu, no fundo, a engenharia oferecida pela minha mãe. A arquitectura, essa sobreviveu graças ao presente do meu pai…


Milton

Entrou casa adentro não teria eu mais de 6 ou 7 anos. Entrou ele, Chico, Gilberto, Bethânia, entraram todos, agora que se podia ouvi-los sem medo, agora que os tempos eram de liberdade. Entraram pretos, de vinil, exigindo rituais de limpeza e cuidados vários, antes de encherem a sala, antes de aplacarem a sofreguidão, sinal daqueles anos quentes. Saciada a fome, foram caindo pelo caminho, um a um, Gilberto, Bethânia, Simone. Chico, genial como poucos, manter-se-á para sempre na minha vida. Ele reaparecerá lá para 87, aprisionado numa cassete, habitando meu walkman, entretendo viagens de trem entre Coimbra-B e São Bento. Havia de voltar anos depois em forma de evocação, quando, pela primeira vez, nesse mítico bar na esquina da Aimorés com Maranhão, pedi um chopp que, ousaria dizer, serviu de água benta do meu baptismo Mineiro. Milton é pois meu padrinho. E foi a benção, o que lhe pedi ontem aqui, na cidade onde nasci. A ele que vagueou lentamente pelo palco, levitando sem lhe tocar, a ele de cuja presença duvidamos, tal o ar etéreo que o envolve, tal a distância que o separa da plateia dos mortais. Seria assim até ao final quando, descendo à terra, chegou perto o suficiente para se lhe ouvir um “Deus te abençoe”. Juro que ouvi, juro que era para mim…