Archive for Junho, 2012

refúgio

Por muito que fuja delas há algo nas gaivotas que me faz voltar. Sim, são abundantes dispensando exaustiva procura, são grandes dispensando longas teleobjectivas, são pouco arredias exigindo um mínimo de dissimulação. São alvo fácil, em suma. Sim, são monocromáticas, pouco graciosas, antipáticas, até. Mas rendem, mesmo assim, boas imagens. É pois a elas que volto quando a imaginação se mostra incapaz de me fazer voar a outras paragens, são elas que procuro quando a preguiça impera. São elas, no fundo, o meu refúgio em dias de tormenta…

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do São João

Dentre as minhas mais vivas memórias do São João o futebol ocupa um lugar incontornável. O golo de Poborsky que nos fez cair em 96 surgiu quando as sardinhas estavam já no fogareiro, quando os balões esperavam o ar quente que os faria subir aos céus húmidos da noite Portuense. 12 anos antes, todo o Caramulo se preparava para a festa daquele que, não sendo o seu padroeiro, é motivo bastante para comer umas boas sardinhas assadas, acompanhadas de broa e caldo verde. Desta feita éramos nós o underdog frente à poderosa França de Platini. Seria este, aliás, o carrasco que nos impediria de chegar pela primeira vez a uma final europeia. Não jogamos, desta vez, na véspera de São João. Mas é do jogo de hoje que sairá o nosso adversário da próxima quarta-feira.  Ironicamente será a França a cair hoje, caso a vontade de Platini se cumpra. Pouco me importa,  há contas contas para ajustar em qualquer caso. Venham pois as sardinhas, venha o verde-tinto. Depois da bola virão os balões, esses que são a minha mais antiga recordação de São João, quando, pela primeira vez os vi subirem aos céus de Junho em Pereiró, lançados do telhado da garagem do Sr. Almeida, para gáudio dos presentes. Assim seja hoje. E quem ganhar cairá aos pés de Portugal.


ao longe



Sim, com uma objectiva mais luminosa a imagem ganharia outro brilho. Ver-se-iam certamente as horas no  relógio da torre da Igreja da Barra. Sim com um corpo de última geração os contornos seriam nítidos, a gama de cinzentos completa, o grão inexistente. Mas não, não planeio trocar de equipamento. Certo é que algumas vezes procuro um novo corpo usado, mais actual, com melhor resolução, com um enorme LCD que dê para ver um jogo de futebol. Ou uma objectiva melhor, mais rápida, luminosa e manobrável do que a velhinha Nikkor. O sucesso da procura, no entanto, é directamente proporcional ao entusiasmo que nela invisto. Afinal a S3 é como se fosse uma extensão de mim mesmo, com suas manhas e as suas imperfeições de quem ficou preso entre o analógico e o digital. Afinal a Nikkor é a dificuldade que aguça o engenho, a limitação que espicaça a imaginação. É, mais do que isso, um sonho de adolescência tornado realidade tardia. Sim, com outro equipamento ver-se-iam as horas na torre da Igreja da Barra. Felizmente a Igreja da Barra não tem relógio. Fica todo o resto. O essencial.


Tudo o que eu devo ao futebol

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De cada vez que me sento num estádio, ou me ponho em frente ao televisor, ou me curvo diante de um transístor, não é aquele jogo que vejo, não é aquele jogo que ouço. Estou em 1989, faltam dez segundos para Fernando Gomes atirar à barra o penálti que impedirá o Sporting de bater o Nápoles de Maradona – e aí vai ele, Gomes, com a bola na mão, caminhando entre o círculo central e a grande área, o olhar pregado na relva como quem sabe que lhe caberá a ele a dúbia honra de glorificar a nossa derrota. Estou mais longe ainda, aliás: estou no Verão de 1987 e Vítor Damas anda aos gritos em cima do risco de golo, a correr de um lado para o outro da baliza e a fazer exigências à descoordenada barreira do Sporting, enquanto Dito, Nunes e Diamantino parecem discutir quem marcará o livre directo cedido instantes antes por Ralph Meade – e já aí está Diamantino, partindo para a bola à falsa fé e ali mesmo começando a desequilibrar, de modo ao mesmo tempo infecto e irremediável, a final da Taça de Portugal, a nossa primeira vaga oportunidade de compensar cinco anos sem títulos de qualquer espécie (isto num tempo em que cinco anos sem títulos de qualquer espécie ainda eram uma tragédia, note-se), e que, não por coincidência, morreria aos pés do Benfica.

Ao meu lado está o meu pai, ainda jovem. Olho-o de soslaio, como que voltando a tentar desvendá-lo. Todos os dias o vejo sair e regressar a casa, com a sua impecável farda azul – e é quase tudo. Não sei ainda o quanto o admirarei no futuro. Não sei ainda o papel que terá no meu olhar sobre o mundo a sua honestidade férrea. Não faço ideia sequer de que está já plantando em mim a semente renovadora (e até um pouco maligna) da auto-determinação, incutindo-me a urgência de suplantar o destino que me parece guardado. Ou talvez comece já a intuir alguma coisa, não sei. Estamos na cozinha fria dos Açores. Lá fora, o silêncio. Não passam automóveis na rua em dias de futebol – os próprios melros parecem suspender o seu desenfreado canto quando joga o Sporting. Há como que um estertor de ansiedade por dentro do meu pai. Ondas peristálticas percorrem-lhe o pescoço, o peito, o estômago – e, no entanto, nem um esgar, nem um salto incontido, nem um gesto de impaciência. Até que se confirma que perdemos. Perdemos sempre, na verdade. Sempre que é importante. E então ele ergue-se silencioso, tossica a sua tosse tímida e nervosa, como que dando por concluída a tarefa mais irrelevante e aborrecida do dia – e desaparece lá para trás, para o quintal, onde passará a noite com um maço e um escopro, abrindo buracos sem razão aparente, e que no fim-de-semana seguinte se ocupará de tornar a tapar, assim o Sporting volte a perder.

Ao significado de tudo isto, demoro ainda muito tempo a percebê-lo. Nos quinze anos seguintes haveremos de viver a dois mil quilómetros um do outro – e mesmo quando, a dada altura, uma parte do meu ano começar a ser vivida não a dois mil quilómetros dele, mas a cem metros apenas, a distância entre nós demorar-se-á a mesma. E, contudo, continuaremos a ter o futebol. Teremos sempre o futebol. Mesmo que não encontremos mais nada sobre o que falar um com o outro, haverá o Sporting. Às vezes ainda tentamos fugir-lhe. Fugir-lhe, não: transcendê-lo. Não há razão para fugirmos do Sporting, afinal: o Sporting sempre nos partiu o coração, mas o que lhe devemos é já muito mais importante do que a simples alegria. Tentamos diversificar a conversa, digamos. Falamos do trabalho. Dos afazeres. Da crise. Da meteorologia – e, enfim, outra vez do Sporting (ou da selecção nacional, durante as grandes competições internacionais), agora menos frustrados com o fracasso dos outros assuntos do que gratos por aquele maravilhoso lugar a que poderemos voltar sempre. E, a certa altura, já nem é sequer uma possibilidade de comunicação, aquele jogo: é uma declaração de amor. Como, se calhar, se limitou sempre a ser: apenas a única maneira que encontrámos os dois de dizer um ao outro que nos amávamos, sem termos de efectivamente utilizar essas palavras.

O pai. Julgo que não me engano se disser que a idade adulta começa no momento em que um homem é pela primeira vez capaz de admirar o seu pai. O meu pai. Tenho a certeza de que, por muito que me tivesse esforçado, e ainda que o houvesse mesmo feito, eu jamais teria conseguido ser durante cinco minutos metade daquilo que ele foi ao longo de toda a vida, sem uma hesitação, sem uma ressalva, sem outra intenção que não apenas sê-lo. E que ainda é, aliás. Muitos escritores fizeram questão, algures ao longo da vida, de homenagear o pai. Fizeram-no muitas vezes a título póstumo, outras tantas quando ele se encontrava no leito de morte. Fizeram-no como forma de estender o braço, de recuperar o tempo perdido, de vencer a distância. Toda a literatura é isso, provavelmente: o impulso de vencer a distância, a irredutibilidade desse impulso. A mim, o momento de fazê-lo sobreveio-me talvez mais cedo do que a outros (embora mais tarde do que a muitos também). Chegou quase como uma epifania, sem se anunciar, quando eu sabia já que queria falar por uma última vez de futebol, mas ainda não porquê. E chegou avassalador: tomou o texto nas mãos e foi por aí fora, instrumentalizando-nos a todos, as pessoas, os lugares, os objectos, a rotinas, os cheiros – todos reduzidos a não mais do que ferramentas, como se a nós próprios não nos restasse mais do que abrir buracos sem razão aparente, talvez apenas para que pudéssemos fechá-los mais tarde, ainda que de novo por nenhum motivo que não o de manusear buracos.

Ao livro que resulta desse exercício decidi chamar-lhe “Os Sítios Sem Resposta”. A vida, se alguma vez puder ser reduzida a um sentido só, não passará provavelmente disso: de uma deriva pelos espaços que nada têm para dizer-nos de volta, da procura de um lugar a que possamos chamar nosso, do desorientado mas furioso caminho de regresso a casa. Mas, sobretudo, foi ao lado do meu pai que eu li pela primeira vez esse verso, esse maravilhoso poema de Tolentino de Mendonça que eu nem imaginava ainda roubar. “Regressamos a uma terra misteriosa/ trazemos uma ferida/ e o corpo ferido/ imprevistamente nos volta/ para margens mais remotas// (…) para além do jogo das nossas defesas/ qualquer coisa interior/ a intensa solidão das tempestades/ os campos alagados,/os sítios sem resposta// o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços.” Era sábado, eu estava à beira da mais importante e dramática decisão da minha vida (um momento puramente revolucionário, talvez, mas isso agora é o menos) e tinha por acaso o meu pai a meu lado, em Lisboa. Por acaso, não. De maneira nenhuma por acaso: alguma coisa nos dissera que devíamos estar juntos naquele dia, naquele tempo – alguma coisa dentro de nós nos encaminhara para ali. Passámos a tarde juntos, em silêncio, deambulando pela casa. Foi aí que eu o li. “Silêncio.” E então, sim, entrámos no meu Smart. Abrimos o tejadilho. Pusemos um disco de funk – e dirigimo-nos para Norte.

O Sporting, naturalmente, perdeu. Se ganhasse, conquistaria também o campeonato, pondo fim a novos quatro anos sem títulos de importância alguma. Durante mais de uma hora, o Sporting em cima deles. Ataques pela esquerda, ataques pela direita, determinação defensiva, resiliência. O Sporting comovente, como tantas vezes é o Sporting, sobretudo se a caminho de mais uma bela derrota. Pelo menos, eu recordo-o assim: abnegado e comovente. Até que, aos oitenta e quatro minutos, um pontapé longo do guarda-redes adversário. Para além do jogo das nossas defesas, qualquer coisa interior. O corpo ferido. Dois toques, uma triangulação – e nós reconhecendo já aquilo, aquele ritmo, aquela melodia. O silêncio. A intensa solidão das tempestades, os campos alagados, os sítios sem resposta. Um remate – e, pronto: golo do FC Porto. O teu silêncio, ó Deus – o teu silêncio altera por completo os espaços. Golo do FC Porto e, de novo, o fracasso. Mas, de novo também, não apenas meu. Não apenas dele. Nosso. O estádio atónito, insultos trocando-se entre adversários, murros digladiando-se entre amigos. E nós ali. Um ao lado do outro. No silêncio de sempre – voltando à cozinha fria dos Açores, ouvindo outra vez suspender-se o canto dos melros e, enfim, dispersando, ele para o escopro com que abriria buracos pelo quintal, eu ao quarto da infância, onde poria uma almofada sobre a cabeça, para reprimir as lágrimas, e tentaria dormir até ao fim-de-semana seguinte.

Nenhuma literatura alguma vez fez isto por mim. Nenhuma poesia, nenhuma arte, nenhuma filosofia. Fê-lo o futebol. E dedicar-lhe um romance, bem vistas as coisas, é pequeníssima penitência para tão grande milagre.

JOEL NETO

(autor do romance “OS SÍTIOS SEM RESPOSTA”, Porto Editora 2012)