Archive for Maio, 2012

slow down…


de Matosinhos

Chegou a Matosinhos corria o ano de 1984. Chegou, ainda em Matosinhos se faziam conservas, ainda em Matosinhos se pescava, ainda o ar se tornava pestilento em dias certos, assim mandava a fábrica da tripa. Para chegar à praia rumava-se então a oeste, atravessando indústrias e velhos armazéns, que enchiam os quarteirões entre a velha escola industrial e a marginal. De frente para o mar a imponente fábrica dos fermentos holandeses, tornando adocicado o ar, fazendo esquecer a maresia.
Hoje, desse Matosinhos, resta o mar. A marginal, ampla e luminosa, é agora ladeada por prédios altos que, sobrepondo-se amontoados, ora parecem luxuosos, beijados pela maresia, ora lhe voltam costas, olhando deprimidos para os quarteirões abandonados entre a era industrial e a deriva imobiliária que se lhe seguiu. Das fábricas nem sinal. Das conservas nem lembrança. Resta o grande Atlântico. E o sol. E basta.


a fuga

Fugia a estas imagens, fugia de fotografias invasivas, fotografias que, corrompendo irremediavelmente o momento, o faziam parecer plástico, pouco autêntico, artificial. Impuro. Fugia de fotografias fáceis, clichés coloridos, com pores-do-sol, mares e areia, abraços ou contemplações. Mesmo da cor lhe apetecia fugir, dos tons quentes e alaranjados, das nuvens, coqueiros ou luas. Fugia. Mas não dali, não daquele momento. Daquele estrado de madeira apontando irremediavelmente o sol posto, daquela conversa cúmplice, daquele beijo adivinhado, daquele fim-de-tarde de um qualquer Maio, na Foz do Douro, daquele gigantesco pastiche não conseguiu ele fugir…