Split, versão II

I

Chegava dividido àquele encontro. Chegava sabendo que, sendo o certo falar-lhe, o mais cómodo seria não o fazer, e assim continuar com a rotina agradável, segura. Evitar dessa forma aquele pequeno terramoto que podia mudar as suas vidas, as suas adolescências.

Não era a primeira vez que se via naquela situação, sabia do arrependimento que viria depois, da frustração, da incredulidade, tudo enorme, tudo esmagador. Sabia que procuraria conforto na inevitabilidade de outra ocasião, de outra oportunidade, essa sim perfeita, em que tudo, absolutamente tudo o empurraria para ela, para o seu destino. Destino de ambos, aliás.

Devolveu-lhe o vinil, tocando na sua mão, querendo-lhe falar, mas certo de que não o faria. E naquele momento, no pátio da escola onde tantas vezes se encontraram, pressentiu algo de diferente, pressentiu que talvez aquele encontro fosse singular, um ponto sem retorno, uma última oportunidade. Pressentiu-o bem, e foi aquela a última vez que a veria em muitos anos.

A primeira fora alguns anos antes, no Colégio de Santa Maria onde fizera o 1º e 2º anos do ciclo preparatório. Teriam 10 ou 11 anos, e o normal seria esquecê-la em algumas semanas, provavelmente ao ver uma amiga sua que acharia infinitamente mais bonita. Life goes on. Mas não, não foi assim. E a bela Cláudia haveria de permanecer um longo período como a sua paixão, pouco adolescente, importante demais para a sua idade. Muito para além do razoável, aliás. Depois da admiração à distância, da veneração, chegara finalmente ao seu círculo de amigos. Trocara breves palavras, articulara pequenas conversas. Emprestaram-se discos, partilharam música. Sublimes esses tempos. Para quê estragá-los, então? Para tentar algo quando era evidente que ela estava num patamar de perfeição inatingível?

Daí a hesitação daquela tarde, daí o recato, daí as palavras vagas e de circunstância naquele ponto de viragem depois do qual nada seria como dantes. Sentiu-o quando, ao largar o disco, ao deixar a sua mão e seguir o caminho da mesmice e do silêncio, se viu sacudido por um estremecer. Soube-o quando se viu irremediavelmente dividido, partido em dois, quando viu, estupefacto, que ao afastar-se dela, uma metade de si ficava para trás, continuando a segurar-lhe docemente a mão. Assustado apressou o passo. Não o suficiente, no entanto, para deixar de ouvir na boca do outro, na sua voz, as palavras que sempre sonhou dizer-lhe, confessando-lhe o que já era público, formalizando o início desse namoro adolescente que tanto havia desejado. Correu. Mas não o suficiente para afastar do seu pensamento o beijo que certamente dariam. Ele e ela.

Remeteu-se ao silêncio, desapareceu, tentando entender o que se havia passado. Tentando articular explicações para o insólito. Pensando como faria, sabendo que havia agora dois Pedros circulando pelas ruas de Tondela.

II

Descia a serra na camioneta que o levaria à escola. Aproveitava para tentar recompor-se do susto, para perceber como faria para sobreviver incólume a esses últimos dias de Tondela. O ano escolar terminava, e o próximo iniciar-se-ia noutras paragens. Sabia-o desde que recebera de sua mãe uma caixa cheia de interruptores, lâmpadas e fios de cobre coloridos. Sabia-o desde que pela primeira vez levara um punhado de electrões provenientes de uma velha pilha de 4,5V a atravessar o fino filamento de tungsténio de uma pequena lâmpada. Por força da sua opção pela Electrotecnia, deveria continuar os estudos em Viseu ou no Porto. A opção lógica seria a sua terra Natal, a escola d’o Infante a sua primeira escolha. Via-se já chegando de comboio à Avenida de França, descendo Júlio Dinis depois de passar pela rotunda da Boavista. Sonhava-se já entre amperímetros e voltímetros velhos, de pesada madeira e certeiras escalas, operando reóstatos, verificando a lei de Ohm, comprovando as leis de Kirchoff.

A sua preocupação era agora evitar encontros indesejáveis, esquivar-se aos locais habituais, fugir dos percursos costumeiros. Evitar a todo o custo cruzar-se com a sua invejada metade que ficara para trás. Havia lido, um dia, as palavras de Hugo Pratt que, pela boca de Corto Maltese, assegurava que do cruzamento com um seu duplo surgiriam tragédias de proporções bíblicas. E de Corto não se duvida. Mudou os seus passos, os seus hábitos e até as suas companhias. Naquela tarde recebeu o convite com precaução. Uma festa de garagem, naquela parte da Vila, pareceu-lhe um risco. Moderado, mas um risco, em todo o caso. Mas um risco que valia a pena correr, pela companhia. Conhecera-a meses antes, no início desse ano, lá por Outubro. O fugaz namoro que então surgiu não resistiu à inexperiência, à imaturidade de dois pré adolescentes. O seu fim, no entanto, seria início de uma ligação próxima, cada dia mais próxima, como se só depois disso se tivessem realmente conhecido. Era difícil, pois, resistir às suas palavras. Ao seu convite. A essa festa de despedida. Do ano, de Tondela. Dela. E de si mesmo.

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