do meu pai


O Meu pai. Quando deixou Portugal rumo ao Brasil, lá por 59, levava na mala uma velha Rolleicord. Com ela o sonho de ser fotógrafo em terras de Vera Cruz. Regressou 3 anos depois sem cumprir o destino, deixando para trás os planos que o fizeram embarcar para a Cidade Maravilhosa. deixando para trás a Rolleicord. Não deixou, no entanto, a paixão pela fotografia, guardada na luminosa Rolleiflex que acompanhou o seu regresso. Depois disso vieram as Zenit, as Praktica, Chinon e Pentax. E, a cada nova máquina, havia uma velhinha que, caindo nas minhas mãos enchia de felicidade os dias da minha infância e adolescência. À parte deste jogo, desse ciclo, permaneceu sempre a mítica Rolleiflex, companheira de viagem, impossível de destronar, insubstituível no seu papel de guardiã da paixão. Anos voaram, máquinas e máquinas passaram pelas minhas mãos. Até que, sem que ninguém o esperasse a velha Rolleicord, abandonada e desprezada, incompreendida na sua simplicidade rude, na sua dificuldade de aceitar olhares menos atentos, regressa a Portugal vinda do Rio de Janeiro. Para morrer em mãos conhecidas, talvez. E essa sim, fez o caminho das outras, acabando nas minhas mãos que, incrédulas, lhe pegaram pela primeira vez. Que, trémulas, procuraram entender os processos de outros tempos. A ausência de fotómetro, a necessidade de armar o obturador a cada disparo, a focagem dura, o visor escuro. A paixão, enfim. Outras vieram, entretanto, compactas, reflex, analógicas e digitais. E o ciclo recomeçou. Com Luisa, à espreita, esperando cada máquina nova para que lhe caia nas mãos uma velhinha capaz de dar largas à sua imaginação. Esperando, ansiosamente, a Fuji que agora me acompanha. Não espera a Rolleicord, essa que permanece no seu patamar inatingível, no seu papel de guardiã da minha paixão…

27 de Janeiro de 2012

(Para o meu pai que hoje completa 78 anos…)

5 responses

  1. Eram câmeras lindas, né? Papai tinha uma Hasselblad, hoje com meu irmão. Depois veio uma Pentax, se não me engano, que ele usou durante muitos e muitos anos. Minha história foi toda documentada com ela…

    Janeiro 28, 2012 às 2:14 pm

    • Mônica, a Hasselblad fez parte do meu imaginário. Sempre sonhei ter uma. Essa, de seu pai, vou querer ver quando voltar a BH…
      Beijo

      Fevereiro 1, 2012 às 9:55 pm

  2. Mais um otimo texto! Parabéns pro seu pai!!!
    Bjs, Bê

    Janeiro 28, 2012 às 11:28 pm

  3. Isabel

    textos assim surgem quando a paixão pelas palavras tem o mesmo tamanho da paixão que temos pelas pessoas. Muitos parabéns por mais um belissimo texto, meu amigo!

    Janeiro 30, 2012 às 10:49 am

  4. dufas

    Mais uma das tuas lindezas, Pedro. Parabéns para seu pai e pra você também.🙂
    Helê

    Março 19, 2015 às 5:15 pm

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