banda sonora para um regresso a casa

Ao contrário dos confortáveis voos em direcção à sua Belo Horizonte, são insuportavelmente longos os regressos nocturnos a Lisboa. Depois de muitas viagens e pouco sono habituara-se a olhar em volta, tentando adivinhar os companheiros de jornada. Tentando adivinhar-lhes a origem, o destino, os pensamentos. À direita, de meia idade, camisola 7 do Atlético. A cabeça estará provavelmente na Arena do Jacaré, onde neste momento decorre o derby que, espera, marcará a virada do Galo rumo à permanência na série A. Não fora isso e estaria já a pensar no trabalho que retomará amanhã, após as férias. Para trás a família, o chopp e o pão de queijo. Vamos fugir adivinho, tocando talvez no mp3. Atrás uma solitária menina, vinte-e-poucos,  belas e finas feições, tez branca, tão branca quanto o permite o inverno Brasileiro, cabelo liso, comprido. Chorosa, escutava ontem ao luar no iPhone, pensando, ora num qualquer doutorado que a espera na Europa, ora no namorado que, desde a sumptuosa festa dos seus 15 anos usa uma pequena aliança no anelar direito. Mais à frente, à direita, um músico denunciado pelo volume que o acompanhou pelo aeroporto Tancredo Neves, Confins. Terá tocado, imagina, com a Filarmónica de Minas Gerais nessa mesma manhã no Grande Teatro do outrora Cine Palladium. Aí terá tocado com mestria a Suite Vila Rica, de Mozart Camargo Guarnieri, inspirada na revolta estudantil que, urdida nos anos 40 nos corredores do antigo Palácio do Governador de Ouro Preto, conseguiu a destituiçãos de um qualquer reitor déspota. Merry Christmas Mr Lawrence, piano solo de Ryuichi Sakamoto não poderia vir mais a calhar. Mais à frente, um casal desesperado para acalmar os dois filhos que, de tenra idade, queriam estar algures, não ali, naquele espaço restrito de ambiente pesado. Tal era a azáfama que não se atreveu sequer a adivinhar-lhes fosse o que fosse. Lembrou-se, sim, da viagem que, 10 anos antes fizera com Luisa e Francisco. Lu, então com 4 anos, era já moça. Ao Kiko, com 6 meses, não lhe faltando comida, não lhe faltava nada. E eis Lisboa à vista, sem tempo para outras adivinhações. Eis o fim de mais uma noite em claro.

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One response

  1. Fáço o mesmo ‘exercício’ quando estou numa fila, ou dentro de um ônibus, ou almoçando sozinha num restaurante durante a semana… Diverte e passa o tempo! 🙂
    bjk

    Dezembro 7, 2011 às 3:00 pm

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