Archive for Dezembro, 2011

Milady

Para a Ana Celeste. Com os meus parabéns. E uma vénia.

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Quinzena

Já a manhã de quarta-feira ia alta quando, deixando para trás o centro histórico da Capital do Gótico Português, chegou à taberna do Quinzena. Chegou mão dada com uma promessa, de uma mistura única de sabores só possível naquele planalto fortificado sobre o majestoso Tejo. Um mangusto, especialidade escalabitana que, prometendo acompanhar com garbo um muy clássico bacalhau assado, é servida apenas à segunda-feira. Não chegou a ser decepção, pois a notícia ouviu-a ainda extasiado pela decoração, feita de cartazes amarelecidos e fotografias da festa brava, de touros e toureiros, de velhas glórias e novas promessas. Deliciado ainda pelo mobiliário, pelos bancos grosseiros, daqueles com um providencial buraco no centro, pelas mesas, quadradas com tampo de mármore nobre na sua alvura. Cobrindo-as toalhas coloridas e a baixela, pratos de barro e pequenos copos, bem típicos de uma taberna de outrora. Não havendo mangusto a escolha recaiu sobre umas perfeitas plumas de porco preto que, grelhadas no ponto, com sal a preceito, têm o condão de lembrar as velhas manhãs de domingo da sua infância em que, ajudando ao desmanche do porco, provava as primeiras carnes, atiradas para as brasas apenas com sal grosso como companhia. Antes disso, já um surpreendente prato de ovos mexidos com farinheira se havia revelado prémio suficiente para justificar a deslocação a Sul. Para terminar em beleza, copos de dedal e uma selha cheia de garrafas variadas, incluindo um competente licor de poejo e uma luminosa aguardente velha. Saciado, saiu pelas portas de vai-e-vem que adivinha ali desde o início dos tempos. Saiu com a certeza do regresso, a Santarém e à Taberna do Quinzena, para um mangusto ou para qualquer outra iguaria, pouco importa.


Belo Horizonte

Tudo era novo então, tudo era encanto, tudo descoberta. O ipê da Praça da Liberdade, o parque das Mangabeiras, o pão de queijo ou a coxinha de frango com catupiry da Tia Clara. A Pampulha de Burle Marx, a feira da Afonso Pena e até o JK de Óscar. O Bar Brasil, os azulejos de Portinari, o caldo de cana com pastel de banana do boteco da Tupis. Tudo era deslumbre e as paixões sucediam-se a cada esquina. O Palácio das Artes, o Parque Municipal, O nome de ilustres mineiros, uns de nascimento outros honorários, surgiam na sua boca com a proximidade íntima de velhos amigos. Corria o ano de 1992, ainda BH não era centenária, quando, ali chegando pela primeira vez se viu tomado de amores pela cidade. Pelo ambiente de metrópole, pela novidade que transformava  qualquer passeio, por insignificante que fosse, numa experiência ímpar. E foi num desses passeios ao baixo centro que, sem planos, ele recém-mineiro e ela de papel passado, entraram na Galeria Ouvidor e puseram no anelar direito uma pequena e discreta aliança. Sem cerimónia. Sem dia certo. Mas é esse dia acertado, mais do que qualquer outro de que ele se lembra, a cada regresso…

(Nota: inaugurada a  12 de Dezembro de 1897, Belo Horizonte está hoje de parabéns pelos seus 114 anos…)


Matosinhos (II)

Corria então o ano de 84, ano de Jogos Olípicos de Los Angeles. Os últimos da Guerra Fria e dos grandes boicotes, os jogos do épico Ouro de Carlos Lopes, da Prata de Rosa Mota. Ano do Europeu em que, brilhando Chalana venceu Platini, nessa véspera de São João em que já todo o Caramulo se preparava para a sardinhada dessa noite. Findo esse ano estranho, depois desse longo Verão a vida recomeçaria longe de Tondela, em Matosinhos. Vida nova, amigos novos. A mudança, essa começara a delinear-se anos antes, no momento em que recebera de sua mãe um presente inesperado. Um conjunto didático de electricidade, com pequenas lâmpadas, interruptores e até uma campainha, fios de cobre e uma bateria, de 4,5V, com patilhas, uma longa e outra curta, distinguindo assim a sua polaridade. Possibilidades infinitas se abriam com aquela parafernália, ligações improváveis, resultados surpreendentes. E depois os telefones que, avariados e condenados à sucata, lhe eram oferecidos  pelo Sr Firmino, guarda-fios e seu vizinho, para serem sucessivamente esventrados e transformados em peças estranhas para as quais havia sempre uma função, uma utilidade. Ou os arrancadores de lâmpadas fluorescentes gastos, que com a sua misteriosa lâmina bi-metálica conferiam magia a qualquer montagem. Mais tarde os pequenos electrodomésticos que, após muitos anos de trabalho fiel, lá acabavam por avariar, contribuindo com novos componentes, que logo se veriam trespassadas por uma corrente de electrões vindas das inesgotáveis baterias de 4,5V. Trespassado também, decidiu então o que era óbvio, que era aquilo que queria estudar. Nem que fosse necessário sair do Caramulo, virar costas a Tondela. Assim foi, deixando para trás definitivamente esse ano tão estranho.


banda sonora para um regresso a casa

Ao contrário dos confortáveis voos em direcção à sua Belo Horizonte, são insuportavelmente longos os regressos nocturnos a Lisboa. Depois de muitas viagens e pouco sono habituara-se a olhar em volta, tentando adivinhar os companheiros de jornada. Tentando adivinhar-lhes a origem, o destino, os pensamentos. À direita, de meia idade, camisola 7 do Atlético. A cabeça estará provavelmente na Arena do Jacaré, onde neste momento decorre o derby que, espera, marcará a virada do Galo rumo à permanência na série A. Não fora isso e estaria já a pensar no trabalho que retomará amanhã, após as férias. Para trás a família, o chopp e o pão de queijo. Vamos fugir adivinho, tocando talvez no mp3. Atrás uma solitária menina, vinte-e-poucos,  belas e finas feições, tez branca, tão branca quanto o permite o inverno Brasileiro, cabelo liso, comprido. Chorosa, escutava ontem ao luar no iPhone, pensando, ora num qualquer doutorado que a espera na Europa, ora no namorado que, desde a sumptuosa festa dos seus 15 anos usa uma pequena aliança no anelar direito. Mais à frente, à direita, um músico denunciado pelo volume que o acompanhou pelo aeroporto Tancredo Neves, Confins. Terá tocado, imagina, com a Filarmónica de Minas Gerais nessa mesma manhã no Grande Teatro do outrora Cine Palladium. Aí terá tocado com mestria a Suite Vila Rica, de Mozart Camargo Guarnieri, inspirada na revolta estudantil que, urdida nos anos 40 nos corredores do antigo Palácio do Governador de Ouro Preto, conseguiu a destituiçãos de um qualquer reitor déspota. Merry Christmas Mr Lawrence, piano solo de Ryuichi Sakamoto não poderia vir mais a calhar. Mais à frente, um casal desesperado para acalmar os dois filhos que, de tenra idade, queriam estar algures, não ali, naquele espaço restrito de ambiente pesado. Tal era a azáfama que não se atreveu sequer a adivinhar-lhes fosse o que fosse. Lembrou-se, sim, da viagem que, 10 anos antes fizera com Luisa e Francisco. Lu, então com 4 anos, era já moça. Ao Kiko, com 6 meses, não lhe faltando comida, não lhe faltava nada. E eis Lisboa à vista, sem tempo para outras adivinhações. Eis o fim de mais uma noite em claro.