01 split


01.

Chegava dividido àquele encontro. Chegava sabendo que, sendo o certo falar-lhe, o mais cómodo seria não o fazer, e assim continuar com a rotina agradável, segura. Evitar dessa forma aquele pequeno terramoto que podia mudar as suas vidas, as suas adolescências. Não era a primeira vez que se via naquela situação, sabia do arrependimento que viria depois, da frustração, da incredulidade, tudo enorme, tudo esmagador. Sabia que procuraria conforto na inevitabilidade de outra ocasião, de outra oportunidade, essa sim perfeita, em que tudo, absolutamente tudo o empurraria para ela, para o seu destino. Destino de ambos, aliás. Devolveu-lhe o vinil, tocando na sua mão, querendo-lhe falar, mas certo de que não o faria. E naquele momento, no pátio da escola onde tantas vezes se encontraram, pressentiu algo de diferente, pressentiu que talvez aquele encontro fosse singular, um ponto sem retorno, uma última oportunidade. Pressentiu-o bem, e foi aquela a última vez que a veria em muitos anos. A primeira fora alguns anos antes, no Colégio de Santa Maria onde fizera o 1º e 2º anos do ciclo preparatório. Teriam 10 ou 11 anos, e o normal seria esquecê-la em algumas semanas, provavelmente ao ver uma amiga sua que acharia infinitamente mais bonita. Life goes on. Mas não, não foi assim. Foi ela que, resistindo ao tempo, haveria de permanecer um longo período como a sua paixão, pouco adolescente, importante demais para a sua idade. Muito para além do razoável, aliás. Depois da admiração à distância, da veneração, chegara finalmente ao seu círculo de amigos. Trocara breves palavras, articulara pequenas conversas. Emprestaram-se discos, partilharam música. Sublimes esses tempos. Para quê estragá-los, então? Para tentar algo quando era evidente que ela estava num patamar de perfeição inatingível? Daí a hesitação daquela tarde, daí o recato, daí as palavras vagas e de circunstância naquele ponto de viragem depois do qual nada seria como dantes. Sentiu-o quando, ao largar o disco, ao deixar a sua mão para seguir o caminho da mesmice e do silêncio, se viu sacudido por um estremecer. Soube-o quando se viu irremediavelmente dividido, partido em dois, quando viu, estupefacto, que ao afastar-se dela, uma metade de si ficava para trás, continuando a segurar-lhe docemente a mão. Assustado apressou o passo. Não o suficiente, no entanto, para deixar de ouvir na boca do outro, na sua voz, as palavras que sempre sonhou dizer-lhe, confessando-lhe o que já era público, formalizando o início desse namoro adolescente que tanto havia desejado. Correu. Mas não o suficiente para afastar do seu pensamento o beijo que certamente dariam. Ele e ela. Remeteu-se ao silêncio, desapareceu, tentando entender o que se havia passado. Tentando articular explicações para o insólito. Pensando como faria, sabendo que havia agora dois Pedros circulando pelas ruas de Tondela.

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4 responses

  1. Isabel

    Esta (vossa) história é deliciosa! E a ternura com que a contas é envolvente.

    Novembro 14, 2011 às 12:04 pm

  2. anaceleste

    Gosto, pois gosto! E mais uma vez constacto que a ilusão da perfeição infinita é um mar de instransponíveis enganos. Mas convenhamos que é é uma tendência muito masculina : as tágides e as musas são fêmeas e só poderiam sê-lo. Qualquer mulher encontraria um pelo fora do sítio, um modo de cruzar a perna que tornaria o “deus” humano, revestindo-o de outras possibilidades:-). os grandes amantes são os homens. ah pois são.

    Novembro 14, 2011 às 4:29 pm

  3. Tendes verdade, Milady, mas oh, quão delicioso é esse mar de intransponíveis enganos…

    Novembro 14, 2011 às 11:23 pm

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