Archive for Novembro, 2011

Santa Trinitá

Começou por ser a estátua, o objecto da fotografia, a estátua que, rematando a Ponte de Santa Trinitá coincide com o local onde Dante viu Beatrice. Começou por ser ela o alvo, com a sua alvura e delicadeza. Mas depressa o olhar foi abrindo para os turistas que, ignorando a sua beleza, admiram a fotogénica Ponte Vecchio. Acompanhou-o o zoom, fixando o instante em que os olhares se dividem, em que nenhum admira a Primavera de Pietro Francavilla. Apenas o do fotógrafo.    


01 split


01.

Chegava dividido àquele encontro. Chegava sabendo que, sendo o certo falar-lhe, o mais cómodo seria não o fazer, e assim continuar com a rotina agradável, segura. Evitar dessa forma aquele pequeno terramoto que podia mudar as suas vidas, as suas adolescências. Não era a primeira vez que se via naquela situação, sabia do arrependimento que viria depois, da frustração, da incredulidade, tudo enorme, tudo esmagador. Sabia que procuraria conforto na inevitabilidade de outra ocasião, de outra oportunidade, essa sim perfeita, em que tudo, absolutamente tudo o empurraria para ela, para o seu destino. Destino de ambos, aliás. Devolveu-lhe o vinil, tocando na sua mão, querendo-lhe falar, mas certo de que não o faria. E naquele momento, no pátio da escola onde tantas vezes se encontraram, pressentiu algo de diferente, pressentiu que talvez aquele encontro fosse singular, um ponto sem retorno, uma última oportunidade. Pressentiu-o bem, e foi aquela a última vez que a veria em muitos anos. A primeira fora alguns anos antes, no Colégio de Santa Maria onde fizera o 1º e 2º anos do ciclo preparatório. Teriam 10 ou 11 anos, e o normal seria esquecê-la em algumas semanas, provavelmente ao ver uma amiga sua que acharia infinitamente mais bonita. Life goes on. Mas não, não foi assim. Foi ela que, resistindo ao tempo, haveria de permanecer um longo período como a sua paixão, pouco adolescente, importante demais para a sua idade. Muito para além do razoável, aliás. Depois da admiração à distância, da veneração, chegara finalmente ao seu círculo de amigos. Trocara breves palavras, articulara pequenas conversas. Emprestaram-se discos, partilharam música. Sublimes esses tempos. Para quê estragá-los, então? Para tentar algo quando era evidente que ela estava num patamar de perfeição inatingível? Daí a hesitação daquela tarde, daí o recato, daí as palavras vagas e de circunstância naquele ponto de viragem depois do qual nada seria como dantes. Sentiu-o quando, ao largar o disco, ao deixar a sua mão para seguir o caminho da mesmice e do silêncio, se viu sacudido por um estremecer. Soube-o quando se viu irremediavelmente dividido, partido em dois, quando viu, estupefacto, que ao afastar-se dela, uma metade de si ficava para trás, continuando a segurar-lhe docemente a mão. Assustado apressou o passo. Não o suficiente, no entanto, para deixar de ouvir na boca do outro, na sua voz, as palavras que sempre sonhou dizer-lhe, confessando-lhe o que já era público, formalizando o início desse namoro adolescente que tanto havia desejado. Correu. Mas não o suficiente para afastar do seu pensamento o beijo que certamente dariam. Ele e ela. Remeteu-se ao silêncio, desapareceu, tentando entender o que se havia passado. Tentando articular explicações para o insólito. Pensando como faria, sabendo que havia agora dois Pedros circulando pelas ruas de Tondela.


III. Pompeia

Chegava a Pompeia depois de uma longa manhã em Herculano. Cidade costeira que o Vesúvio soterrou com a sua lava escaldante, que o Vesúvio condenou, nesse ano de 79 da nossa era, ao esquecimento e ao degredo, longe do Tirreno, razão da sua vida, raiz da sua existência. Chegava a Pompeia extasiado pela modernidade dessa vila costeira, cansado pelo seu urbanismo surpreendente, pela modernidade Romana terminada abruptamente pela erupção que, presenteando a operária Herculano com calor e lava, havia de sepultar a cosmopolita Pompeia sob uma chuva de cinzas. Que, liquidando brutalmente essa próspera vila, empurrando os seus habitantes para uma dolorosa morte na praia, sepultaria delicadamente a colossal Pompeia, preservando toda a sua monumentalidade. Chegara então, saindo da Circuvesuviana, a Porta Marina sabendo que só uma pizza lhe poderia devolver a energia necessária para percorrer as vias e os vicolos, virtudes e vícios da grande metrópole. Funghi e Pomodoro, abundantemente coberto por Mozzarela, bem longe da simplicidade da clássica Margherita de Nápoles. Resultou, pois foram intermináveis as calçadas que o haviam de levar à casa do Fauno, ao Odeon, ao Lupanare. Às quintas, enfeitadas com os tons de Outono das videiras, e à novíssima e moderna arena construída já longe do bulício da Metrópole. Depois todo o caminho de volta, longo, interminável, a conta certa para assistir chegar ao forum, já o sol desaparecia no mar, beijando as brancas colunas com sua luz quente e dura. A tempo de, novamente na Circumvesuviana, rumar a Sorrento…


II Nápoles

Foi Nápoles a desgraça de Diego Armando. Decadente e suja, mafiosa e perversa. Devoto de Maradona, chegara à Piazza Garibaldi com baixas expectativas. Seria a cidade sobretudo um posto avançado para, usando a Circumvesuviana, chegar às míticas Herculano e Pompeia. Foi assim que, passando Porta Nolana, se dirigiu a Castel Nuovo, seguindo o caminho mais recto, passando por vielas sujas e praças decadentes, roupa nas janelas, construções caóticas e futebol de rua, futebol como lixo, por todo o lado. Mas é curva a arte do futebol, chapéu, trivela, livre em arco, passe de letra. Como é tudo menos linear a trajectória de um 10 genial, com tempos negros e momentos de glória. É curvo também, o golfo de Nápoles, fazendo suceder aleatóriamente beleza e decadência, esplendor e pretenciosismo, ordenamento e caos. Foi assim que, encontrando fechada a pizzaria onde pretendia retemperar energias entretanto esgotadas pelos intermináveis passeios, deu de cara com a mítica Da Michele. Não fazia questão de ali ir, detestara o filme onde Julia Roberts comera a lendária Margherita. Mas, naquele momento, achou melhor não desafiar o capricho do destino que o levara àquela porta discreta. Em boa hora o fez, pois não sendo a melhor pizza que comeu, longe disso aliás, foi a mais surpreendente. Desarmante na simplicidade, única no gosto, encantadoramente enquadrada no ambiente informal e familiar, com retratos de família que, desde 1870, se ocupava daquele singelo e mágico forno. Talvez volte a Nápoles, talvez. À Da Michele voltará. Assim queira o destino caprichoso…

(Quis o destino que escrevesse este texto no dia de aniversário de Pablo Aimar, outro mítico 10, o melhor que vestiu de águia ao peito. Parabéns a ele…)


I. Roma

Chegava a Roma certo de que as horas que ali passaria seriam escassas, apenas as necessárias para assistir ao nascimento de uma paixão. Afinal todos diziam da sua majestosidade, da história a cada esquina, do museu a céu aberto. Chegava a Termini decidido a não perder tempo com minudências, demorados almoços, restaurantes da moda. De esquina, a Pizzaria Etna parece piscar o olho a quem, saindo dessa enorme porta, se decide a explorar a cidade aberta. Despretenciosa, rápida, honesta. Tal como o taglio de Margherita obviamente acompanhada de uma Nastro Azurro. Ali voltaria depois dessa jornada, com pressa de rumar a Nápoles. Ali voltaria buscando conforto para a frieza com que Roma o havia recebido. Ali voltaria para, seduzido por mais um taglio de Pizza, decidir dar uma segunda oportunidade à cidade. Voltará, é certo. A Roma, e àquela esquina que, evocando o vulcão Siciliano será porta de entrada para mais uma jornada, no futuro. E aí, quem sabe, nascerá uma paixão…