Archive for Outubro, 2011

bom fim-de-semana I

Ao que parece será o último fim-de-semana estival deste Outono…

 

 


14…


desesperança

a.notícia À notícia recebera-a com estupefacção. Com um murro no estômago, como um tiro no peito, terá dito um clérigo. Sim, no fundo esperava-a, como a esperavam todos os que, deixando o conforto das ideias profusamente repetidas como verdades incontestáveis, observavam a situação com um mínimo de senso crítico. Afinal tinham sido anos de fuga para a frente, de glamour, de excessos, de orgias, que mais não pretendiam do que o benefício imediato e egoísta, mais não fizeram do que minar todas as bases razoáveis de uma sociedade viável.

o.conteúdo O anunciado já o vira antes, a mesma receita repetida pela última vez, vezes sem conta. Agora sim, era mesmo necessário o sacrifício. E não, não será para sempre, apenas enquanto se fazem reformas corajosas que, essas sim, nos abrirão um futuro radioso. Afinal este bem intencionado governo herdara uma situação crítica e inesperada, quase criminosa, perpetrada e prolongada pelos seus antecessores, meliantes que se haviam lambuzado com a coisa pública. Inesperado sim, porque de nada sabiam quando, impolutos, receberam o voto de confiança do povo. E esse, o povo é soberano. A espaços, pelo menos

a.forma Ouvira a voz grave e trémula ditando sacrifícios alheios, fingindo consternação, aperto na consciência. E assustara-se ao vislumbrar, com clareza cristalina, a vertigem do poder, a demência de quem se julga imbuído de uma missão suprema, a excitação de uma glória futura. Glória vã, será.

as.ruas Mas, mais do que indignação, mais do que revolta, foi apatia o que se seguiu. Desesperança. Certeza de que, daqui nada mais de bom sairá. De que nada de bom algum dia virá, de que nada vale o esforço. Sentar e esperar. É aí que o encontramos, é aí que estamos, no fundo, todos nós. Sem vislumbrar o futuro. Porque foi esse, o futuro, que Passos Coelho ontem confiscou. Os subsídios são trocos.


…difícil

Esta sim, é uma fotografia difícil. Escolher o local para fotografar, fugindo a redes e protecções, vencendo distâncias de segurança é apenas o começo de tudo. Na decisão de como captar o momento escolhe-se um de dois caminhos. O mais fácil que, escolhendo velocidades de obturação altas, congela não só o objecto como toda a cena. Ou o mais difícil que, prolongando perigosamente o tempo de exposição, dá ao fotógrafo momentos de vertigem, decisivos, fronteira entre uma boa imagem de um falhanço completo. Este é o meu caminho, o mais prazeiroso, o mais exigente, o que aproveitando o conceito de velocidade relativa, acompanha o carro na sua trajectória vertiginosa, tornando ao mesmo tempo toda a envolvente numa amálgama de cores fugidias. Este é o meu caminho, difícil e egoísta, repleto de prazeres solitários ocultos por uma imagem banal. De um carro rápido, de um piloto que, adorando a vertigem, é provavelmente o único admirador do resultado final de uma tarde solitária, a ver a banda passar…


fácil…

Esta é uma fotografia fácil. Feita com uma máquina, como dizê-lo, ultrapassada, uma teleobjectiva, como dizê-lo, velha, e um tripé, como dizê-lo, banal. Os conhecimentos exigidos são básicos, a liberdade criativa reduz-se à decisão do enquadramento, dentre os três ou quatro possíveis. E no entanto é das que maior impacto causa, das que mais admiradores granjeia. Mérito da lua, por certo, mérito do Sol que nela se mira…


Mengo

Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte:- quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas, tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.

Nelson Rodrigues

(na impossibilidade de comparecer hoje na cidade maravilhosa para uma tentadora feijoada, deixo as palavras de Nelson Rodrigues, em jeito de agradecimento pelo convite…)