Mariana

Há coisas que não mudam, coisas a que, por muito que o tempo passe não passa o encanto. Ouro Preto, mítica capital de Minas Gerais, é uma delas. Ali voltei depois de uma longa ausência de 19 anos, ali voltei para pisar as calçadas de Vila Rica, para seguir os insurrectos caminhos da Inconfidência Mineira, ali voltei com o firme propósito de me demorar nos corredores do Museu de Mineralogia, de me sentar na mesa da magnífica Casa do Ouvidor, de vaguear sem rumo por entre repúblicas e vendedores de pedras preciosas. Assim foi, contemplando com evidente fascínio a vasta exposição de águas marinhas e topázios, turmalinas e ametistas, sorrindo ao encontrar uma biotite, pedra parideira oriunda de “Aráuca, Portugal”. Assim foi, ao repetir todos os passos que, ao acaso, me levaram há 19 anos às escadas que dão acesso à Casa do Ouvidor, ao constatar que tudo naquela sala continua igual, tradicional e mineiro como o divino tutu que, não fora a impossibilidade temporal, e poderia jurar ser o mesmo de então. Para rematar a jornada um reconfortante chá de fim de tarde na Pousada Casa Grande, antecipando o dia seguinte reservado a Mariana. Há coisas que não mudam e, admitindo que Mariana está entre elas, mudei eu, mudaram os tempos, mudaram-se as vontades. Mudou a imagem que tinha da primeira cidade Mineira, que surgiu agora, ordenada e preservada, encantadora e histórica, monumental e com personalidade bem vincada. Livre da omnipresença de Tiradentes e da Inconfidência Mineira, perdido o estatuto de capital do Estado para Vila Rica, Mariana manteve como poucas a dimensão e o encanto de cidade de interior, com ruas vivas, praças cheias de maritacas e de ipês, belas igrejas coloniais e um pelourinho desenterrado do esquecimento a que foi votado aquando da abolição da escravatura e reerguido novamente, retomando a sua pose autoritária. Mas há coisas que não mudam, e uma delas é a obrigatoriedade do regresso. Para trás, o Itacolomi deleitava-se com os últimos raios do sol de inverno. Adiante a noite ia caindo sobre a centenária capital das Geraes, destino último dos meus regressos. Porque há coisas que não mudam…

9 responses

  1. Isabel

    Adoro os detalhes das tuas descrições e o sentimento que pões em cada palavra…
    Beijo grande meu amigo!

    Agosto 23, 2011 às 4:41 pm

    • Obrigado, Isabel, sinceramente obrigado.
      Bj,
      P

      Agosto 23, 2011 às 9:40 pm

  2. Mudou você, mudei eu, mas Mariana também mudou. Quando estive por lá em 2006, a cidade estava toda em obras, vários monumentos e igrejas sendo restaurados, calçadas sendo refeitas, paredes sendo repintadas. É uma cidade que me agrada muito exatamente pela proximidade com Ouro Preto, mas por ainda ser ela mesma, apesar dessa proximidade. Pena que vocês não pegaram um concerto do órgão na catedral, é um espetáculo belíssimo. A isabel está certíssima, suas descrições são tão deliciosas quanto o tutu com uma capirinha honestíssima da Casa do Ouvidor… 🙂
    bjk

    Agosto 23, 2011 às 5:42 pm

    • Obrigado, Mônica. de facto, quando cheguei em Mariana nao parecia a mesma cidade que visitei em 92. Por outro lado não havia sinal de grandes recuperações ou obras, pelo que achei que a mudança só podia estar nos meus olhos…
      Bjs,
      P

      Agosto 23, 2011 às 9:39 pm

  3. Celso

    É isto aí Pedro. Belo texto e bela foto.

    Forte abraço,

    Celso

    Agosto 23, 2011 às 5:46 pm

    • Obrigado, Celso.
      Abraço.

      Agosto 23, 2011 às 9:37 pm

  4. Bernardino

    Quando voltas !?
    Está a faltar gente para o FUTEBOL …

    Agosto 23, 2011 às 5:52 pm

    • Na próxima semana já estou aí, pá. Vai marcando…

      Agosto 23, 2011 às 9:36 pm

  5. isabel alves

    Olá Mano! que bom ter-te no meu ecran! Não sei se escreves melhor do que fotografas ou viceversa! A verdade é que adorei tudo e soube-me muito bem sentir-te tao perto! Parabens e continua!
    Estou cheia de saudades vossas! Bom regresso! Beijos para todos e um especial para o meu artista! Bela!

    Agosto 27, 2011 às 12:01 am

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