ali estava ela…

Primeiro era a excitação de tê-la. Afinal tinha povoado os seus sonhos de adolescência, inatingível e misteriosa. Tinham-se passado décadas e ali estava ela, fitando-o com estranheza, deixando-se adivinhar difícil, insinuando a possibilidade de tardes inesquecíveis. Ali estava ela, com idade incerta, mas por certo experiente, segura de si, exibindo marcas do tempo passado,  pavoneando o inevitável fascínio que despertara outrora. Afinal era uma mítica objectiva de espelho, capaz de vencer qualquer distância, de lhe oferecer todos os pássaros, possíveis ou não, piscos, milhafres e gaios. Mas não foi fácil como se previa, não lhe foi fácil, em plena era digital, voltar à pré-história, prescindir do conforto dos modos automáticos, dos programas, do auto-focus ou mesmo do fotómetro. Percebeu então que as suas mãos não eram já as mesmas, agora lentas e hesitantes, que os seus olhos deixaram a acutilância de outrora, que já não lhe era fácil compreender a luz. À esperança da pré-visualização sucedia-se a decepção com o foco falhado, a luz em excesso ou em falta. Ou todas as anteriores. Desistiu então, voltando às borboletas e abelhas, menos arredias, menos exigentes do que os pardais e melros. E a velhinha Nikkor lá se acomodou no canto da mochila, esperando renascer um dia. Mas, a cada primavera, a passarada cantava mais alto, voava mais perto, passando rente à velha mochila. Sentiu-se renascer e resgatou-a ao esquecimento. Nova oportunidade, pedia o chilrear, esperando que desta feita os dedos fossem mais firmes, o olhar mais atento o sentido mais apurado. Assim foi, e com o tempo lá vieram os truques, a firmeza, mas sobretudo a paciência. E vieram então as fotos, de pássaros ariscos e vulgares, transformados em aves vaidosas e belas, decididas em fotografar-se com aquele símbolo de outrora, de outras eras. Veio a confiança, no seu golpe de vista, na precisão do olhar, mas sobretudo na velhinha Nikkor, objecto de sonhos adolescentes que agora o acompanhava, aos quarenta-e-tal, por entre giestas, pinhais e penedos. Responsável por um renascer, daqueles de que a vida é feita…

8 responses

  1. lindo demais, o texto e o olhar! beijao

    Agosto 2, 2011 às 3:54 am

    • Obrigado, Andrea! Beijão

      Agosto 2, 2011 às 9:34 pm

  2. Tatiana

    Muito bom!

    Agosto 2, 2011 às 7:24 am

    • Obrigado, Tatiana. A foto é em São João do Monte, junto ao Rio…

      Agosto 2, 2011 às 9:34 pm

  3. Sérgio

    Caro amigo acho fantástico este texto, faz-me pensar que nunca nos poderemos sentir demasiado “antigos” para fazer seja o que seja.
    Grande abraço
    Sérgio

    Agosto 2, 2011 às 7:41 am

    • sim, nós os nascidos em 69 nunca seremos antigos…
      Abraço

      Agosto 2, 2011 às 9:35 pm

  4. Perfeito.

    Outubro 8, 2011 às 11:09 am

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