Archive for Agosto, 2011

trânsito

Impressiona o trânsito de Belo Horizonte. O volume, o frenesim, a anarquia, a quase ausência de regras, que atingem o seu climax na hora de mudar de direcção. Mudanças de direcção sem sinal, viradas surpreendentes cruzando várias faixas são normais. E aparentemente são encaradas como tal. Nas passadeiras, então, a ordem é seguir em frente, salvo se não se conseguir por nenhum outro meio fugir ao atropelamento iminente. Impressiona-me o trânsito de Belo Horizonte. A quase ausência de acidentes, toques, grandes ou pequenos, ou atropelamentos. É como se a anarquia realmente funcionasse. Como se, perante a inevitabilidade da infracção alheia, todos adoptassem postura previdente e cautelosa. Ajuda, evidentemente, a tradição de inexistência ou ineficiência dos seguros, levando a que, em caso de acidente seja cada um por si. No fundo é como se a imperfeição do sistema fosse a razão para o seu bom funcionamento. Como se da imprevisibilidade reinante nascesse uma nova ordem, efectivamente auto-regulada. É como se a anarquia tivesse encontrado terreno fértil, nas ruas de Belo Horizonte, como se, pelo menos aqui, ela realmente funcionasse…

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Fortaleza

De Fortaleza guardo a vista do mar. Sim, a vista é de cidade turística, de um certo turismo, que vive de passeios na marginal, praias urbanas e noites animadas, de costas voltadas para a cidade, no fundo. Entende-se, quando a cidade oscila entre a ostentação de prédios de 20 andares, e deprimentes barracas, de acrescentos e anexos, crescendo paredes-meias com as piscinas, quadras e elegantes áreas sociais. Entende-se, quando a presença de segurança é intimidatória, evidente nos  gorilas à porta dos restaurantes, como nos ameaçadores cães-de-guarda distribuídos ao anoitecer a guardas plantados à porta dos edifícios de luxo. Entende-se quando o que não falta são sinais da omissão do estado, patente na insegurança caótica de bairros como o titãzinho ou mesmo na Praia do Futuro. Ou a incúria que permite o abandono de velhos navios ao largo, deixados à sua sorte e aos elementos. Fico-me pois pela vista de longe, do barco que passeia ao largo da cidade, evitando destroços metálicos colossais, que o tempo vai apagando…


Mariana

Há coisas que não mudam, coisas a que, por muito que o tempo passe não passa o encanto. Ouro Preto, mítica capital de Minas Gerais, é uma delas. Ali voltei depois de uma longa ausência de 19 anos, ali voltei para pisar as calçadas de Vila Rica, para seguir os insurrectos caminhos da Inconfidência Mineira, ali voltei com o firme propósito de me demorar nos corredores do Museu de Mineralogia, de me sentar na mesa da magnífica Casa do Ouvidor, de vaguear sem rumo por entre repúblicas e vendedores de pedras preciosas. Assim foi, contemplando com evidente fascínio a vasta exposição de águas marinhas e topázios, turmalinas e ametistas, sorrindo ao encontrar uma biotite, pedra parideira oriunda de “Aráuca, Portugal”. Assim foi, ao repetir todos os passos que, ao acaso, me levaram há 19 anos às escadas que dão acesso à Casa do Ouvidor, ao constatar que tudo naquela sala continua igual, tradicional e mineiro como o divino tutu que, não fora a impossibilidade temporal, e poderia jurar ser o mesmo de então. Para rematar a jornada um reconfortante chá de fim de tarde na Pousada Casa Grande, antecipando o dia seguinte reservado a Mariana. Há coisas que não mudam e, admitindo que Mariana está entre elas, mudei eu, mudaram os tempos, mudaram-se as vontades. Mudou a imagem que tinha da primeira cidade Mineira, que surgiu agora, ordenada e preservada, encantadora e histórica, monumental e com personalidade bem vincada. Livre da omnipresença de Tiradentes e da Inconfidência Mineira, perdido o estatuto de capital do Estado para Vila Rica, Mariana manteve como poucas a dimensão e o encanto de cidade de interior, com ruas vivas, praças cheias de maritacas e de ipês, belas igrejas coloniais e um pelourinho desenterrado do esquecimento a que foi votado aquando da abolição da escravatura e reerguido novamente, retomando a sua pose autoritária. Mas há coisas que não mudam, e uma delas é a obrigatoriedade do regresso. Para trás, o Itacolomi deleitava-se com os últimos raios do sol de inverno. Adiante a noite ia caindo sobre a centenária capital das Geraes, destino último dos meus regressos. Porque há coisas que não mudam…


Emporium

Ao Emporium Mineiro chega-se subindo a Afonso Pena, subindo a Serra do Curral. Ao restaurante chega-se por um acolhedor beco ladeado por típicas construções mineiras, um bar convidando à prova de cachaças, um armazém, levantando a ponta do véu para a típica cozinha mineira que se avizinha. Ao fundo, a sala, acolhedora e informal, telheiro assente em paredes cheias de recordações do passado ou vislumbres do futuro. Ali convivem fotografias antigas, portas pesadas com prateleiras cheias de ovos de codorna, pimenta de bico prometendo encantos futuros, ou enormes tachos por onde passaram as muitas compotas e doces que ali nos esperam. Às mesas, enormes e convidativas, chega em primeiro lugar o papo solto, seguido da generosa cerveja Bohemia, solta também, acompanhada aqui e ali por cachaça bem mineira. O obrigatório pão-de-queijo e o irresistível torresminho fazem o seu caminho até à mesa, onde solta segue a conversa. Depois o perfeito e omnipresente feijão tropeiro que, quando acompanhado por um belo pernil assado, merece a classificação de património imorredouro da humanidade. Para fechar, doce de leite, queijo minas e um indescritível doce de goiaba que, imagino, terá passado por sábias mãos mineiras guardiãs de segredos que circulam entre gerações desde os tempos de Curral D’El Rei. Por fim, ainda rolava solta a conversa, impôs-se o aromático café recém-passado, que quero crer vindo do norte de Minas, pedindo o muito Português hábito do cheirinho. Desta feita com um pouco da honestíssima Vale Verde, encerrando em beleza o almoço. Já na rua, na Afonso Pena, já o sol se preparava para desaparecer, tornando dourada a Serra, e ainda a conversa não dava sinais de fraqueza. Mas a hora era de descer rumo ao centro, passando por ipês floridos, vendo ao longe os despojos do dia, restos da feira que anima a cidade, todos os domingos de manhã…


ali estava ela…

Primeiro era a excitação de tê-la. Afinal tinha povoado os seus sonhos de adolescência, inatingível e misteriosa. Tinham-se passado décadas e ali estava ela, fitando-o com estranheza, deixando-se adivinhar difícil, insinuando a possibilidade de tardes inesquecíveis. Ali estava ela, com idade incerta, mas por certo experiente, segura de si, exibindo marcas do tempo passado,  pavoneando o inevitável fascínio que despertara outrora. Afinal era uma mítica objectiva de espelho, capaz de vencer qualquer distância, de lhe oferecer todos os pássaros, possíveis ou não, piscos, milhafres e gaios. Mas não foi fácil como se previa, não lhe foi fácil, em plena era digital, voltar à pré-história, prescindir do conforto dos modos automáticos, dos programas, do auto-focus ou mesmo do fotómetro. Percebeu então que as suas mãos não eram já as mesmas, agora lentas e hesitantes, que os seus olhos deixaram a acutilância de outrora, que já não lhe era fácil compreender a luz. À esperança da pré-visualização sucedia-se a decepção com o foco falhado, a luz em excesso ou em falta. Ou todas as anteriores. Desistiu então, voltando às borboletas e abelhas, menos arredias, menos exigentes do que os pardais e melros. E a velhinha Nikkor lá se acomodou no canto da mochila, esperando renascer um dia. Mas, a cada primavera, a passarada cantava mais alto, voava mais perto, passando rente à velha mochila. Sentiu-se renascer e resgatou-a ao esquecimento. Nova oportunidade, pedia o chilrear, esperando que desta feita os dedos fossem mais firmes, o olhar mais atento o sentido mais apurado. Assim foi, e com o tempo lá vieram os truques, a firmeza, mas sobretudo a paciência. E vieram então as fotos, de pássaros ariscos e vulgares, transformados em aves vaidosas e belas, decididas em fotografar-se com aquele símbolo de outrora, de outras eras. Veio a confiança, no seu golpe de vista, na precisão do olhar, mas sobretudo na velhinha Nikkor, objecto de sonhos adolescentes que agora o acompanhava, aos quarenta-e-tal, por entre giestas, pinhais e penedos. Responsável por um renascer, daqueles de que a vida é feita…