Costa Nova do Prado

À Costa Nova do Prado chegava-se por uma velha ponte de madeira sobre o canal que em 1808 lhe deu origem, separando-a da Costa Velha de São Jacinto, forçando as companhas a migrarem para sul. Para trás ficavam o Rio Àgueda que, aparecendo por alturas de São João do Monte, seria companhia de viagem, serpenteando nos fundos vales da Serra. Para trás ficava o Vouga, que, depois de Águeda, denunciava a proximidade do destino, fazendo crescer a ansiedade. Finalmente a Ria, dita de Aveiro omnipresente nos últimos minutos da viagem,como em todo o mês seguinte. Chegando-se à Costa Nova chegava-se à casa do Capitão Vitorino que seria a nossa durante essas longas férias. A Costa Nova de então organizava-se em torno de duas ruas longuilíneas, acompanhando a forma da língua de areia que separa a Ria do Atlântico. Na rua ocidental, mais próxima do mar, ficava a Casa, depois do cinema, em frente a uma loja de brinquedos que, sendo passagem obrigatória para a praia, atormentaria todos os meus dias de Verão com seus baldes coloridos e enormes camiões de plástico. Da Casa recordo os trejeitos arquitectónicos que, à data me pareciam de uma genialidade ímpar, o sotão acanhado e encantador e o poço, no pátio, servido por uma enorme roda com manivela que só super-heróis conseguiam girar. Virando a esquina descia-se até à outra rua que, ocidental e mágica, impedia a Ria de beijar as casas coloridas que são até hoje a imagem da vila. Era aí, ao longo da Ria, que inevitavelmente tinham lugar os passeios nocturnos, por entre barraquinhas metálicas e quentes onde se faziam as bolachas americanas, estaladiças e dobradas cuidadosamente como se de um lenço se tratasse. Mais adiante o ancoradouro em forma de meia lua de onde partia o barco para a outra margem, para a misteriosa Gafanha, outrora terra de desterro de leprosos, ainda morada da “Bruxa”. No final, a Sul, o elegante mercado onde, para além de peixe fresco, fruta e legumes, se vendiam peças de cerâmica de segunda escolha da afamada Vista Alegre. E brinquedos, claro, bolas, pás, baldes e moínhos de areia, todos eles coloridos, todos eles tentações moldados em peças de plástico. Mas, com o passar das marés, passou o tempo, também. E com o tempo, à Costa Nova deixou de se chegar pela velha ponte, a Casa do Capitão Vitorino deixou de ser destino, demolida e substituída por um um prédio sem encanto. Com o tempo deixou a Ria de ser companhia para os passeios nocturnos, empurrada que foi para longe das casas, para trás de um enorme e árido aterro. O ancoradouro perdeu então a sua função ganhando laivos de triste nostalgia. Até o velho Mercado deu origem a um espaço estranho e asséptico, sensaborão. Sobrevive-lhe, ao tempo, o Capitão Vitorino, que imagino sem medo, saindo calmamente para o agitado mar no seu frágil barco, que imagino regressando com as redes cheias, mesmo a tempo de fumar o seu cachimbo enquanto vagarosamente rodava a manivela do poço. Nas suas redes, aposto, não haviam de faltar rodovalhos que, quando feitos em caldeirada perfeita como a que agora me delicia, resgatam por breves instantes a geografia imaginária e antiga, de ruas e vielas entre entre a Ria e o Atlântico. A geografia imaginária de uma Costa Nova do Prado que foi. De um Verão que passou.

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2 responses

  1. Bela foto e belo texto pra combinar!!!
    bjk

    Julho 29, 2011 às 7:24 pm

  2. A foto é da Vagueira, um pouco a sul da Costa Nova, Mônica.
    Terra de pescadores que, destemidos, se faziam ao mar nesses frágeis barcos para lançar a rede. Terra onde se come até hoje a melhor caldeirada de enguias do mundo…
    Bj

    Julho 29, 2011 às 9:44 pm

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