de Camões

Começou por ser feriado municipal de Lisboa, a propósito da morte de Camões. Foi em pleno Estado Novo que ganhou o estatuto de feriado nacional, ganhando o pomposo epíteto de Dia da Raça. Da Portuguesa, seja lá o que isso é. Após o 25 de Abril de 74 é promovido a essa amálgama que é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Por mim dispensava-o. Dispensava os anacrónicos desfiles, dispensava condecorações vazias. Dispensava a exaltação nacional, a celebração da grandiosa gesta Portuguesa, a eterna evocação da epopeia dos descobrimentos. E, celebrássemos nós o dia da morte de  todos os poetas mais ou menos geniais, e acabaríamos o ano com menos um punhado de dias de trabalho. Por mim limito-me a evocar Luis Vaz de Camões no dia da sua morte.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

  

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One response

  1. Procurava uma foto do Camões para ilustrar de que ainda vivia, mas preso por um fio.
    não resisti a levá-la: a foto diga-se.
    em contra partida deixo o vilancete responsável

    Luís de Camões

    [ ainda vive ,mas preso por um fio ]

    Catarina bem promete
    Vilancete
    Cantar velho

    Catarina vem promete.
    Ora má! Como ela mente

    Voltas
    Catarina é mais formosa
    para mim, que a luz do dia:
    mas fina seria se não fosse mentirosa
    Hoje a vejo piedosa,
    amanhã tão diferente,
    que sempre cuido que mente.

    Prometeu-me ontem de vir:
    nunca mais apareceu!
    Creio que só prometeu,
    Senão só para me mentir.

    Faz-me, enfim, chorar e rir:
    Rio quando me promete
    Choro quando me mente

    Jurou-me, aquela cadela,
    De vir, pela alma que tinha: enganou-me,
    Tinha a minha : deu-lhe pouco em perdê-la
    (…)
    Má, mentirosa, malvada!
    Dizei: porque me mentis?
    Prometeis, e então fugis?,
    Pois sem tornar. tudo é nada
    Nãao sois bem aconselhada: que quem promete, se mente
    O que perde, não no sente

    (…)
    Catarina me mentiu
    Muitas vezes, sem ter lei:
    A todas lhe perdoei,
    por uma só que cumpriu.

    Se, como me consentiu
    falar-lhe , o mais me consente :
    nunca mais direi que mente

    Camões Lírica, Antologia Portuguesa

    Novembro 2, 2011 às 10:19 pm

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